quinta-feira, 28 de julho de 2016

Pare

Deixe seu coração
sentir a brisa e
com ela emocionar-se.
Olhe para o luar e sonhe
todos os sonhos de um 
amor impossível.
Veja uma flor na rua,
a feia flor de Drummond,
e pare para observá-la
em meio ao caos do trânsito.
É preciso sentir,
é necessário emocionar-se,
 urgente é sonhar.
É iminente que se pare,
Parar por um segundo...
O coração precisa,
a mente necessita,
a alma quer...
Constantemente!
Pois, somente quem sabe
emocionar-se, com tranquilidade,
Pode de repente enxergar
(De verdade)
Essa gente que por
Toda esta vida decadente
Espera que alguém lhe dê a mão
E sente-se ao seu lado
Na beira da calçada e,
Olhando em seus olhos, diga:
"Tenha calma, tudo ficará bem"

|Angel


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Paixões

Ousaste penetrar em meu templo interior
Ousaste agarrar-te ao meu coração, a envolvê-lo
Tiraste-me  o sono precioso
Escheste-me de pensamentos conturbados...
Ouço teus passos molhados dentro da noite
Temo abrir a janela. Temo que entre
Temo que cubra-me de beijos úmidos, que me ame, que me invada, que me profane!
Abro os braços e grito, mas ele desfalece num sussurro quase nulo.
Fecho meus olhos, cansada e quase sem saber se estou adormecendo ou morrendo...
Mas meus olhos insistem em se abrir quando nasce o novo dia. E o teu gosto não sai da minha boca enquanto não me levanto da cama.
Procuro controlar meus gestos, me esforço para conter essa loucura.
Em meus pensamentos ouço apenas teu coração pulsando e minha respiração acompanha a tua...
Não sei em que direção olhar, minha alma te procura em meio a multidão confusa. E cheia de solidão se esvai em prantos quando mais um dia passe sem que você chegue ou passe, sem que me enlace, sem que algo comece...
A noite chega e me cobre com seu manto de profanação e magia. Meu quarto se torna uma camara de tortura onde amargo cada passo errado.
Até que ouço novamente seus passos e minha alma foge de mansinho para encontrar a tua
Retornando sempre ao amanhecer  
Amargurada por não estar contigo ou por simplesmente não morrer de amor.


Olhos teus

Quando penso nos olhos teus, surpreende-me a ignorância (que contradiz os detalhados estudos que dirijo com veemência a tua forma, conteúdo e essência)...
Teus olhos são profundamente misteriosos
Deles não posso precisar se quer a cor
A cada momento que a emoção sobressalta, seja raiva, alegria, ou dor teu olhar se transforma, se transmuda e resplandece glorioso.
Derreto as barreiras invisíveis que protegem o meu castelo e ofereço-te as riquezas do meu reinado.
Entrego-me de bandeja: corpo e alma de poetisa desnudos em tuas mãos!
Dei-te status de rei e zombaste de mim.
Então, teus olhos se transformam em boca repleta de escárnio e eu continuo sem entender o que teus olhos querem me dizer.


Angel


Em matéria de amor

Amor tema constante
Cheio de variantes
Nas circunferências da vida.
Girando contrariamente
Que raio milimetricamente
Calculado o segmentaria?
Amores doentes
Amores ausentes
Amores rotina
Cada régua tem sua medida;
Nesta estranha geometria
Qual o grau do ciúmes?
Onde está o X da razão?

Amor, metáfora tão clara,
Repleto de figuras de linguagem
Na gramática da existência
Circulando em diversos períodos.
Que verbo mal conjugado lhe direi
E, ao dizer, despedaçarei o sujeito?
As confusas traduções do amor:
Amores trágicos
Amores sinceros
Amores complexos
Cada pessoa traz em si as palavras
Que compõe a grande redação de deus
Onde colocarei as interrogações?
Como compreender os sinais?
Onde haverá um ponto final?

