quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Carta a Edgar

Querido Edgar, meu caríssimo amor.

                Quem lhe escreve é sua amada. Esta, a primeira e última carta que consigo enviar desde que meus pais me trancafiaram neste mosteiro na tentativa torpe de me fazer esquecê-lo. Eles preferem-me morta que ver-me entregue a luxurias dos poetas...
                Não sei o que está acontecendo comigo, preciso lhe contar de meus tormentos, já que ninguém aqui me dá ouvidos. Desde que adentrei os muros deste cárcere em cada amanhecer sou, invariavelmente, desperta de meus pesadelos por uma melodia harmoniosa, embora triste. Insistente parece provocar-me de forma intencional, pois anuncia-se até que eu saia da cama a espie pelas grades frias da minha cela. Só depois de me ver ali, a criatura alada pousada nos galhos da macieira que roça a parede de meus aposentos, bate suas asas e desaparece. Não volta, a não ser na manhã seguinte.
                Por vezes, seu grasnar me distrai, chego a apreciá-lo, mas confesso, que é mais constante que ele me irrite em demasia. Razão pela qual perco horas de meus dias planejando como expulsar o pássaro.
                Pensei em tirar-lhe o poleiro, todavia ando debilitada, sem as forças ou as habilidades necessárias para executar tal tarefa. Não ousaria pedir que alguém o fizesse, pois algumas tarefas são por demais difíceis de serem explicadas. Como solicitar que se corte pela raiz uma vida pulsante, por conta de um passarinho, sem parecer extremamente louca ou cruel?
                Observo sua sombra irrequieta saltitar de galho em galho assim que os primeiros raios de luz adentram as frestas que, por mais que tente, não consigo lacrar em definitivo. Tento ignorar. Então ele canta e seu canto é forte, tanto que tenho a impressão que seu peito explodirá e suas penas lúgubres de uma leveza estupenda cairão eternamente sob minha consciência perdida.
                Tentei pegar a ave. Presumi até exterminar-lhe... Mas como teria a astúcia sobre-humana de atingir tal meta? Há algo de sobrenatural naquele ser infernal.
                Exasperada com tudo isso tento sobreviver a mais um dia aqui, apenas por você... Tem sido imensamente difícil, tento sorrir, articular frases, participar das atividades, mas uma obsessão cresce monstruosamente dentro do meu peito. A dor não me assusta, mas a paz que vive na escuridão me seduz, dia a pós dia. Traço em minha própria carne, meus planos. São mapas elaborados em meio a devaneios insanos. Apenas isso, nada mais...
                As horas se arrastam e anoitecem. São noites tempestuosas que fingem estrelas e luares. Meu coração úmido e transtornado refugia-se no imenso nada que me abriga. Tal cão abandonado, farejo restos vadios nos ponteiros do tempo. Estou faminta. A podridão me sacia momentaneamente porque tem gosto de morte.
                Adormeço entorpecida pela lembrança de seus beijos e abraçada a escuridão que finalmente silencia meus tormentos. O estado fúnebre do sono me acalma, mas as preces mudas não são ouvidas por nenhum deus e a lágrimas sem serem recolhidas em cálice algum evaporam em minhas febres antes de chegarem ao travesseiro.
                Então a musica de mais um dia exigindo-me desperta. De fragilidade encanto apavorante a sonoridade sobrevoa as fendas de minhas desestruturas, me desconstrói. Irrita-me a urgência de ser, de significar, dentro de minha insignificância.
                A desgraçada ave grita minha guerra. E, enquanto entre cacos, onde sangram meus pés busco resgatar os frágeis estilhaços de minha paz, ouço entoar seu tenebroso gemido: nevermore.
                Estou em profundo desespero. Louca? Delirante? Já não suporto a triste sombra que me atormenta desde que nos separamos por isso, esta carta é de despedida. Já consegui o veneno que me tirará a vida, e já o bebi. Sinto-o correr quente por minhas veias em lugar do sangue, brevemente chegará e este coração que um dia foi teu. A carta lhe será entregue a tempo de meus últimos suspiros, que a leve o mensageiro de minha morte a sentinela de minha dor camuflada de ave agourenta.
Adeus, até nunca mais...

Lenore

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