sexta-feira, 4 de março de 2016

E eles foram felizes para sempre...




Ensinaram-me, desde pequena, nos livros, nas canções e na Tv,  que as princesas eram perfeitas, doces e belas.  Opostamente as bruxas se tratavam de seres horrendos, cruéis e assustadores com suas grandes corcundas e imensos narizes.
A existência delas se resumia a destruir a paz e beleza serena das pessoas.
Foi com este arquétipo que fui forjada. Quando, identifiquei minha imagem como sujeito, a partir do reflexo no espelho e da imagem do outro, tive uma decepção dilacerante.
Por dentro, me acha a princesa boa e bela, mas fora eu era a horripilante bruxa de nariz comprido. E, quanto mais eu crescia e me formava como mulher, mais me identificava com o estereótipo maligno.
As pessoas, que faziam parte da minha vida e a mídia a qual eu era exposta eram formadas a partir do mesmo referencial de beleza e de caráter.
Tornou-se então natural ser tratada com certo desprezo, às vezes até por pessoa que eu sabia gostarem de mim.
Quando adolescente os meninos eram bem cruéis. Não foram poucas as vezes que eles tiraram a cabeça pela janela do ônibus ou tentaram me atropelar de bicicleta, quando eu ia atravessar a rua, gritando xingamentos referentes a minha aparência. Eram pessoas que eu nem se quer conhecia. Já as “piadinhas inofensivas” e os “apelidos carinhosos”, vinham dos colegas nas salas de aula.
Quantas vezes deixei de levantar a mão para responder alguma questão que sabia, por medo de ser motivo de ironia? Não sei contar.
Tudo isso deteriora a estima de qualquer criança, destrói qualquer adolescente.
Muitas vezes, quando brincava com crianças pequenas, elas ingenuamente me perguntavam se eu era mentirosa, porque meu nariz era grande como o do Pinóquio. E eu olhava aqueles olhos curiosos e me perguntava o que estávamos fazendo  com aquela cabecinha. Construindo uma consciência moral a que custo?
E não era a questão simplesmente de não ter a aparência ideal... Anjos, princesas, fadas, heróis, príncipes... A bondade era bela! A coragem era bela!
O que era eu então?
As literaturas e a escrita, como atividades de introspecção, me ajudaram a sobreviver numa época em que cirurgias plásticas e terapia eram tabus para crianças e adolescentes.
Então, você cresce se odiando e acredita que qualquer relacionamento de merda é mais do que você merece. E se submete. Afinal, você é a escória.
Ainda hoje, um pouco mais esclarecida, não consigo deixar de me sentir mal quando olho minha imagem no espelho. Posso até me sentir bonita, desde que não olhe para ele.
Percebo também que apesar de todos os esforços e qualidades sou preterida a certos cargos ou funções à pessoas de aparência considerada melhor.
No final das contas, ter este nariz enorme no meio da cara me fez considerar que não adiantava me esforçar para ter o corpo lindo ou usar uma maquiagem perfeita, por isso nunca dediquei tempo a estas coisas. Preferi me enfurnar cada vez mais em bibliotecas do que ir a uma academia.  
Introspectei-me bruxa e a partir disso moldei meu próprio destino.
Ao longe, no meu pântano, observo as princesas e seus príncipes rindo estupidamente para o vazio que os cerca. Há dias em que invejo suas conversas vazias sobre dietas e esmaltes.
Não obstante, aprendi algumas coisas e posso compreender que sou livre. A liberdade, todavia, não é leve. É um fardo deverás pesado de se carregar sobre os ombros, por isso, talvez a corcova nas bruxas.
A feiura é como as chagas dos leprosos nos tempos medievos. Você recebe alguma atenção, por pena, mas sempre será um rejeitado. Sempre será constrangido por conta dela (aparência) se aparecer em público.
Com o tempo você aprende a amar a escuridão, a solidão e a si mesma. Não com pouca dor, mas até com certa doçura.
“Torna-te quem tu és”.
Agora, eu mesma acendo as fogueiras, pois gosto de dançar sozinha debaixo do manto da noite.
Posso, como uma estrela, brilhar a milhões e milhões de quilômetros e a explosão que me extingue ressoará como luz durante centenas de anos... Isso me conforta.
Quem se importa se quem observa este brilho serão príncipes e princesas enamorados que pouco compreenderão a complexidade que conduziu a tal processo?
Quero é ser queimada, ainda viva! Quero arder intensamente em cada chama. E quero que as fagulhas sejam sementes de onde fênix brotem como rosas enfurecidas.


Maria Ângela Piai

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