Amor, lugar distante
De latitude e longitude
Imedimensionáveis  no globo
Circulando em trajetória universal.
Que declive o derrubaria?
Os diferentes solos para o amor:
Amores carnais;
Amores platônicos
Amores fatais
Cada mapa tem demarcações 
específicas pro amor

Amor matéria ainda oculta
De química efervescente
Em todas camadas do planeta
Átomo perfeito. Base da criação.
Que ciclo existencial lhe
Nutriria plenamente?
Os diferentes estados do amor:
Amores sólidos
Amores mórbidos
Amores plenos
Cada ser traz em si esta essência
Quais suas escalas evolutivas?
Como descobrir quão exatas suas ciências?
O que se pode compreender
Nesta grande escola da vida
É que somos alunos primários
Diante do grande mestrado
Que é amar sem medidas...


Angel

Vida

A gente vive meio assim
correndo para chegar
sem se perguntar aonde quer ir
(Assumimos nosso destino,
mas em algum momento,
ligamos o botão automático
e paramos de ter consciência
da vida que levamos).
Nem sempre
(E quase nunca)
é do jeito que gente sonhou,
mas não é por isso
que somos obrigados
a assassinar os Dom Quixotes
que nos habitam.
Isso deveria ser considerado
crime hediondo
pela sociedade...
Nos embrutecemos,
emburrecemos,
entristecemos.
Nos transformamos em rosas
que vão murchando,
cada vez mais cedo, e que
continuam caminhando
com maletinhas para lá
para cá...
Compramos perfumes caros,
Para disfarçar o fato de que
estamos apodrecendo...
E apodrecemos porque
carregamos na alma
muitos cadáveres de sonhos...
E buscamos uma perfeição
física impossível para tentar esconder
nosso espírito, cada vez mais
imundo.
Por conta da culpa dos assassinatos
Por conta dos corpos putrefatos
Por conta do medo.
É tarde! É urgente! É assustador!
Mas a vida está aí fora...
E ela é bem maior do que imaginamos!
Não se importa com nossos
pequenos pesares...
Ela está sempre acontecendo!
Não se importa com o quão caro
são nossos relógios...
Ela urge!
Talvez as únicas coisas que espere é que
se mantenha um pouco de dignidade de lutar
por seus sonhos e ideais e que estes sejam algo
maior do que metas materiais.
Acredito que a vida é meio romântica...
Ela quer que, ás vezes, a gente segure sua mão
Que encare seus olhos com suave paixão
E sugue de seus lábios adocicados toda sua essência.
Depois a gente pode voltar a correr, mas daí
talvez - e somente talvez- a gente possa estar
correndo para chegar em algum lugar.
(Maria Angela)

domingo, 24 de julho de 2016

Minha sábia

A sábia sabia
Assobiar
E assobiou
Assobiando me fez sonhar...
Se a sábia
Soubesse 
Assobiar, assobiaria
Noite e dia
Só pra não me ver chorar...
Das saudades que eu sinto
E não consigo sossegar
Se a sábia
Soubesse assobiar,
A todo sopro
Na palmeira
Faria meu coração cantar
Mas a pobre sábia
Não assobia
Fica nesta monotonia
Noite e dia
Pobre sábia

Verso

Um palhaço triste, sou eu
Um oceano vazio, sou eu
O vaso de flores murchas
Sobre a velha sepultura do cemitério,
Sou eu
Quanta mágoa pode suportar um coração
Antes de se dilacerar?
E o ranger daqueles milésimos de segundos quando a dor esta para se tornar desespero...
Ah, estes ruídos...
Trago tantos pensamentos nesta alma vadia
Que versos farei?
Que tristes versos farei...

Madrugada

A noite quando cai
Traz no seu tombo a saudade
Minha mente diz que é vã
A procura, a espera...
Mas meu coração sobrevive
Na certeza do reencontro
Foram breve os momentos felizes
Porém eterno o encanto
Seria minha carta um verso?
Será um poema meu pranto?
Só sei de um futuro incerto
Só sei de meu desencanto
E lá onde ouve-se meu canto
( num canto escuro da sala)
Eu me amanheço esperando
Pensando em como encontrar
Um modo certo e faceiro
De meu amor declarar
Com os raios do sol
Começa o dia
Finda-se a noite
Encerra-se a agonia
E morre estupidamente
A poesia


Lenda



Por sob a muralha das lendas
Acima da lei dos mortais
Queimei a mortalha nas cinzas
Pintei de verde os murais

Corri para além de mim
Alcancei o inferno de Dante
E olhando através dos portais
Não vi nada, como via antes

E o inferno que pos-se em mim
Ardendo em chama incessante
Queimou a alma em rima e
A consciência restante

Nas brumas da madrugada
Num céu vazio e oculto
Restou apenas o instante

Roendo as folhas do tempo
O verme se entre rolou
Dormindo, parado em seu ventre
O constante se transformou

Voando por sobre as muralhas
Sua vida virou uma lenda:
Um amor que venceu a mortalha
E reviveu de suas cinzas

Angel




Julgamento

Queria dizer adeus sem remorsos
Sem tropeçar nas palavras
Ou nas lágrimas
Queria não magoar ou
Sair magoada
Mas este sentimento esta vivo
Então, como dizer adeus
Se vejo, dentro dos olhos,
Uma ferida maculado a alegria?
Me tornei uma assassina
Matei sua alma sem piedade
Me sinto culpada...
"Por minha culpa, minha tão
Grande culpa"
Confesso que não tive coragem
De me entregar ao amor
Não, não quero advogados,
Não vou tentar me defender
Quero ser congelada, pois
Me neguei a aceitar seu calor
Quero ensurdecer, pois
Não acreditei em suas promessas 
Quero me cegar, pois só enxerguei
Problemas. Nunca nosso amor
E o grande martelo da justiça soou:
C o n d e n a d a !
Condenada ao medo de viver
Condenada ao vazio interior
Condenada a ter pena de si mesma

Baixei meu olhar ao chão
E ele se encheu de lodo

Eu queria dizer adeus, mas
Não consigo
Meu corpo não quer
Meu coração não quer
E, no entanto, seria tão 
Razoável..
Se é certo por que dói?
Uma cruz a ser carregada
Uma lágrima a ser chorada

O adeus não é dito, mas
Os dois corações se afastam
Dilacerados...
E, pelo resto da vida,
Ouço os sons das correntes
Sendo atrastadas pelo
Fantasma daquele amor


segunda-feira, 18 de julho de 2016

Insônia

Fecho meus olhos para dormir
Assim me tranco em mim.
Vozes estranhas vem me buscar
Elas me levam sempre ao mesmo lugar
Rios de águas sujas
Correntezas famintas
A me devorar
Atravesso sempre a mesma ponte
Sinto sempre o mesmo medo
Nunca sei onde vou chegar
O pânico de afundar lentamente
Não há ninguém para me salvar
Não há mocinhos ou vilões
Tudo é meu medo. Tudo solidão.
Por mim, nunca dormiria...

Ingratidão

Tantas vezes fiz amor contigo
Completamente sozinha em meu quarto
E tantas outras, queimei de amor
Pensando arder em febre
Não quero mais me importar contigo.
Nem sorrir, nem chorar...
Agora que decidiu partir
só o que levará de mim será
minha mais profunda apatia
Finja. Represente.
Rirei.
Rirei intensamente
(Intimamente)
Incline tua cabeça e veja onde estou
(Como estou)
Não me procure no chão
Onde me deixou.
Me reergui. Já me cansei de ti

Gélida

Passei por dores. Muita gente passa.
Mas cada um  sente a sua maneira
A dor que lhe transpassa.
E se fica ou passa, isso é problema seu...
A ferida que fez-se em mim
Me anestesiou o coração.
Eu, tão cheia de vida, me
Perdi nessa contramão.
Estou como o gelo dos polos: 
Mutável, mas sempre frio...
Absurdamente fria!
Meus beijos carregam
O hálito gelado da madrugada
Quem tocaria em uma mão como a minha:
Pequena, trêmula, sem cor?
Fui resfriada viva. Nada sinto.
Tudo queima friamente dentro de mim
Nada me comove mais...
Minhas lágrimas doem empedradas nesta alma ártica.
E nada me aquece.

Geladeira

Por quanto tempo ainda terei
Que abraçar teus braços gelados?
Por quantas vezes terei
Que me ver refletir em teus olhos cansado?
Estou longe do meu lugar
Não vejo lugar para mim
Não me encaixo a paisagem
Fico a observar tuas gravuras obscenas
Molduradas por inverdades
Todas estas mal traçadas linhas
De uma arte abstrada e
Sem sentido para mim
Não consigo compreender esta beleza
Ela não me traduz nada
Como uma grande conspiração
Como se fosse a festa errada
E isso que nasce de mim?
E isso que morre em mim?
Meus lábios se abrem. As palavras fluem. Mas se congelam no ar, caem, quebram-se
Então, instantaneamente se evaporam
Formando em torno de mim um
Mormaço angustiante do que sou
Ou do que pretendia ser...
Bebi o mesmo veneno tantas vezes
Que ele passou a correr em minhas veias
Tem que existir um lugar de paz
Tem que haver um paraiso de luz
Alguém precisa contar histórias de ninar
Preciso de um final feliz
Quantas ilusões se cravarão em mim?
Quantas verei morrer nos olhos de quem amo?
Não precisa mais mentir
Eu já sei
Em seu coração
Não há lugar para mim.

Entre nós

Toquem os flautins
Chorem os oboés
Para você e para mim
Sempre como deus quiser

É na madrugada
Que aprendi sonhar
Hipnotizada
Tentando lhe achar

Pelas águas sonsa
deste meu destino
Beijos muitas bocas
Neste meu caminho

Mas nenhuma delas
Tem seu gosto não
Toquem logo as cordas
Deste violão

Que meus olhos vejam
Mesmo sem visão
Que o amor que sinto
Não é a toa não

Se a nossa música
Não desafinar
Vamos pela vida
Até deus chamar

Angel

Drama

Queria amar alguém
Que só me fizesse chorar de alegria
Que risse comigo no raiar do dia
Que se emocionasse com meus problemas

Queria amar alguém
Que me contasse lindas histórias
Que brincasse com meus filhos
Que me cantasse canções de amor

Queria amar alguém
Que me desse banho quente
Que acariace meus cabelos enquanto durmo
Que me trouxesse flores

Queria amar alguém
Que me fizesse forte
Que corresse comigo na chuva
Que espalhasse bilhetes de amor

Queria amar alguém
Que nunca me traísse
Que nunca se enjoasse
Que sempre me amasse

Mas que eu posso fazer
Se apesar de tanto querer
Fui amar logo você

domingo, 17 de julho de 2016

Despertar

A face pálida da morte
Escureceu-me a formosura
Rangem meus ossos
Ao brincar de vida
Escorre por entre os dedos
A realidade
A sagacidade
Restam apenas os anéis, as correntes
Ouvi histórias
Plantei sementes
(Coração das florestas)
Ninei bebê
Chorei e fiz sorri
Sorri e fiz chorar
Mas por mais que tenha errado
Mais me arrependo do que não fiz
Mesmo que o bem afinal fosse errado
E, ao contrário do que se possa imaginar
Não temo
Não desespero
Creio, nada mais
Creio e esse sentimento
Faz de mim (tão pequena)
Gigante, heroina, felina
Gata de cara arranhada, ferida

Quero que minha face
Pálida como a morte
Se torne seca
Somente osso debaixo de pele
Nada de carne
Nada de brilho
Apenas sonhos
Fragmentos de um ser humano
Dentro porém
Que minha alma fervilhe
Seja tocante
Seja profundo...
Fora morte
Dentro vida

Desconexão

Essa história lhe foi dita
Pelos grandes generais
As mentiras repetidas
Antropobilaterais

O gato em cima do muro
O muro de baixo do gato
O rato num canto roendo:

O escuro do mundo
A alma de uma mulher
A loucura
o submundo

Mal me quer
Bem me quer

Virtual

Tu não  me chamas, mas sei-te atrás  do teclado
Sinto tua espera
Teus olhos pousam sobre a tela
Como se pousassem sobre mim
Anseia-me

Outro dia pediu para que eu falasse sobre mim
Para que explicar se sei que me adivinhas?

