segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A Puta



Madrugadas são costuradas de pequenos retalhos de solidão.  Mas nenhuma solidão é tão impactante quanto à da puta.
Nas noites em que vadias pelas ruas e bares é desejada, procurada e usada por homens de todo tipo. Mas há as madrugadas, onde os homens se recolhem para dormir  e há os finais de semana que os homens dormem com suas imaculadas esposas.
Nestas horas a meretriz esvazia do colo todas as porras e deita-se sozinha em um colchão duro.
Ela não consegue adormecer, apesar do cansaço. Alguns pensamentos doem, ela tenta afastá-los.
Não há nenhum glamour na sua solidão.
Ela vai à janela e acende um cigarro. A cidade lá em baixo ainda vive, embora só pessoas como ela, lobos e mariposas da noite, a mantenham em movimento.
Cada tragada profunda tenta esconder através da fumaça, alguma dor.
"Escolhi ser livre" pensa, tentando convencer a si mesma. Enquanto apaga o cigarro e o joga pela janela, coloca a cabeça fora e grita: "livre"
Não há resposta. Nem um eco.
A mulher livre é só. A mulher que todos desejam na cama, dorme sozinha.
Deitada agora, nua. Olha pela cortina aberta para o céu em busca das estrelas, não há nenhuma. As luzes artificiais encobrem qualquer outra forma de luz
Não lembra com clareza com quantos homens dormiu naquele dia... E naquela semana? Naquele mês? Não quer se importar com isso.

Então, ela mesma acaricia seus cabelos,  tática que usa desde menina para acalentar a dor. Sussurra os versos de uma canção de ninar até que sua voz perde a força. Assim adormece a vagabunda livre, sem sonhos


Angel

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Nosso


Tu não me assumes... Me esconde debaixo do tapete vermelho dos meus versos.
Tu não diz meu nome me trancafia no nada dos teus excessos.
Tu prometes uma devoção, enquanto preciso da profanação da carne, da luxúria.
Esbofeteia meu rosto, me recolhe aos pedaço, mas, imploro, não jogue no lixo meus belos cacos.
Sem ti não nasceriam mais versos.
Sem ti não me desembaraço...
Eu sei que errei, meu amor é egoísta, quer exclusividade e
 resulta em medo.
Fujo do pecado que é ser tua
Esqueço-me que sou completamente entregue ao que me significas, ao que despertas.
Minha mente longe de ti, depois que me afasto, da voltas em queda livre num vazio imenso e assustador.
                                                           Feridas me rasgam a carne.
O que fizeste? Como me fisgas-te? 
Uivo a madrugada toda esta solidão...
 Quem és tu que me acorrenta a esta invisível prisão de ser livre?
  Dói-me tanto a necessidade de ti que volto.
 Volto correndo e humilhada.Sem saber se teus braços estarão abertos. 
Me submeto a tuas ordens. Me dobro aos teus caprichos.
Sou tua caça. Tua presa. Tento correr, mas saber tua presença me paralisa. 
Espero o bote, o açoite, o coito. Submissa
Te amo na proporção que te odeio.
Te quero na proporção que te temo.
E, enquanto me devoras, lágrimas de gratidão rolam serenamente por meus olhos. Enquanto me  devoras, eu também me sacio através de tua fome.
Nosso amor não tem nome.


Angel

Frases

"Pareço frágil a olhares desprovidos do ver.
Minha humanidade, sendo naturalmente trágica
e excessivamente apaixonada, foi alvo de estudo de renomados psiquiatras que consideraram-me ironica demais para que pudesse ser medicada..." 

Angel.

Frases

"Castro o encanto
Que me fascina
Por medo absoluto 
do que me despertas
A fúria do que sinto, e
nunca senti antes de ti
me desespera"...

Angel.

* imagem de Roberto Ferril

Frases



"O que há na profundeza do não estarmos juntos além do vazio absoluto do sermos sós?"

Angel


sábado, 22 de outubro de 2016

Gozo


Gozei em meus dedos 
sob tua lembrança. 
Gemi. Delirei
Mas tu não estavas
Ausente teu sexo
Mostrou-se em mim
Gozamos então
Juntos, enfim!

