segunda-feira, 8 de agosto de 2016

à margem



Sou um verme social.
Alimento-me da solidão e das dores silenciosas que as pessoas guardam no coração
Este é o meu dom. Esta é minha maldição.
Fixo minhas ventosas sobre as feridas apodrecidas e as limpo.
Por vezes curo-as, mas quem se importa?
Não sou agradável aos olhos. Sou um monstro, causo repugnâncias.
Por isso estou à margem.
Exponho as chagas  que todos querem ocultar
Rastejo pelas sarjetas e respiro hormônios alterados.
A exaltação do vazio me embriaga.
Existo, mas não possuo. Por isso não sou, apenas incomodo.
Todavia minha essência sustenta os planetas em suas órbitas e mantém o ritmo do cosmo.  Levo o caos por onde passo, ninguém me vê. Sentem-me no orvalho, no som da flor que desabrocha devagar.
Sendo caos, sou transformação. Vida reciclando vida. Morte consagrando existência.
Em minhas mãos inexistentes carrego chamas e o vento espalha as fagulhas como polens. 
Não queimo, faço arder.

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