quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A poeta

Existe um espaço entre dois objetos, mas não o vazio.
O que está onde não há?
Gosto quando ninguém me procura, de observar alheia a convulsão das relações humanas, dos trechos tragicômicos das narrativas que me chegam de longe.
Penso-me não ser. Isso alivia de certa forma, a angústia de ser.
A alheia. A ausente. Estar, sem fazer parte.
Não  onipresente, mas   invisível.
Forçar-me a grupos, é estuprar-me. É violar meu direito a introspecção de poeta.
Rasgo-me por dentro e sorrio. Mas não se esqueça, estou ferida.
Sou contemplação visceral. Sou dissecadora de aves noturnas que se alimentaram de almas antigas.
Feita de restos apodrecidos, nutro-me das saudades cadavéricas que sopram pelas frestas das sepulturas.
E quando de minha quase morte houve um consenso sócio-científico-religioso de que meu mal era a nostalgia que corria em minhas veias em lugar do sangue.
Professo passado em minhas lastimas.
Ninguém tem tempo de ouvir essências quanto tudo é vomito e urgências.
Tornei-me a velha da esquina mascando uma gengiva sem dentes.
Mas - repito- este não ser me alivia. Um balsamo às feridas é estar alheia (as músicas, aos gritos, a febre, as fezes...)
O vazio que não é, eu sou. Lá é onde me encontro.
Onde o inferno são os outros, faço-me Lilith.

Nenhum comentário: