quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Mensagem

O tempo não existe. Ou existe? Nós marcamos o tempo, a partir de observações particulares e universais e criamos relógios e calendários. Nós nos organizamos desesperadamente dentro dos segundos que marcamos. Temos hora para isso, e hora para aquilo... Tudo é pressa e urgência, pois o tempo, esta passando.

Nós, Homens,  estabelecemos o “tempo” e hoje somos servos dele.

Estamos, de acordo com o calendário que nos rege, chegando ao final de um marco e início de outro. Estabelecemos esse período para que houvesse uma pequena pausa nas urgências, a fim de refletirmos nossas prioridades e renovarmos nossas esperanças.

Infelizmente o ano que passou foi um período de grandes amarguras para nós, estes dias finais principalmente.   
Ao longo deste ano e enfrentamos muitas coisas. Nada foi fácil nos forjamos de lutas e ternura!

Não há a frente de nossos olhos aquela meninazinha (do poema de Mario Quintana) chamada Esperança com um sorriso no rosto a nos acenar. Mas quando nem a esperança acena nos agarramos à fé. Pois a fé surge quando nos forçamos a crer sem ver nada, seguindo adiante apenas com uma “coragem não nossa”...

Começaremos o próximo ano abraçados a esta fé em dias melhores. Esperando que alguns corações gananciosos se derretam,  que o que é humano seja valorizado,  que nossos suores sejam reconhecidos, que saiamos vitoriosos das duras batalhas... Não com esperança, vamos com fé.

Angel

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Eu

Não sou a mocinha que precisa ser salva.
Sou a guerreira que se infiltra nas batalhas
Não sou a donzela que espera pelo seu beijo
Sou Madalena, sou Lilith, sou Dalila...
Fui para muitas guerras
E, quando sangrei, suturei minhas próprias feridas.
Eu mando no meu desejo.
Eu não me sinto em pecado  
Eu gozo na cara do recato
E não é porque sou livre que tenho que me 
dar para  quem quer que seja.
Deuses ou demônios pode brincar com meu destino, mas sou senhora do meu espírito!

Angel

domingo, 18 de dezembro de 2016

Drummond

A tarde me ronda varejeira.
A dor me limita o físico
Meus pensamentos, no entanto,
Vagueiam por todos os cantos
Nos versos de um Itabirano

Eu queria um Drummond para mim..




Angel.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Amo

Me pede poesias sensuais
Para seduzir outras mulheres
E eu te dou e te doo o melhor de mim.
Não há perdão para o que faço
Contra mim
Contra quem se importa comigo
Contra a poesia

A dor de ser tão pouco
É meu castigo
A minha insignificância
É inspiração

Por isso minha poesia sobrevive
Embora eu, talvez, não.

Angel

Amor

Abraço a esperança deste amor
Que não existe
Você que eu amo
Também é inexistente.
É uma projeção dos meus desejos
É a droga que eu preciso me
 acalmar antes de adormecer

A sua não existência
Injeta em mim o animo
De ser

Angel.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

É foda!



Tudo é sexo 
Na fodilança dos dias
Desde os primórdios do tempo
Da mais etérea agonia
Se tudo em Freud é foda
Em Jung se masturbaria

Há sexo em Beethoven
Em sua nona sinfonia
Na carta à sua amada
Em sua imortal melodia

Por isso lhe digo, baby
Há sexo no rock liberdade n' roll
Vivido desde Woodstock
Entre os becks e os shows

Em Sade, o poeta
Aliás, em toda poesia...

Há sexo na filosofia
Dentre os mais doutos homens
A sífilis foi a kriptonita
De Nietzsche e seu super homem

Em Hanna amando Heidegger
Em Sartre e Beauvoir

Há porra por toda cidade
Em todo beco ou portão
Somos bicho, somo gente 
E todos temos tesão

Há sexo na putaria
E também na castidade
Um no dia a dia
O outro só na vontade

Vivemos tempos nefastos
De recatada hipocrisia
Onde a paixão é pecado
E a violência cartilha

O pai da psicanálise
Observa sabiamente
Que tudo  que se repreende
Vira alguma neurose

