quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Esclarecimentos sobre o amor entre poetas



 Não, poeta! Eu não te amo.
E  também não podes  me amar.
O que amamos é a Arte que somos quando juntos.
Amamos a rima que nos rasga, que perfura nossas entranhas, que estremece nossas estruturas.
Confesso que me apaixonei pela forma que tu pegas as palavras pelos cabelos; pelo teu jeito de arrastá-las para a cama. Adoro ver-te fodê-las ardentemente e gozar sobre elas. Seduz-me o modo que  tens de lamber  as frases; de como os teus lábios carnudos são incansáveis em sugá-las e obter delas o néctar mais suculento.
Fiz-me tua poeta  em sonhos e devaneios. Fiz-me tua, poeta, em sonhos e devaneios.
Sou menina dos teus versos. E dos meus, és cavalheiro.
Nossos corações, entretanto, são dois incorrigíveis vagabundos ébrios de poesia. Vira latas, sem dono a farejar por becos e prostíbulos.
A arte que nos liberta, por ironia, é a mesma que nos trancafia.

Talvez, poeta.  Pode ser que eu te ame.
E também, pode ser, que tu -talvez-  me ames.
Mas nosso  amor é improvável  por toda Arte que somos, quando não estamos juntos.
O que amamos é a impossibilidade torturante, a dor lancinante da separação, o tesão do nunca que nos masturba.
Fascina-me teu modo de desnudar a nossa língua, de conduzi-la ao coito masoquista, ao prazer  extremo da literatura poética.
Fiz-me tua dama. Fizeste-me melancolia.
Nossas almas, no entanto, são ironicamente piegas e facilmente arrebatadas de um lirismo pungente. Submissas da inspiração, a rastejar por musas e ironias.

Sim, poeta eu te amo. E tu também, me amas mesmo contra as leis
        (da gravidade,
               da física,
                      da gramática
                            da geografia
                                    da lógica...)
Estamos impregnados até os ossos desse amor cancerígeno. Desse sentimento que se infiltrou por epiderme, derme, hipoderme feito queimadura de terceiro grau.
 Encanta-me teu rigor rítmico, tua obsessão pela estrutura. Tuas mãos desesperadas pela forma. És, Senhor absoluto do que fala. Enquanto rastejo ao redor do  sentir, dos restos que caem das mesas no Banquete de Platão, que sugo as gotas de vinho derramadas por Dionísio. Eu, serva obediente do ser, sou tua.  Porque sendo eu tua poesia e tendo tu te tornado o meu poema nos tornamos, um do outro eternidade.



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