quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Poeta

Às vezes não consigo entender como a poesia sobrevive.
A alma contemporânea é avessa à contemplação.
E é exatamente esse poder que os versos possuem de se esgueirar pelas frestas que me comove.
É a junção da delicadeza da pétala de uma margarida a mais temível tempestade.
Quem teme o poema?
Há muito descobri que os segredos devem ser escondidos em livros,
por trás de vogais sonoras,
de consoantes mudas
e das reticências...
Desde então, ali estão os meus tesouros, através deles desvendam-se meus mistérios. 
Fome, guerras, angustia... Enfim, tudo se diz num poema.
Febres, paz, amores... Tudo se funde na poesia.
Aprendi, assim, a sentir pavores de gente muito certinha, que vive sorrindo e está sempre bem penteada.
Gosto de chafurdar no imensurável, embriagada de incertezas.
Quem teme o poeta?
Este ser que se camufla tão perfeitamente na multidão, entre os mortais. Mas que traz um véu de louca sanidade cobrindo a cabeça.
Este que, cego, enxerga através da taça de repleta de vinho.
Este que com o corpo repleto de estigmas da poesia  torna-se, com o passar do tempo, um leproso a Arte.
Todos fogem dos poetas. Por isso eles rastejam solitários expondo o que há de mais atemorizante na humanidade: o humano.
Mortal na carne. Imortal nas palavras. Restam poucas palavras não ditas. Mal-ditas.

Um comentário:

Emerson Leme da Costa disse...

Profundezas da alma tecem suas palavras.