Vou buscar uma taça  de vinho, mas antes mastigo um calmante
O que tiver mais sorte fará efeito primeiro no meu cérebro doente.
Não  é fácil fingir a rotina. Impossível  fugir dela.

Esta intensidade me destrói
É  um imã para babacas. E eu, bem eu gosto de ferrar tudo.
Quase ouço  tua voz
Quase sinto teu toque
Talvez a vida não  passe de um grande quase.

Me entorpeço
Faço  de conta que não  é  comigo
Crio inúmeros  eus para que ninguém  me ache.
Escondida em mim, cheia de feridas que sangram, ainda vejo você.

Aí, tentando achar palavras que digam sem dizer... Não  precisa, eu sei.


Dançar

Um ritmo desconexo paira no ar
Tudo ao meu redor esta estagnado
Somente eu sou movimento
Eu e essa música absurda
Sem letra, sem harmonia
Apenas um ruído
Compassado e contínuo

Mesmo assim eu danço
Meu corpo se soltando aos poucos
Seguindo as vibrações
Parece que em breve fará algum sentido
Parece que se eu continuar haverá uma lógica
Fecho os olhos afastando o medo e a vergonha
E me concentro em meus gestos
Abro os olhos
Espio a rua através da janela
Estou só, numa solidão gostosa
O sol da manhã me acaricia
Estou dançando uma dança
Sem vozes, sem lágrimas
Danço uma dança de luz
Vivo um momento de calmaria
Estou em estado de paz


Culpada

O absurdo do mundo
Ecoa
Retumba
Ressoa
Em mim 
resta-me ausência 
Do meu eu
Surda a morte
Me ronda
Minhas mãos estão frias
Quero me lavar.
Me livrar destas
 lembranças,
Dos pensamentos
 desgovernados

Quais são meus crimes?
Por que estou acorrentado?

Trago no peito carinho
E saudades intensa de tudo
Até deste mundo absurdo

Presa a melancolia
Quem me abraçaria?
Quem me  toca morre
Porque a morte me segue
Ela é uma amante possessiva
A cada esquina
Vejo sua face sombria
Sem riso; somente medo

Corpo e alma

Quantos novos amores você viveu
Enquanto navego eu na monotonia
Dos meus dias?
Quantos lábio lhe cobriram de beijos quentes, enquanto estremecia em
Madrugadas frias?
Enquanto eu recostada no
Parapeito da janela
Esperava que a rua vazia
Trouxesse alguma lembrança
Menos sombria
Seu olhar é de outro alguem
Dele também é seu querer bem

Já sei que fui
Um breve momento
Agora parte
Do esquecimento
num canto obscuro
De teu coração

Você me ignora
Você não me quer
Você não  me olha
E se em um delírio ou sonho,
Tento lhe encontrar
Sua alma olha a minha berra: quem és? Vai-te embora.
Não preciso de teu amor agora.

Coragem

Estou dependente. Sou viciada.
Não sei quando me perdi. Comecei aos poucos na casa dos meus pais.
Eu me viciei nas pessoas
Me apego demais,  como um bichinho
Que se entrega ao dono; que come em sua mão (seja feijão ou veneno)
(Seja mágoa ou afago)
Com o tempo não é o bastante. Procuro mais.
Fiz do carinho uma espécie de droga. 
Me sujetei a muita coisa para obtê-lo
Me vendi por qualquer abraço. Me entreguei a qualquer carícia.
Chamei carência de amor tantas vezes que a palavra soa como mentira em meus lábios
Um dia tentei me enxergar e já não sabia o que me tornará
Não conseguia erguer a cabeça no meio da multidão, me sentia uma renegada.
Quando as pessoas partiam, eu sofria terrivelmente.
Para que isso não acontecesse eu as fazia pensar que queriam que ficar: cheque mate
Tudo para manter meu vício.
Estou enlouquecendo, eu sei.
Preciso aprender a caminharcom minhas próprias pernas em direção a Luz

