terça-feira, 29 de novembro de 2016

Diálogo com a Musa

Não vá embora, sente-se aqui e me conte como foi o teu dia.
Faça alguns versos com as nossas dores enquanto bebemos duas xícaras de poesia preta e sem açúcar que é para curar a ressaca dessa nostalgia.
Fica um pouco mais poeta.
Não seja breve, quero-te eterno.
Ainda é cedo para a boemia...
Então, deixei-me recostar a cabeça em teu peito e ouvir bater este coração partido.

Angel.

Você

A escuridão me envolve feito serpente
Preciso de sua mão segurando a minha.
Sua voz rouca, me acalma
Eu sei, cresci em dor. Me viciei. Preciso dela para encarar meus demônios.
Então, me aconchegue em seus braços e me dê uma dose. Apenas mais uma. 
Dormirei tranquilamente.
(Estou cansada dos pesadelos)

Angel.

Você


Olhei você perdido no mar.
Um barco de papel em meio a tempestade.
Aconcheguei-lhe com carinho entre as mãos.
Desdobrei-lhe... Que surpresa; eras um poema!

Angel.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Louca



De loucura em loucura vou me tornando a puta que todos previram. 
Não quero agora, em plena maturidade, ser recatada em minha poesia.
A Arte nunca foi santa, mesmo quando era sacra.
A Arte só é Arte quando é profana e se espalha além dos limites da hipocrisia.

Angel.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Jornal de Ciências







Depois de anos de experimentos, de testes científicos e comportamentais e de infinitos congressos internacionais, uma coletiva de imprensa foi convocada. A declaração feita causou furor entre os jornalistas.
Embora já se houvesse a suspeita, foi então confirmado pela ciência, a mutação no genoma de todo poeta existente.
A alteração dos seres desta agora considerada uma nova espécie é responsável por seu estranho comportamento.
Através de métodos comprovados, pode-se afirmar que poetas são seres de hábitos predominantemente noturnos e solitários. No entanto, apreciam caçar em grupos e, por esta razão, têm sérias tendências à boêmia.
São seres não monogâmicos que possuem, como característica básica, se apaixonarem intensa e dolorosamente de duas a doze vezes por ano. Apesar disso, os especialistas observaram que, a grande maioria destes relacionamentos ocorre de forma platônica e, todas estas acaloradas paixões só se concretizam em formas de poemas românticos, com sérias pitadas de erotismo.
Testes confirmam que há na construção de uma boa prosa qualquer espécie de descarga hormonal no cérebro do ente poético (ainda não catalogada ou nomeada nos anais da medicina) que os torna excêntricos diante de simplicidades rotineiras. Essa química os torna capazes de filosofar horas a fio sobre coisas que passam desapercebidas às pessoas normais como, por exemplo, falar sobre a consistência metafísica da pétala da margarida.
Essas “aberrações cromossômicas” trazem aos indivíduos altas doses de dramaticidade e uma profunda sensibilidade o que leva às pessoas erroneamente a classificar os poetas como loucos ou preguiçosos.
O DNA do poeta, na verdade, é mais antigo do que o da raça humana normal. Possui traços  de seres mais primitivos e selvagens, dotados de instintos aguçados e, seriamente destinados a adorarem divindades míticas como Musas.
Devido a forte tendência a serem sonhadores e instáveis os poetas não conseguem manter relações duradouras entre seres da sua espécie o suficiente para se acasalarem, então é bem provável que estejam condenados a extinção. Este fato levou a um consenso e comoção geral entre todos os estudiosos: “seria uma grande tragédia para a raça humana o fim da poesia, pois é ela a aura da insanidade que nos mantem humanos.”, afirmaram.

De Maria Angela Piai (Doutora Poesiologia e especializada em estudos do DNA de poemas, poesia e prosa.)

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Gira-sol






 Caminhando entre delírios
Meus pés sagravam espinhos
Parei a beira do caminho
Para ver o tempo brincar

Avisteis algumas flores
Bailando ao som do vento
Frágeis e trêmulas
Suspiravam devaneios

Rabisquei meu nome na terra
Com dedos de contornar sonhos
Toquei algumas sementes
Que logo desejei plantar

Cultivei-as no meu quintal
Iludida com os  lírios que virá
reguei-as- com todo carinho
(carinho de que esta a sonhar)

Mas nas cambalhotas do tempo
Qual não foi minha surpresa
Ao descobrir que a vida
É o poder da natureza

Ao invés de um jardim de lírios
Brotaram girassóis
 grandes e amarelos
cheirando desilusões

Mas olhando-os com atenção
Vi o que tempo queria dizer:
A vida nos entrega sementes
Que devemos cultivar
Nem sempre ficamos contentes
Com o que vemos brotar

Hoje eu compreendo
O valor do inesperado que
trouxe aos meus olhos,
ainda despreparados,
flores que me ensinaram
um valor inestimado.

Girassóis não tem perfume
Como orquídeas ou rosas
Não são flores delicadas
Como margaridas ou dálias
Mas trazem o coração
Repletos de sementes,
sorriem para o novo dia e
se movem em busca da luz!

Plantei em meu coração
Pequenas sementes-girassóis
Que um dia, quando eu murchar,
Elas possam se espalhar
Deixando o meu carinho
A quem quiser cultivar

Angel.

Tempos

Deus me cantou 
uma canção de paz
e quero dançá-la.

A vida me presenteou
com momentos de fé
e quero agradá-la.