Angel.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Cruxifica-o



Descobri que os poetas podem falar de amor,
Desde que de amor romântico
Não é permitido ao poeta
Ter desejos que não os platônicos. 
Ai, do poeta que sentir ereção. Ai de ti poeta, haverá de arderes no tribunal da pureza.
Ao poeta é dado o dom da linguagem, 
Desde que ele fale sobre a castidade e o perfume das flores.
Mas, aí de ti poeta, se usastes do verbo bem sovado numa metafórica fodida.
Tal dialética  causa horrores fatais a donzelice língua portuguesa
Freira puritana essa nossa língua que se mete em todas reentrâncias da minha arte
O açoite da gramática é cruel às costas  poéticas.
Que o poeta fale de pássaros e cante o olhar dos meninos, que tenho uma musa
Mas não ouse ele meter-se com ela entre lençóis  vagabundos de um motel barato.
Poeta, ouvis meus conselhos, contorças  junto às suas palavras, mas contenha o gozo. 
Não haverá de ser perdoado o extasiar-se, o deslumbramento
Pois impera a hipocrisia na (horla) intelectual dos lascivos moralistas.
"Os quais  influenciam mentes e que são destinadas a controlar a humanidade"
Juntemo-nos ao banquete farto da teocracia  deixemo-nos embriagar e dormitar  bêbados entre a imaculada brancura que ostentam no palacete dos santos. Não há nenhum pecado na humanidade além da poesia, então crucifiquem o poeta.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

tesouro

O que eu tenho?
Só minha poesia, mais nada. 
Sonhos? Perdi-os
Amores? Matei-os
Meus versos são asas
Me levam além das nuvens
Meus poemas correntes
Que prendem meus pés na Terra
Humana
Semi deusa
Poeta.
Nem pecado
Nem perdão
Apenas as palavras enluadas na solidão

Angel.

quando

Era noite?
Era dia?
É agonia.
Eu caço palavras pra explicar sentimentos.
Lanço flechas, jogo redes...
O que eu pego não é meu.
 É fúria de minha natureza!


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

apocalipse poético



que a Terra trema
pelo terror de minha tempestade
que sacudam-se as florestas e 
destrocem-se as cidades
ao clamor do meu silêncio
sou  alfa e ômega
princípio e fim
de mim mesma
sou a extinção iminente
o medo voraz
sou as nuvens escuras
que anunciam a grande tormenta
sou a rajada gélida
que parte a pele faz sangrar
sou a dor esquartejadora
que ninguém vê
mas todos sabem
alguns pressentem
e esse grito mordaz
que trema  Terra
sob minha agonia
que transbordem os mares
pelas minhas lágrimas
eu serei a grande prostituta
parindo perdição e caos.

 Angel

terça-feira, 4 de outubro de 2016

inverno



Eu não te pedi muito:
Um caderno para compor poemas
Uns livros pras tardes cinzentas
Uma garrafa de tinto

Te pedi a dor de não seres meu
A fim de instigar-me uns versos
O açoite perfeito na hora do gozo
O doce carinho na cura da dor

Te pedi a mão sufocando o pescoço
E o nó apertado no peito.

A liberdade de ser
 mais poesia que gente
Pois a quem é
poeta urge o não ser

Em troca eu lhe dou
Toda minha confusão
O rouco da minha voz
O afago na minha mão

Em combustão, o meu corpo
Em rabiscos, alguma poesia
De ver-me sangrar, a alegria

Daria-te a taça vazia
com que ias me embriagar
E pra onde fosses
O perfume dos meus cabelos
Podias levar

Aprendi a fazer a poesia
por magia se materializar
então mesmo de longe
posso tocar e excitar

Se minhas palavras te despem
Se elas te põe com tesão
Não me julgues
Não me condenes
Com tanta severidão

Tudo o que rogo
Tudo o que posso te dar
É o dom ou castigo 
De que padeço
Que é poetar.

Angels.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Deus me livre de amar um poeta



Deus me livre de me apaixonar por um poeta
 e ter uma existência maldita.
Passar meus dias à mercê de versos,
viver de mendigar poesia.

Deus me livre saber-te  na boêmia
enquanto meu corpo se flagela
sozinho na madrugada

Deus me proteja de masturbar-me
 lendo tuas juras de amor eterno
Se os poemas que leio são os mesmos
que declamas pra putas bêbadas num bar qualquer.

Deus me livre de ser tua enquanto não és meu.
De tentar adivinhar para qual musa andas a construir rimas.
De deitar-te contigo em minha cama
E saber que não sonhas comigo, mas com a poesia

Deus me livre de me apaixonar por um poeta.
De ler tuas traições em tua prosa....
De ser  perdida em meus amores por ti,
 De chorar sozinha nos cantos
para não desarranjar tuas rimas.

Deus me livre de sentir tudo isso
que sinto quando estou junto a ti
Também sou poeta e maldita
Sei bem do que venho pedir

Angel