quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A Amoreira

Havia ainda uma amoreira na rua há tempos deserta de verde através da qual eu transitava rotineiramente.
            Muitas pessoas passavam por ali sem se quer nota-la. Ela existia, apesar disso. Ou porque eu soubesse dela, ou porque seu existir suplantasse a necessidade de atenções. Talvez existir fosse sua essência e isso lhe bastava. Fato é que ela existia e sua existência ia se formando e transformando pelos dias e estações.
            Eu só passava e seguia em frente.
            Nem tudo o que vemos ou com o que convivemos adquire alguma ligação conosco. É necessário, para isso, um momento de conexão entre o há dentro e fora. É necessário um elo.
            O elo surgiu, para nós em uma tarde triste... Na verdade, a tarde em si não é triste ou alegre. As tardes são tardes, tristes são as pessoas. E eu estava triste. Não pense que era uma tristeza trazida por algum acontecimento contrario, dificultoso ou coisa do tipo. Destes sentimentos que temos quando a vida não nos dá algo que merecemos.
            Este sentimento que carrego, é mais pesaroso e antigo. O trago aqui no peito, feito cicatriz profunda, desde criança quando subia em árvores para chorar às escondidas as sensibilidades que me foram incutidas por ter nascido poeta.
            Pensando nisso agora, com mais afinco desconfio que seja destes dias pueris, destes tempos perdidos no tempo, que despertei em mim o hábito de me afeiçoar a certas árvores.
            ... Então, neste dia, caminhando cabisbaixa, escondia do sol os olhos maculados pela dor. Em certo trecho percebi o chão cinza estava tingido de cor. Dei atenção ao fato descobrindo que as cores vinham de frutas maduras pisoteadas despreocupadamente pelos passantes distraídos.
            No chão cinza, de uma tarde cinza, com pessoas cinzas e uma pessoa sem cor  se coloriram de amoras maduras. Vi meus pés até então sem eco, marcarem a calçada com formas e significâncias. Meus passos pintaram a rua como se fosse uma grande tela. Uma gigante obra de arte abstrata pulsava visceral em meio ao concreto seco.
            Ergui, pela primeira vez durante todo o trajeto, minha cabeça, protegi com a mão meus olhos num gesto de ver além, de olhar mais alto.
            Parada ali, diante da imponente amoreira, confesso que a vi sorrir... Acenei, sorri de volta e segui meu caminho.
Um tantinho menos cinza,
Um tantinho mais doce...

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