O amor se tornou
esperança
e quero vivê-lo.

Não são momentos,
são intensidades

Vou respirar o ar poluído
e permitir que toda minha fúria
se renove

É tempo...
... de novos amores
....de paixões mais sinceras
.... de poesia.

Angel.

Delírio


Sou tua serva e sou teu grito
Um gemido abafado e 
Aquele suspiro suspirado
Num segundo de delírio
Entre o querer o não poder te encontrar.
Sou aquela que se oculta entre os becos a espera dos poetas que tropeçam entre seus versos e a cachaça que acabaram de entornar.
Sou os ponteiros do relógio que se encontram a meia noite no horário que os amantes se entregam ao luar.

Angel

Língua


Minha língua 
Louca e lisa
Desliza
Por tua pele
Nua e quente
E retira do teu
Membro intumescido
Todo leite
Que a fome do 
Tesão pôde 
Gozar...



Angel

Em ti...

Tenho tesão em ti
Que me fodes sem me tocar
Que me machuca sem me olhar
Que me sangra sem me furar
Quero ser a lâmina afiada que corta teu pulso
O impulso fatal
O último brilho nos olhos,
Antes do olhar final.
Quero ser o momento exato do teu gozo
E a lágrima a escorrer quando soube que amor por tuas mãos há de morrer...

Angel.

Monstros


Para os olhares dos benquistos e honrados cidadãos deste planeta decadente nosso amor é uma completa aberração. Deformados que estamos pelas chagas da maldita solidão. Eis que o poeta permite que sua musa o seduza bem no meio de uma multidão horrorizada. 
E nesta cruza tão profana a musa grita extasiada Quero que penetre-me com tua poesia enrijecida.
Nasce daí o caos poético que quase salva este mundo decrépito da hipocrisia...Somos Arte que não se reparte
Poesia sem começo ou fim

Angel

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Sexo


 Tua espada me saúda
Em nosso reino-cama.
Eu, rainha conquistada
rendo-me a tua realeza
sobre-humana!
Cavaleiro de outras 
terras tão longínquas
os meus lençóis
 invade sem corar.
Tua lâmina penetra minha carne
e se derrama nosso gozo
no colchão...
Sangue e sêmen
se misturam
entre atos, na violenta
tara da paixão.
A coroa de espinhos
 me encobre floresce
de repente por tesão.
A batalha que travamos
já esta ganha na gana que os
 lábios têm de me sugar.
Reajo com a boca
 e te domino, sei agora
Que vais te entregar.
Mas de um nada tu  me atacas
bem felino e num golpe de poder
Me deita ao chão.
Me mordes, me devoras
Sem compaixão.
E ao final da guerra
O que nos sobra são
dois corpos exauridos
em combustão.

Angel.

Canibal



Hoje numa taça
Do mais fino cristal
Lhe servirei uma dose letal
De minha tristeza
Quero que beba-a
Até se fartar
(Ou enfadar)
Por isso vou deixar
A garrafa na mesa

Para saciar
Seu apetite voraz
Prometo me cortar
Em partes pequenas
Salgadas na lágrimas
Onde chorei sua ausência

Serei uma porção suculenta
Servida em bela bandeja
Enquanto bebe e come
Com garfo e faca
De prata nobre
Das dores que sinto
Eu finjo e minto
Um sorriso fugaz

(Poesia Canibal, de Angela)

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Moço triste.



Sei bem, moço triste,
o que se esconde
por trás desse seu
sorriso maroto

Das dores, garoto,
que trazes no peito
pelo desprezo, eu sei

Tua pele escura
estigma do preconceito
que desde o leito,
te marcou.

Sei do esforço sobre humano
na busca por teu espaço
e de todos os percalços.

Eu sei menino lindo,
que te fizeram pensar
que em ti
beleza não tinha lugar

Diminuíram-te, mas
ainda sorris este teu
belo sorriso. Sorri-dentes.

Escondeu-te atrás de livro
e pela poesia, tua dor gritou.
Grito de guerra.
Também não desconheço
tua voz.

Perdes-te te por vezes
na busca de teu prazer
Traindo tuas verdades
No leito do desamor

Por conta de mera vaidade
Traindo teus ideais
Sofreu, o meu vagabundo,
Band-ads não estancam
Hemorragias internas

Eu sei cavaleiro negro,
Eu percebo e pressinto,
Mas tua dor não posso sentir.

Ela é tua marca.
Bandeira hasteada
a cada batalha.
Cada um traz na alma
Suas histórias de guerra

Respeito-te, nobre poeta.
Pelas belezas que tens se saber
Pela leveza que leva em teus versos
Pelas feridas expostas na prosa  explicita.
Até pelas tuas artimanhas no amor.

Respeito-te por quem és.
Embora não possa ser em ti
digo-te: picha nos muros
tua liberdade poética!

* Nos becos estreitos destes submundos
a dama louca e seu doce vagabundo -
atrás das lixeiras do mundo
escondem-se para fazer amor e poesia





Renato ( ou reflexões sobre o lugar na Arte na sociedade)





Dei pincel, tinta e tela
para o menino
de 4 anos de idade

Pés no chão
Cabeça nas nuvens
 Nome de músicos
Alma de poeta

Ele se entreteve
Por horas a fio
 Sem dar um piu

Ao terminar sua obra
Me encarou e eu vi
ele mesmo uma tela
cheia de tinta:

-Mamãe, e agora?Onde vou por a minha Arte?