quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Eu's

Tenho algumas lágrimas presas em meus olhos. Elas não querem ser choradas. Não querem derramar-se e escorrerem sozinhas sobre minha pele fria.
Assim, elas se empoçam sob minha pálpebra inferior dando a impressão de que meus olhos são um pequeno lago de águas esverdeadas e serenas.
Mas não sou um lago.
Sou um oceano profundo, repleto de vidas complexas coexistindo. Por vezes, não em harmonia.
Há um barulho constante em meus ouvidos. Disseram-me que ouço meu sangue correndo. Mas eu juro que parece um moinho (destes de rio) trabalhando incansavelmente dentro de mim.
Tenho paladar e olfato malditos que dão cheiro e sabor a emoções e momentos. Sei que parece um dom. Não é. Você se imagina sentindo o cheiro do medo? O gosto da dor? O amargo da saudade?
Só posso ser maldita.
Sobre minha epiderme uma tênue cobertura de luz pálida me protege.
Sim, sou instrospecta em meus textos e isso parece egoísmo (talvez seja), mas sempre vejo as pessoas tendo tantas certezas absolutas sobre todas as coisas quando eu ainda nem sei de mim, sinto ser importante falar da busca que travo aqui dentro. São estudos de minha geografia, descobertas sobre minha arqueologia, invencionices de uma possível biologia... Sou interrogações e reticências... Sou poesia e filosofia...
Sou o que minha arte fez de mim. Não abracei nenhuma escola enquanto deflorei algumas musas. Vou com o meu pequeno martelo destruindo muralhas de dogmas infligidos.
Tenho lágrimas que não querem ser choradas, me transbordo oceânica contra pás de moinhos rangendo incessantemente. E é todo este movimento interno que me move, que me leva além, que me transcende.

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