terça-feira, 17 de outubro de 2017

Fetiches

Lutei feito leoa as batalhas deste dia.
Eis, que me deito agora, gata mansinha
Ronronando entre almofadas de plumas
Felina, ainda, com garras prontas.
Ouves de longe meu roçar persistente.
Miados, gemidos e dentes. Te encaro.
Já na cozinha me espiãs malicioso
e ouço o tilintar da tigela de leite...
Ah, sabes que adoro mamar.
Esfrego-me oferecida entre suas pernas
e sagazmente lambo a gamela..
Vez ou outra olho-te de soslaio,
compreensivo afaga de leve meu rabo.
Então, satisfeita salto-lhe ao colo e 
face a face lhe proponho intimidade.
Tu me abraças protetor e resolve
abrandar meu calor: me despes devagar,
cobrindo de beijos minha derme.
Minhas garras retráteis já no tesão te marcam a pele.
Rolamos na cama numa fúria dulcíssima.
Te clamo selvagem. Me chama "menina".
Neste coito perfeito, recheado de amor.
O que buscamos é prazer, delicadeza e dor.

AngelPiai

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Menino

Menino, vivo sonhando com teus beijos salgados na água do mar, com o gosto desta tua pele morena mesmo sem o sol te queimar.
Aí, menino está tua voz rouca me põe louca e me faz sambar. Eu entro na roda esqueço na hora que nem sei dançar.
Quando o teu Batuque retumba na noite eu sinto o açoite do desejo a carne marcar.
Salgo a ferida com o suor que escorre enquanto  no rebole tento fazer-te me olhar. 
Tu és o rei da madrugada, e eu a poeta por ti apaixonada. 
Canta, menino,  e encanta este meu coração. Meus versos são ecos dos versos de tua canção.
Vai, malandro, no swing do samba e rouba este meu coração  roque n roll.
Dama e vagabundo, perdidos no mundo, se amando em vão.
Eternizo-te em minha poesia enquanto a fantasia de mim te afina o refrão.



AngelPiai

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Totens

Totens

Quero hibernar com o urso numa floresta encantada pelos nossos sonhos.
Colher da Terra as flores e os frutos deste nosso amor.
 Quero a ingenuidade das manhãs, a preguiça das tardes,  contar e ouvir histórias enquanto cai a noite em volta da fogueira cercada pela magia da lua e pelo seus seguidores.
Quero louvar a mãe Terra dançando nua em orgias poéticas. Livre de medo. Liberta de culpas. Sem posses ou possessões.
Quero dedicar-me ao sossego da escuridão, revoando a floresta. Sendo o que sou nas asas da coruja.  Do alto ver a vida fluir nas águas, verdejar nos vales.
Dispo-me e vou. Convicta filha da Deusa que me habita'.
Deitar-me-ei ao lado do doce leopardo e invisíveis rugiremos o silêncio dos que têm fé.
 Uma longa trajetória fizemos até aqui, espíritos fragmentados que se fundem numa perfeita alquimia. Nossa história não está nos livros de história, ela sangra nas veias cósmicas deste Universo por além da eternidade.

AngelPiai


Sentidos

Sou feita de olhos que veem:
 a leveza cruel das palavras
 as sutilezas do ódio contido
 o estrago da ignorância

 Sou feita de ouvidos que ouvem
 o medo das mães famintas
 o assassinato silencioso das florestas
 o gemido agonizante dos rios 

Sou o palato que sente 
a crueza da carne exposta
 a fome dos versos escritos
 o estupro do que foi a infância
 
Sou feito faro que fareja
restos de humanidades entre os homens sobras de bondades caídas no chão farelos de esperança ocultos sobre o medo 

Sendo coberta do sentir da cabeça aos pés
frágil alma carrego em mim
tatuada de ventos e tempestades deixe-me ser... profundidades


AngelPiai



sábado, 30 de setembro de 2017

Pio da coruja


Pousa as tuas longas asas sobre meu ombro dormente
e ao lado do meu coração, me pressente
Pia teu mau agouro. Não temo!
 Meu destino prevejo escrevo em versos que não ousam rimar
Ao vento exponho minhas mágoas, ele as levará.
À chuva entrego minha lágrima e ela inundará (rios e mares) invadindo cidades.
O caos que trago é revolução. Só assim as peças do velho jogo se perderão. Recomecemos mais livres e leves.
Não há veneno que acabe com quem devora serpente.
A observar na noite os seres que o dia despreza me misturo entre brumas bruxas poesias e (h)eras.
Minha arma é ser o que sou: garra, asas e arte! Pretensão, à parte!
Hipocrisia seria não devorar os ratos que rondam as lixeiras ou comer as putas que fumam nas biqueiras.

AngelPiai