terça-feira, 13 de setembro de 2016

Meu livro



Não te vejo. Por isso temo.
És tu uma história que leio.
Livro sem capa. Narrativa sem nome.
Eras um volume abandonado na estante empoeirada de uma livraria qualquer.
Mas desejei folhear-te  e envolvi-me com tua história.
Não consigo parar de decifrar-te
Leio em teu mistério nosso romance
Leio-te, sem saber se és
E cada folha que se abre,  abre-me as pernas
E a cada vez que molhos os dedos nos lábios para tocar-te
outros lábios se umedecem
Ávida de ti nada mais me sacia
E o suspense que te envolve não se resolve
Agora entrelaçada a esta trama, me angustio.
“-Quero gozar com você!”
“-Quer?”
“-Sim, eu preciso de tuas mãos me revirando; de teus dedos me invadindo.  Preciso sim, de teus olhos pousados sobre mim...”
Espero que salte para fora do conto, que passe através das margens como quem atravessa um Portal.
Rasga-me. Usa-me. Abusas. Desvendas-me.
“- Continuas...” ordena!
E eu sei, sei que gozas me vendo sangrar.
Tem tesão quando tremo de medo.
Quer que eu sofra, que me castigas.
Não tenho amarras. Não me pões correntes.
Sou livre, mas sinto-me escravizada.
Seu domínio absoluto me paralisa.
Por isso não corro, não me nego...
Tenho raiva, muita raiva.
No entanto, estou ardendo de vontade de sua maldade.
Como eu desejo que ela me estrangule com tuas mãos.
Ouço o ruído irritante de seu orgulho crescendo diante de minha servidão.
Este teu prazer mórbido de roubar tudo de mim
paralelo a minha vontade de prostrar-me aos teus pés.
Eu quero sofrer teu abandono.
Eu quero sangrar a dor que tu causas.
Eu quero ser a menina que tem os sonhos espatifados e corta os pulsos com os cacos  espalhados.
Me decido a ficar na trama entre todas as intrigas, entre todas as personagens de quem já roubaste o coração.
Leio-te com cega devoção.
Leio-te com fé absoluta.
Leio-te em renúncia de mim.
“-Continuas!” – grita.
“Tu gostas de me ver assim, entregue...” -lastimo- “Sentes prazer no meu temor”
“Gosto de saber-te minha!”

Angel






domingo, 11 de setembro de 2016

Cavaleiro Negro



Nem bem me viu, se despiu.
Negro como a noite esgueirou-se pela escuridão do quarto, quase invisível.
Chegou-se a mim enquanto meu corpo esparramava-se sobre os lençóis.
Quando tuas mãos me alcançaram, teus dedos feito cobra enrolaram-se a mim explorando cada vão...
Por alguns instantes perdi os sentidos e deixe-me flutuar nas águas quentes deste êxtase.
Tua boca me alcançou ávida por sangue. Teus dentes rasgaram famintos minha carne. Gritei de dor e prazer contorcendo-me freneticamente.
Tuas mãos agarraram o meu cabelo pela nuca e me empurraram ao teu membro onde saciei minha fome. Encheu-me a boca de ti enquanto Sodoma e Gomorra ardiam dentro de mim.
Bezerra faminta me entretinha quando com as duas mãos me puxou abruptamente até perto do teu rosto e beijou-me a boca com a ternura dos anjos.
Senti que poderia morrer naquele instante, pois estava com os pés no paraíso.
Mas tu,  insaciável virou-me o corpo num só gesto, fincando sua espada em meus quadris ajustados estrategicamente para o abate.
Gemi escandalosa, gritando mais a cada estocada furiosa. Tua ira não diminuiria...
No golpe final enquanto eu definhava em cansaço ouvi teu grito de vitória e vi tua queda.
Com o duelo acabado, nossos corpos, agora caídos lado a lado, respiravam com dificuldade.
 Alguma criatura mutante entre ódio e amor rastejava sobre nós, quase viva.

Angel

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Não honrarei


Não honrarei as promessas
que fiz aos meus carrascos
Não sorrirei benevolente
Nem direi palavras que serão carícias
Quero ser maldita
Preciso ferir como fui ferida
Nunca ninguém me protegeu
Nunca tiveram piedade
Nunca me deram nada;
sempre suei e sangrei 
pra galgar cada degrau

Agora me pedem condescendência?
Fui forjada a ferro, fogo e traições
Tive o coração rasgado por vagabundos
A alma dilacerada por tiranos
O corpo corroído pela dor
...nenhum deus se apiedou

Hoje meus olhos se fixam 
num horizonte além;
meus joelhos não se
dobram a qualquer dor;
Abri a caixa de Pandora
e luto contra os demônios
que libertei.

Honro os guerreiros
que lutam ao meu lado
Honro minha insígnia
que é a poesia
Honro a espada que carrego
que é a palavra maldita
Nenhum homem
Nenhuma divindade

Somente eu a minha luta...

Angel