Chuva de verão

O inconsciente conscientemente me trai
Tropeço em meus devaneios
Observamos as pequenas pegadas
No grande calçadão do tempo
Somos formigas alvoroçadas
São tantas folhas para carregar ao velho formigueiro
Peguei papel, caneta. Abri as portas e deixei a poesia entrar.
Fumamos umas ideias
Bebemos alguns sonhos
Rabiscamos nossos corpos
A paz reina: eu, meus anjos e minha poesia
Meu vício.
A chuva cai e inunda meus versos
Uma alma como a minha 
Não  precisa de muito para extasiar-se
Basta-lhe a chuva e a poesia...


Centros urbanos

Irei pouco a pouco
Cair nas profundezas de
Espaços vazios
Buracos negros
Erguerei  inutilmente
Meus braços e
Repentinamente
Perceberei:
Giro inútil no nada!

Iceberg 
Dos trópicos
É isso que sou
Alguém que perdeu a
Liberdade de ser

Viverei sem sorrir
Amarei com receio
Zumbirei no silêncio
Odiarei ser assim

Todavia
Eternamente
Manterei
O olha no chão
Solitário

Querendo
Urgentemente
Esquecer

Mas sem coragem
Usarei a artificialidade
Dopando meus sentidos
Até o fim
Rumarei ao nada



Caminho

Quantas vezes tive medo de sorrir
Sentimentos de pavor a me impedir
A verdade é o que clareia o coração
E agora vou viver esta emoção
Lutarei por toda vida sem mentir
Enfrentando toda maldade que há de vir
Eu choro quando aperta a aflição
Mas eu sei que é importante ter paixão
Pela vida já andei. Tenho que ir
Por esta estrada esburacada
Eu vou seguir....

Borboleta




Cá estou em um dia que não gosto em uma vida que não quero
Por ter muito pelo que chorar
Qualquer coisa me faz sorrir
Como se eu tivesse que aproveitar cada sorriso
E meu corpo trasmuda em plena fase de transição
Uma casca sufocante me encobre
Meu olhar cansado quer se apagar
O vento lá fora clama por mudanças
E a lua trocará de fase ainda esta noite
Sinto algo se movendo dentro de mim
São minhas asas rompendo a estranha pele que me envolve
Tento conter esta mutação
Meu grito é mudo
Meus olhos são cegos
E a energia flui em uma corrente contínua
Nada além deste nascimento
Nada além desta quase morte
O casulo se rompe
Movimento-me com certo temor,
Mas também uma estranha excitação
Pois não sou o que era
Sou agora o que me tornei
Não era isso que eu queria
Parece que esta tudo bem...


Angel

Você



 Quando as cores do amanhã desbotam
Quando os abraços me viram as costas
Quando todas as janelas se fecham
Tenho vontade de partir
Mas onde eu poderia ir?

Se dentro de mim só há dor
E fora de mim, só desamor
Se fecho os olhos sinto medo
Se os abro, bate o desespero
Onde, onde eu poderia ir?

Se estacionar na estrada, sou um estátua
Se ficar correndo, estarei cansada
Se Rezo para um deus, minha alma chora
Se deixo de crer, ela se afoga

Onde fugir? Onde se esconder se este mal vem de mim?
 Onde me abaixar se esta dor me salta?

Então seus braços me enlaçam
Recosto a cabeça cansada,  meus 
Pensamentos se acalmam,
Minha alma se aquieta curada

A febre estranha vai embora e
Eu vivo o momento, o agora.
Você me preenche o vazio,
Mas o vazio que sou 
Não fica cheio de você
Fica pleno do seu amor...

Onde? Onde eu poderia fugir com você?

