quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Ilha

Vivo numa ilha cercada de cana por todos os lados... Filha ilegítima de senhores de engenho falidos.
Somos governados, informalmente, por meia dúzia de famílias abastadas; algumas dezenas de “falsos” ricos que chafurdam em qualquer lama para ostentar algum privilégio junto à classe social “superior” e pelo Clero.
Quase medievais!
Artes e Artistas – vivos ou mortos - são tratados como pessoas à margem do que seria bom, aceitável socialmente...
Microfones e mídias não estão à disposição de todos e são utilizados em toda sua força persuasiva para construir e destruir imagens, principalmente políticas.
- Por que você não pega um barco de papel e foge daí?
Não fujo porque vivo numa ilha cercada de cana por todos os lados...
Mas nela há uma praça sofrida e bela onde me aconchego nos dias tristes para ler, escrever e chorar.
Não há outro lugar em todo planeta onde me sentiria bem, como me sinto lá.
Eu fico porque na ilha há uma igreja, que independente de quem a frequente, é uma obra de arte viva que pulsa sem parar no coração da cidade.
Permaneço porque caminho por estas calçadas desde meus primeiros passos. Conheço todos os buracos onde já tropecei. Desconfio de alguns, onde irei tropeçar...
Continuo por que aqui há um rio sujo e fedorento que eu amo, como se ele ainda estivesse vivo. Um rio onde gostaria que jogassem minhas cinzas se eu fosse queimada...
Fico porque aqui existem pessoas com as quais nunca convivi, mas que conheço há anos.
Fico porque há pessoas aqui que guardam pedaços da minha história, misturados a pedaços de suas histórias.
Fico porque nesta terra, abaixo dos meus pés, estão enterradas pessoas que amei e hoje são sementes. Quero estar aqui para vê-las brotar-se em flor!
Fico porque as mãos que cortam meus cabelos brancos são as mesmas que cortaram meus cabelos de menina. E são as mesmas mãos que oferecem pirulito ao meu filho, quando o levo para aparar os cachinhos...
Há algo no ar desta cidade junto com a fumaça dos carros que insistem em andar em fila única, como uma boiada e nunca dão seta, que me embriaga.
Há uma nostalgia espalhada na atmosfera que se impregnou a minha alma triste envolvendo-a de tal forma que não há como separá-las sem destruir-me.
Há nos sotaques carregados de “r” e “s” uma melodia familiar e acalentadora que me enche de orgulho.
Há na velha estação de trem, bem como nos casarões antigos, abandonados e ignorados pelo poder público que deveria preservá-los como patrimônios, fantasmas que me sussurram poesias.
Suas correntes também prendem meus pés.
Por estas e outras razões, as quais não me lembro agora, vou me deixando ficar, embora tantos ventos e tempestades tenham soprado forte tentando levar-me para outros cantos; embora tanta gente estivesse mais feliz e menos preocupada se eu me fosse...
Deixe-me ficar como um incômodo necessário!
Vou deixar-me ficar até prostrar-me exaurida sobre o solo ácido e improdutivo que a monocultura açucareira deixou de herança para as gerações vindouras.
Sem crematório, serei velada no prédio que serve de velório para os pobres da cidade. Porque aqui, na ilha, até na hora da morte faz-se diferença entres as classe sociais...
Talvez cães e gatos, habitantes do velho cemitério, sejam os únicos a acompanhar meu cortejo final rumo ao esquecimento merecido.
Assim como vivi, morrerei em uma ilha cercada de cana por todos os lados.

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