Enfim, somos todos
Santos hipócritas
Sofrendo de psicose

Angel

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Menina



Eu espreito teus pensamentos.
Invado seu inconsciente em busca de teus mais íntimos desejos.
Pego no rabo do teu olhar tuas querências.
E então, desvendados teus mistérios (e só então) eu te toco
Com a ponta dos dedos. 
Levemente acaricio tua face, vou descendo sem pressa e sem tirar meus olhos dos teus.
Minhas mãos chegam a cintura, perco a suavidade e te puxo num tranco.
Nossos corpos são desejo, sem espaço.
Percebo tua respiração alterada e  roubo um beijo.
O beijo que sempre foi meu.
Nos despimos ainda em beijo e já somos cama. 
Minha boca deixa a tua e explora teu corpo.
Teu corpo tremula de prazer. 
Ouço teu gemido.
Teu urro de fera no cio me excita ainda mais. 
Te invado furioso, sem pudores. 
Enfim, fodemos como animais famintos.
Busco teus olhos, por eles desvendo tua alma.
És minha menina.
Sempre será.

Angel

Suja



Me come feito um cão faminto
no chão de uma rua qualquer.
Me roa até os ossos.
Quero esse canibalismo poético.
Quero gozo e suor. 
A necessidade de te pertencer me angustia.
Há uma febre
      consumindo meu corpo
                e você é a cura.
 Quero lamber o teu suor e 
     me lambuzar na tua porra.
         Quero estar suja de você até  a alma.


Angel

Solidão



Lá fora um vento de tempestade grita
As janelas trepidam agonizantes
Tudo que é madeira range
O frio me deixa cheia de saudades
Saudades tristes.
Quero teu colo, teu coito e teu afago
Meu silêncio te rumina...

Angel.

Sermos


A possibilidade do nosso encontro me excita.
Há em minha pele ansiosa o prever do seu toque, o adivinhar do seu gosto e pressentir do seu cheiro.
Me é familiar ser sua, lhe pertencer...
É reencontro saudoso. Recompensa a toda solidão sofrida. 
Sim, finalmente serei sua. 
As horas agora não passam de música e os ponteiros são dançarinos a valsar em meus delírios.
Sendo são sua sua ausência é meu não ser. 
Venha que a noite chega e , com ela, o meu medo.

Angel.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Depressão




Tem dias que eu a venço
Há momentos que ela  domina
Na maior parte do tempo
Somos siamesas
De tão unidas
(Eu e minha tristeza)

Angel.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Olavo

Com sono/ 
Cansado
Mas sem poder dormir
Sozinha vaga
A onda do mar a me invadir
A cama, um barco
Quase um porém a intervir
E eu naufrago
Neste meu medo de sorrir
O verbo invade
O meu sujeito sem medir
As consequências
Da norma culta transgredir
A flor do Lácio
Chafurda na lama do chão
E é assim que nasce
A poesia transgressão
Amo-te assim humana e imperfeita
Que se foda a erudição
A minha língua lambe 
    terra, 
      porra, 
         poesia e 
               esse chão.
Se ela é portuguesa também é africana, guarani  e tantas outras
Por isso eu pontuo como quero este meu lirismo insano.
Não vou adjetivar um dano
Pra usar de fino pano e
Camuflar meus versos nus e em pus
A vertigem que a maresia causa
Não dá tregua ou pausa
Preciso é remar...
Nando já dizia navegar é preciso
Rumo ao grande Nilo
Vou barqueiro errante
Voraz delirante
Poeta-mar



Angel.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Viagem



Não sei se aqui fico
Ou se me vou
A estrada é longa
Meu pneu furou

A lembrança pesa,
Mas não dá pra deixar
Os meus pés cansados
Estão a sangrar

Eu me apaixonei
Dei meu coração
Dei-lhe minha poesia
Foi tudo em vão

Igual a mim
Haviam muitas
Tolas todas
Poetas tolas
Ele, sem coração.

Falou que amava almas
De sua  solidão
Era mentira tudo
Me entreguei em vão

Coloquei meus restos
Numa mala escura
Eram apenas cacos
Não davam sutura

Hoje minha rima
Mais pobre ficou
Foi-se a paixão
Só a dor restou

Não sei se aqui fico
Qual é o meu lugar
Eu sou um poeta
Quem pode me amar?