Angel





Vida seca




Bebi o cálice amargo da traição
Senti o veneno descer por minha garganta
Corroendo, assim, minhas entranhas,
Meus olhos se encheram de sangue
E gotas escorrem por minha face
Ouvi o som angustiante  de minha alma
Partindo-se ao meio
Enfiei a mão do lado esquerdo do peito
E arranquei meu coração machucado
Ele ainda batia e, embora com grande ferida, me sorria...
Reparei em meu pulso sem vida
E ao fundo de toda minha agonia
Ouvi uma música vazia
Falava de seca, guerra e ria de gente que morre
A loucura tomou conta da paisagem
Tudo ficou frio e tornou-se cinza
Tudo sem cor, tudo dor e horror
Mas eu ainda vivia
(Seca, amarga, fria)
Peguei uma lâmina
Afiei afiei afiei
Mas não a sujei
Deitei e cochilei

O sol nasceu indiferente
Trazendo um novo dia

Angel

Alguém




Como se ao abrir meus olhos
Pudesse tê-lo diante de mim
(Assim é cada vez que pisco)

Longe, mas infinitamente
Ao meu lado
(Assim é cada vez que respiro)

E respirando sinto 
O cheiro do seu sorriso
Sabe- se lá o que é
Sentir cheiro do riso de alguém?

Você  vem e, pela brisa,
Toca meu corpo
Gozo o prazer dos seus toques

E solto uma gargalhada
Louca, rouca, escancarada
Uma risada gozada
Do gozo que eu gozei

Meu corpo flamejado
Com uma chama que nunca de apaga
Me entrego
Sem que esteja ao meu lado

Estagnada, ardendo de paixão
Vejo o sol morrer no horizonte
Enquanto você nunca morre
Em meu coração

Angel

As belas que me perdoem

Pollyana se ao menos eu tivesse
Esse seu otimismo adolescente
E sorrisse eternamente
O seu jogo do contente.

Ou pudesse eu enxergasse
De maneira diferente
Como sempre docemente
Cecília vê a gente

Cavalgasse eu velozmente
Com espada flamejante
Como Joana triunfante
Repleta de dons fascinantes

Houve um gênio, Vinícius
Que perdão as feias pediu
"Mas beleza é fundamental"
Desculpas sou eu quem pede
Por faltar-me o essencial

Quem sabe a pena de Assis
Brindasse-me com o sexy mistério,
Que enlouqueceu Betinho,
 O olhar de Capitu?

Mas que olhos de ressaca,
Meus olhos não mistificam nada.
Talvez eu seja apenas Beauvoir
E nada possa me definir.

Tanta mulher descrita
Em nossa história machista
                      Como bem amada ou aflita
                                                    Musa, doce donzela,
                                                  Cristã guerreira
                                                                   Sempre belas!
Nenhuma me representa...
 Sou mais eu, que todas elas...
Angel





Caso de amor

A Vida e o Nada se abraçam
Se apaixonam, se enlaçam...
Nada traz graça
Nada fascina
E a Vida ri do Nada
A Vida vive por Nada!
E assim eles trocam carícias
Com olhares cheios de malícias
E em suas mentiras tão sinceras
Subexiste a verdade mais bela
E completamente vazia:
A história de um amor em pecado
De um acerto errado,
Pois a Vida se torna o Nada e eu
Serei condenada


Angel

sábado, 16 de julho de 2016

Anjos

Eles apareceram
Eram altos
Eram muitos
Com olhos doces
Com voz suave
Cantaram em coro
Canções estranhas
Sobre gurras e glórias
E eu chorei
Me cercaram
Me despiram
Me tocaram

Nada mudou
As coisas continuaram iguais
E eu continuei com medo;
Continuei com dor
Mas quem olha nos meus olhos
Um brilho diferente vai notar
São olhos de alguém que já viu
Um coro de anjos cantar

Cadela

Os cães ladram
Roem seus ossos e
Abanam suas caudas
São cães de raça os
Políticos da praça
Que riem com graça
Enquanto o povo se esmaga
Farejando lixo na lata

Que vida ingrata
A de me coçar com a pata
De me esconder na mata
Enquanto a carrocinha passa

Cães políciais são chacina
Para vira latas de esquina
Cães ladram sem parar
Em minhas orelhas
São grandes e famintos
Roem ossos podres e fedorentos
E sou uma cadela no cio
A mercê destes ordinários

