quinta-feira, 24 de março de 2016

à corda (para Rezsõ Seress)



Nua de encantos
cobrir-me-ei com o negro manto da noite
Adornarei de estrelas mortas meus cabelos
e a beira do abismo,
que cavei com minhas unhas,
bailarei a insanidade

O vazio das profundezas
sabe meu nome e o
sussurra no vento gelado
desta madrugada sombria

Ao som de Gloomy Sunday
deixo esvair, feito fumaça,
as lembranças  que me prendiam aqui
Murcha aos poucos nos meus lábios
o sorriso abobalhado
que cultivei por toda vida.


Eu, que tanto esperei por este encontro,
por este baile , por esta última dança
Trago a pele gelada, colorida pela cianose
e os olhos tristes dos peixes  de balcões frigoríficos

O  medo, que sempre foi minha companhia
foi-se embora de repente sem dar-me adeus
Estou só, ao som desta bela melodia,
e deixo-me levar pela tristeza
tão familiar que ela grita.

E, no auge da noite, recebo submissa
o beijo que esperei por tanto tempo
dos lábios de minha amante
Seu beijo, dona da vida, 
é leve, frio, calmo e sufocante.

Deixo despencar-me no abismo
com os olhos fechado,
completamente entregue
ao meu destino.

Agora, pertenço a escuridão.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Peregrina



Quero tirar férias de mim mesma.
Guardar  em uma mala bem fechada, bem dobradas, todas as coisas as coisas que aprendi. Empacotar cuidadosamente cada sabor som e aromas que mais gosto.
Gostaria de sair por aí sem pesos, pés descalços, cabelos ao vento e, nessa viagem interior me redescobrir, me repintar de novas cores sob novos tons, me recobrir de odores inebriantes, me saciar de novos gostos, dançar canções que ainda não ouvi.
Pois, creio, que há mais coisas para se ver quando se vai além. Pois há diversos perfumes escondidos debaixo de novas possibilidades. Pois há música na ousadia de mudar.
Quero entrar como uma moleca entraria (irresponsavelmente sozinha) num barco. Soltar despreocupadamente as velas e erguer as ancoras. Deixar-me levar pelo reboliço das ondas. Avistar a infinitude do azul e a plenitude das tempestades.
Quero deixar o leme solto, a nau a deriva!
Um dia, se fosse da vontade de Posseidon em comum acordo com Iemanjá, poderia voltar para as coisas que guardei.
(Como seria então o encontro entre o que eu sou com o que me tornei? Deste encontro sairia um outro eu?)
Sim, possuo passaporte para estas e outras viagens. E me permito ser peregrina desta sagrada aventura. Não posso permitir jamais que o peso do medo me torne incapaz de seguir, de vislumbrar novos cenários, novos aprendizados.
Eu me ausento de mim por meses em minhas viagens. Ninguém percebe a ausência. Estou sem ser, sendo a brisa que me leva levemente para longe; desbravando lugares que ninguém, além de mim, pode ver ou se quer imaginar.
Nestas aventuras meus pés podem sangras espinhos, todavia meus olhos florescem.

sexta-feira, 4 de março de 2016

E eles foram felizes para sempre...




Ensinaram-me, desde pequena, nos livros, nas canções e na Tv,  que as princesas eram perfeitas, doces e belas.  Opostamente as bruxas se tratavam de seres horrendos, cruéis e assustadores com suas grandes corcundas e imensos narizes.
A existência delas se resumia a destruir a paz e beleza serena das pessoas.
Foi com este arquétipo que fui forjada. Quando, identifiquei minha imagem como sujeito, a partir do reflexo no espelho e da imagem do outro, tive uma decepção dilacerante.
Por dentro, me acha a princesa boa e bela, mas fora eu era a horripilante bruxa de nariz comprido. E, quanto mais eu crescia e me formava como mulher, mais me identificava com o estereótipo maligno.
As pessoas, que faziam parte da minha vida e a mídia a qual eu era exposta eram formadas a partir do mesmo referencial de beleza e de caráter.
Tornou-se então natural ser tratada com certo desprezo, às vezes até por pessoa que eu sabia gostarem de mim.
Quando adolescente os meninos eram bem cruéis. Não foram poucas as vezes que eles tiraram a cabeça pela janela do ônibus ou tentaram me atropelar de bicicleta, quando eu ia atravessar a rua, gritando xingamentos referentes a minha aparência. Eram pessoas que eu nem se quer conhecia. Já as “piadinhas inofensivas” e os “apelidos carinhosos”, vinham dos colegas nas salas de aula.
Quantas vezes deixei de levantar a mão para responder alguma questão que sabia, por medo de ser motivo de ironia? Não sei contar.
Tudo isso deteriora a estima de qualquer criança, destrói qualquer adolescente.
Muitas vezes, quando brincava com crianças pequenas, elas ingenuamente me perguntavam se eu era mentirosa, porque meu nariz era grande como o do Pinóquio. E eu olhava aqueles olhos curiosos e me perguntava o que estávamos fazendo  com aquela cabecinha. Construindo uma consciência moral a que custo?
E não era a questão simplesmente de não ter a aparência ideal... Anjos, princesas, fadas, heróis, príncipes... A bondade era bela! A coragem era bela!
O que era eu então?
As literaturas e a escrita, como atividades de introspecção, me ajudaram a sobreviver numa época em que cirurgias plásticas e terapia eram tabus para crianças e adolescentes.
Então, você cresce se odiando e acredita que qualquer relacionamento de merda é mais do que você merece. E se submete. Afinal, você é a escória.
Ainda hoje, um pouco mais esclarecida, não consigo deixar de me sentir mal quando olho minha imagem no espelho. Posso até me sentir bonita, desde que não olhe para ele.
Percebo também que apesar de todos os esforços e qualidades sou preterida a certos cargos ou funções à pessoas de aparência considerada melhor.
No final das contas, ter este nariz enorme no meio da cara me fez considerar que não adiantava me esforçar para ter o corpo lindo ou usar uma maquiagem perfeita, por isso nunca dediquei tempo a estas coisas. Preferi me enfurnar cada vez mais em bibliotecas do que ir a uma academia.  
Introspectei-me bruxa e a partir disso moldei meu próprio destino.
Ao longe, no meu pântano, observo as princesas e seus príncipes rindo estupidamente para o vazio que os cerca. Há dias em que invejo suas conversas vazias sobre dietas e esmaltes.
Não obstante, aprendi algumas coisas e posso compreender que sou livre. A liberdade, todavia, não é leve. É um fardo deverás pesado de se carregar sobre os ombros, por isso, talvez a corcova nas bruxas.
A feiura é como as chagas dos leprosos nos tempos medievos. Você recebe alguma atenção, por pena, mas sempre será um rejeitado. Sempre será constrangido por conta dela (aparência) se aparecer em público.
Com o tempo você aprende a amar a escuridão, a solidão e a si mesma. Não com pouca dor, mas até com certa doçura.
“Torna-te quem tu és”.
Agora, eu mesma acendo as fogueiras, pois gosto de dançar sozinha debaixo do manto da noite.
Posso, como uma estrela, brilhar a milhões e milhões de quilômetros e a explosão que me extingue ressoará como luz durante centenas de anos... Isso me conforta.
Quem se importa se quem observa este brilho serão príncipes e princesas enamorados que pouco compreenderão a complexidade que conduziu a tal processo?
Quero é ser queimada, ainda viva! Quero arder intensamente em cada chama. E quero que as fagulhas sejam sementes de onde fênix brotem como rosas enfurecidas.


Maria Ângela Piai