quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Maria

Sou Maria preta.
Sou erva daninha.
Caminho fogosa
subindo a colina.
Vou dar lá no morro,
moro na favela.
Peço por socorro
enquanto queima a vela.
Faço oração
(Todo dia eu oro)
é que na favela
num sufoco eu moro.
Levo na cabeça
a trouxa com roupa
Sou Maria preta
que trabalha fora,
a que ganha pouco-
mal dá pra comer-
mas eu rio a toa,
canto sem sofrer.
É que nesta vida
aprendi viver
com a agonia
de ter e não ter...
Sou Maria mãe:
perdi muitos filhos,
nas guerras de rua,
são alvos de tiros.
Sou mulher Maria
e estou sem marido
foi comprar cachaça
e morreu bandido.
Mai lá no meu barraco
não há tristeza não...
Ao longe se ouve
o meu baruião.
E quando é carnaval
logo me transformo:
Sou Maria doida,
tô na confusão,
e da festa toda
eu sou a rainha,
corre pelas veias
confete e purpurina...
Pela noite adentro
eu viro felina
Sou Maria a Amélia
que cozinha bem.
Sou mulher da rua,
não me prendo a ninguém.
E assim eu vivo,
sem rolar meu pranto,
levando no sorriso
um mar de desencanto.
Tenho muitas cores,
me dão muitos nomes,
sou mulher das flores,
sou mulher sem homem,
Sou grande guerreira,
sou gata mansinha...
Sou Maria preta,
sou erva daninha.

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