Sonhos

Quando um lampejo de ilusão se torna realidade
Não há no mundo palavras que descrevam tal felicidade
Chamam de louco o sonhador
E ele sorri e luta por seu ideal
Carrega no bolso esquerdo sua pedra filosofal
E quando a toca seus olhos se tornam faróis cheios de luz
Pessoas se assustam tentando entender como pode- se assim viver
Mas para ele a realidade é outra e continua a tentar mesmo quando parece não haver sentido
Ele sabe que o mundo não  anda bem
Já viu coisas ruins acontecerem a pessoas boas
Já viu pessoas cruéis se dando bem
Mas a sabedoria lhe diz que cada um pode fazer a diferença
E então esquece o mundo e começa por si mesmo
Pois é um sonhador e se alimenta de sonhos para poder continuar.

Serpentes

Meus pés caminha sobre víboras
Por meus dedos jorrar como um rio
Os seus venenos
Tentam me picar
Me desencorajam em cada passo
O fedor me enoja
Peçonhas prontas
Desonras são desculpas
 Meu corpo tenta se defender
Meu espírito procura se esconder
Irônias nas palavras
Atitudes mesquinhas

Preciso de calor
De um abraço amigo
Urgentemente de amor
Não penso em fugir
Mas me confesso apavorada

Filhos

ADORO
quando me olha, faz cara de dengo e sorri
Fazendo covinhas cheias de flores
E, então olho para seus olhos reluzentes
E acompanho seu riso.

ADORO
quando "faz beicinho" e transforma seu rosto em uma careta, ou quando se joga para trás fazendo birra até perder o ar.

ADORO
quando acabo seu banho e você quer ficar
brincando na água, ou quando troco sua fralda e você tesolve fazer cocô.

Adoro até quando estou perfumada e você 
regurgita em mim.

Mas adoro mesmo é vê-lo revirar-se na cama tateando com a mão a procura do peito, com os olhos ainda fechados segurá-lo pelos dois lados e sugá-lo desesperado.
Aí você vai se acalmando aos poucos e puxa, com suave carinho a blusa sobre seu rosto.
Enquanto mama fico na mais absoluta comtemplação:
tão parte de mim,  tão monha melhor parte
A cabecinha suada p
elo esforço da mamada
Seu calor
E essa respiração....
Nada no mundo é mais belo do que este momento.
Perdoa, desde já, se eu erar. Mas creia:
Te amo infinitamente
Indiscutivelmente
Inexplicavelmente
Amor simples
Amor de mãe


Grande Sertão

Pelas instigantes veredas
Em que me enredo
Trago o simples fascínio
De um bicho do mato
Lágrimas que vertem prum
Rio de terra rachada e
Fazem dos olhos duas
Velhas feridas calejadas
Mas tenho na alma 
um menino fazendo poesia
E trago nas palmas da mão
 os segredos da vida
Sou o cortante fio do facão
E amo intenso como o cio de um cão
Nas horas longínguas 
Em que me aquieto no nada
(Como peçonha da cobra
Já pronta pro bote)
Ouço, no silêncio torturante
Que estrangula minha sorte
Os gemidos ardentes de um Ser mais forte
Que abre o sertão com o toque dos dedos
Esmagando deuses, diabos e medo
Vou e voltejo no rio
Desespero
E no vai e vem deste tempo, enlouqueço!
E rezo em segredo pra um deus quelemem
Colhendo com as mãos a Rosa de todo degredo
E deito no barco, onde a morte eu beijo.

Nova geração

Todas as mentiras são ouvidas
Os burros do presépio dizem amém
e aplaudem seus carrascos sentados
em coloridos estofados
Nas mãos carregam um controle
Na realidade são controlados por ele
Ele diz: ria
Ele manda: chore
Todo obedecemos
Sacudimos nossas caudas
tentando espantar as moscas
da vontade própria e nos cegamos.
Eis a nova geração
Eis a geração televisão
... onde as pessoas se sintonizam em canais cada vez mais distantes
...onde as mentes param de ir adiante e giram como satélites
Eis, o paraiso dos ignorantes
Um brinde a todos nós!