quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Odeio

Odeio manhãs ensolaradas e o sorriso dos transeuntes que creem veementes que todos têm tamanha disposição àquele horário.
Parece-me que sou a única que trafega indisposta, mal trajada, e suando horrores sem vontade alguma de celebrar o alvorecer.
Prefiro as madrugadas escuras e silenciosas onde me caibo inteira na concha de caracol; onde me alojo fumando cigarros imaginários que enchem de fumaça cancerígena a minha sanidade.
A percepção aguçada me impede a alienação visto que sinto ininterruptamente o cheiro de minha carne em decomposição.
O cheiro da morte me envolve feito uma áurea e não há Chanel que disfarce certos odores pútridos.
Nunca sou o que já fui, abandonada ao eterno e intenso fluir.
Se me distrair com futilidades que auxiliará o incansável parto do devir?
Concentro-me introspectiva  e acolho cada recém-nascido tormento tal qual parteira amorosa.
De repente, refletir sobre barcos e aviões de papel assumiu significâncias mais complexas em meu existir. (Vivo caçando desperdícios   deste que me apaixonei por Manoel de Barros)
Quanto mais me construo, mais desconstruída estou.
A poesia profana que me habita faz-me altar onde a arte prostra-se devota. Eu, sacerdotisa de meu templo interior, cultuo deuses e deusas dançando nua em torno da fogueira que me arde, que me incendeia sem me consumir.
Meu corpo é uma pequena e frágil embarcação, minha alma um vasto oceano. Tempestades moram em oceanos, sem os destruir. Tempestades fazem pequenas partes do  oceano se agitarem e engolirem navios inteiros, cheios de pessoas minúsculas que sorriem estúpidas em manhãs ensolaradas.
Nada detém o oceano que sou e que transborda intensidades.

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