quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Tristeza

Há um espécie de tristeza
que me habita
Tristeza sem dono, ou nome
Tristeza sem hora,ou lugar
Ainda não estudada,
não tem como ser medicada

Será doença de poeta?

Penso, quando assim estou,
que é a Morte
que me visita, vem me beijar...
Quase vejo-a, invisível que é,
diante da xícara
fumegante com meu café.
Como anseio pegá-la
em meus braços, beijá-la...

Será a pestilência da poesia
que me contamina?

Há uma espécie de tristeza
que me habita
E mora em mim há tanto tempo
que me apeguei profundamente
a ela.
Tornou-se praticamente
uma característica minha:
" Lá vai Maria
e seus olhos tristes"...
Dizem quando passo
Afundo os olhos num livro
e vou com mais pressa

Tentando não deixar espaço,
tentando não virar conversa...

Quero estar comigo e com
minha tristeza

Só ela sabe de nós
Só ela sabe porque vive aqui dentro
desde que eu era pequenina
desde que eu me escondia na goiabeira
Só nos duas, de mãos dadas, comendo pipoca
assistíamos meus pesadelos.
Eu a calçava junto
com meus sapatos, toda manhã.
A comia nos lanches da escola.
Ela desenhava comigo a giz
no muro do meu quintal.

Quando as luzes se apagavam,
quando todos iam dormir,
fugíamos juntas para o
lugar mais alto e por horas
procurávamos sentido
nas estrelas...Entrelaçadas.
Eu e minha Tristeza sem nome.

Cresci, mas não muito.
Ela cresceu comigo.
A Tristeza sem rosto e sem nome,
que não é
nem feia,
nem fria,
nem amarga.

De alguma forma,
mesmo sem forma,
a vejo.
E a Tristeza que trago,
sem nome e sem rosto,
é quente- como o mormaço de uma tarde de tédio,
é bela- como uma cicatriz recém aberta,
e doce- como um favo de mel ainda não chupado.

Um quente que amolece o corpo
Um belo que arrepia a alma
Um doce que se come com os olhos

Meu maior medo,
quando a encaro
é que seja uma falha genética,
que seja no meu dna.
Que se espalhe através dele
como uma peste!
Que perturbe meus filhos,
como me perturba.

Talvez por isso
eu não a deixe ir
Talvez por isso
eu a segure aqui
Não quero que
persiga ninguém.

Há uma espécie de tristeza
que me habita
E mora em mim há tanto tempo
que me apeguei profundamente
a ela.
Dizem todos quando passo:
" Lá vai Maria
e seus olhos tristes"...

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