Angel.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Prosinhas



Ela era tão solitária que podia ouvir o som de sua dor rangendo na madrugada.
E, naquele silêncio bucólico, espremia os olhos e as lágrimas ausentes escorriam invisíveis por suas olheiras e por sua pele pálida de defunta.
Seu corpo, em rigidez cadavérica não dormia, nem descansava simplesmente existia ereto, horizontal, sobre lençóis negros. Sem sonhos.

Angel

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Poetas vão pro Inferno



Berrei tanto que hoje sou grito
Briguei tanto que hoje sou guerra
Uma moleca com pés no chão
Sempre verso, nunca canção

Ave, a moça de rapina,
A devorar tuas entranhas
Enquanto ainda respiras

Não há resquícios neste corpo
De alma de fêmea ou dama
Nada mais dor que ser livre
Nada mais vil que mulher poeta
Nada mais forte que amar a Arte
E, por ela, ser violenta.

Ergo minha espada. Ela é um lápis.
Empunho um escudo. Ele é de papel
Rastejo em esgoto. Vivo o submundo
A luta com meus versos é cruel

(Nunca um poeta
Ganhará o céu)

- Nunca um poeta 
Ganhará o céu.

N u n c a  u m  p o e t a
G a n h a r á  o  c é u

Berrei tanto, que grito!
Briguei tanto, sou guerra!
Mas dói, dói mesmo
É ser poeta.

Angel.
Pintura de Roberto Ferri



Poeta


Tenho em mim
Todos os poemas lidos
Numa infância doce e triste
Que na lembrança
Nem parece ter existido
Meio que parece sonho
Meio que tarde de outono

Tenho em mim uma goiabeira
Que cresceu em meu quintal
Pra onde levava meus livros
Trepava agilmente
Comia polpa e semente

Tenho em mim uma casa num sítio
Onde, eu cria, o universo se resumia
Lá era circo, outro planeta, ilha
Deserto, floresta, lua cheia

Tenho em mim uma igreja
Com os altares mais belos já vistos
Onde minha fé nasceu
Onde minha fé agoniza

Tenho em mim pessoas
Que são e que se foram
E, por terem ido
Tenho saudades...

Sou una história tecida
De outras histórias, 
De algumas esperanças e
De um pouco de mágoa
Mas não sou triste

Sou a história de uma poeta
Que ninguém lembra que existe
Pois vive num mundo que tem pressa
E não tem tempo pra poesia.

Sim, sou uma história bonita
Que breve será esquecida.

Angel



quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Heráclito e o trem




Na silenciosa estação
dormitam  trens
Sobre os  enferrujados  trilhos
Do não-ser

O  trem adormecido
Não vê que tem consigo
Fantasmas  tão temidos
De amores perdidos

Encontros e partidas
São só almas perdidas
Chamas desta vida
Em eterna  despedida

Diversa dimensão
É o fluir da Estação
Passos que são dados
Entre presentes e passados

O trem  parado não passa
De Mitologia pulsante
aos olhos do Poeta errante
     que  dá voz ao carvão
           que dá vida à celulose
              que do barros fez o homem
e o homem fez o trem
que faz  poesia enquanto é

Por isso agora a estação vira poema
O trem mesmo parado
Não fica, se movimenta.
Tudo é devir na estação

E, porque transito, por estes vazios
Não sendo o mesmo a cada passo
O tempo se desprende do espaço
Eu já não sou o que era

Fluindo contradição
Pela silente estação
Profano os  trilhos sagrados
Do vir a ser.


Angel

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Diálogo com a Musa

Não vá embora, sente-se aqui e me conte como foi o teu dia.
Faça alguns versos com as nossas dores enquanto bebemos duas xícaras de poesia preta e sem açúcar que é para curar a ressaca dessa nostalgia.
Fica um pouco mais poeta.
Não seja breve, quero-te eterno.
Ainda é cedo para a boemia...
Então, deixei-me recostar a cabeça em teu peito e ouvir bater este coração partido.

Angel.

Você

A escuridão me envolve feito serpente
Preciso de sua mão segurando a minha.
Sua voz rouca, me acalma
Eu sei, cresci em dor. Me viciei. Preciso dela para encarar meus demônios.
Então, me aconchegue em seus braços e me dê uma dose. Apenas mais uma. 
Dormirei tranquilamente.
(Estou cansada dos pesadelos)

Angel.

Você


Olhei você perdido no mar.
Um barco de papel em meio a tempestade.
Aconcheguei-lhe com carinho entre as mãos.
Desdobrei-lhe... Que surpresa; eras um poema!

Angel.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Louca



De loucura em loucura vou me tornando a puta que todos previram. 
Não quero agora, em plena maturidade, ser recatada em minha poesia.
A Arte nunca foi santa, mesmo quando era sacra.
A Arte só é Arte quando é profana e se espalha além dos limites da hipocrisia.

Angel.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Jornal de Ciências







Depois de anos de experimentos, de testes científicos e comportamentais e de infinitos congressos internacionais, uma coletiva de imprensa foi convocada. A declaração feita causou furor entre os jornalistas.
Embora já se houvesse a suspeita, foi então confirmado pela ciência, a mutação no genoma de todo poeta existente.
A alteração dos seres desta agora considerada uma nova espécie é responsável por seu estranho comportamento.
Através de métodos comprovados, pode-se afirmar que poetas são seres de hábitos predominantemente noturnos e solitários. No entanto, apreciam caçar em grupos e, por esta razão, têm sérias tendências à boêmia.
São seres não monogâmicos que possuem, como característica básica, se apaixonarem intensa e dolorosamente de duas a doze vezes por ano. Apesar disso, os especialistas observaram que, a grande maioria destes relacionamentos ocorre de forma platônica e, todas estas acaloradas paixões só se concretizam em formas de poemas românticos, com sérias pitadas de erotismo.
Testes confirmam que há na construção de uma boa prosa qualquer espécie de descarga hormonal no cérebro do ente poético (ainda não catalogada ou nomeada nos anais da medicina) que os torna excêntricos diante de simplicidades rotineiras. Essa química os torna capazes de filosofar horas a fio sobre coisas que passam desapercebidas às pessoas normais como, por exemplo, falar sobre a consistência metafísica da pétala da margarida.
Essas “aberrações cromossômicas” trazem aos indivíduos altas doses de dramaticidade e uma profunda sensibilidade o que leva às pessoas erroneamente a classificar os poetas como loucos ou preguiçosos.
O DNA do poeta, na verdade, é mais antigo do que o da raça humana normal. Possui traços  de seres mais primitivos e selvagens, dotados de instintos aguçados e, seriamente destinados a adorarem divindades míticas como Musas.
Devido a forte tendência a serem sonhadores e instáveis os poetas não conseguem manter relações duradouras entre seres da sua espécie o suficiente para se acasalarem, então é bem provável que estejam condenados a extinção. Este fato levou a um consenso e comoção geral entre todos os estudiosos: “seria uma grande tragédia para a raça humana o fim da poesia, pois é ela a aura da insanidade que nos mantem humanos.”, afirmaram.

De Maria Angela Piai (Doutora Poesiologia e especializada em estudos do DNA de poemas, poesia e prosa.)

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Gira-sol






 Caminhando entre delírios
Meus pés sagravam espinhos
Parei a beira do caminho
Para ver o tempo brincar

Avisteis algumas flores
Bailando ao som do vento
Frágeis e trêmulas
Suspiravam devaneios

Rabisquei meu nome na terra
Com dedos de contornar sonhos
Toquei algumas sementes
Que logo desejei plantar

Cultivei-as no meu quintal
Iludida com os  lírios que virá
reguei-as- com todo carinho
(carinho de que esta a sonhar)

Mas nas cambalhotas do tempo
Qual não foi minha surpresa
Ao descobrir que a vida
É o poder da natureza

Ao invés de um jardim de lírios
Brotaram girassóis
 grandes e amarelos
cheirando desilusões

Mas olhando-os com atenção
Vi o que tempo queria dizer:
A vida nos entrega sementes
Que devemos cultivar
Nem sempre ficamos contentes
Com o que vemos brotar

Hoje eu compreendo
O valor do inesperado que
trouxe aos meus olhos,
ainda despreparados,
flores que me ensinaram
um valor inestimado.

Girassóis não tem perfume
Como orquídeas ou rosas
Não são flores delicadas
Como margaridas ou dálias
Mas trazem o coração
Repletos de sementes,
sorriem para o novo dia e
se movem em busca da luz!

Plantei em meu coração
Pequenas sementes-girassóis
Que um dia, quando eu murchar,
Elas possam se espalhar
Deixando o meu carinho
A quem quiser cultivar

Angel.