quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Poeta

Às vezes não consigo entender como a poesia sobrevive.
A alma contemporânea é avessa à contemplação.
E é exatamente esse poder que os versos possuem de se esgueirar pelas frestas que me comove.
É a junção da delicadeza da pétala de uma margarida a mais temível tempestade.
Quem teme o poema?
Há muito descobri que os segredos devem ser escondidos em livros,
por trás de vogais sonoras,
de consoantes mudas
e das reticências...
Desde então, ali estão os meus tesouros, através deles desvendam-se meus mistérios. 
Fome, guerras, angustia... Enfim, tudo se diz num poema.
Febres, paz, amores... Tudo se funde na poesia.
Aprendi, assim, a sentir pavores de gente muito certinha, que vive sorrindo e está sempre bem penteada.
Gosto de chafurdar no imensurável, embriagada de incertezas.
Quem teme o poeta?
Este ser que se camufla tão perfeitamente na multidão, entre os mortais. Mas que traz um véu de louca sanidade cobrindo a cabeça.
Este que, cego, enxerga através da taça de repleta de vinho.
Este que com o corpo repleto de estigmas da poesia  torna-se, com o passar do tempo, um leproso a Arte.
Todos fogem dos poetas. Por isso eles rastejam solitários expondo o que há de mais atemorizante na humanidade: o humano.
Mortal na carne. Imortal nas palavras. Restam poucas palavras não ditas. Mal-ditas.

eu

Não tenho febre
embora
arda algo
dentro de mim.

O fogo que consome
a minha carne
expõe o horror
da realidade
de não ter patrão

O que eu sou
já foi luz
mas se apagou

Filha do caos e
 da escuridão
caminho insone
na multidão

E no meu timbre
não há voz
Rosa e tigre
algo feroz
que se define
sem me definir

O que me oprime
é o teu pavor
Sobre eu ser assim
Nunca ao seu dispor...

O que eu sou
não tem dimensão...
Não meça com régua
o meu coração
Não conte meus passos
eu posso voar
Não trace minha rota
vou me desviar

A liberdade arde dentro de mim
amo me ver queimar

Amor de ninguém

Este amor vai além de mim,
além da dor e da arrogância
Sobrepujia a própria morte
e sobrevive
Às páginas amareladas,
aos álbuns de retrato e
às palavras vazias, baldias.
Sobrevive, pois vai além
de qualquer coisa a ser dita
Mastiga a hipocrisia e
vomita a sinceridade
Esmaga a covardia e
descobre a coragem
Não se contenta com a paz
lutando a batalha da luz.
Sem se conformar com a injustiça
Sem nunca aceitar a indiferença
Sossegando na igualdade
um amor que vai além da poesia
(por que até o mais belo
dos poemas morre um dia)
Mas não morre esta magia,
este brilho no olhar
E não finda a agonia,
ou o desejo de lhe tocar.
O amor vai além de mim,
ele ultrapassa a qualquer um,
porque se estende a todos
os lugares onde haja
um pequeno espaço
para o amor entrar.

Êxtase

entre a punção e o sangue jorrado,
entre a lágrima e o peito dilacerado,

entre as cinzas e a Fênix renascida,
estou eu: morte e vida
efêmera e eterna.
o que sou?
perguntas 
inutilmente
ao nada
e o nada traduz 
o silêncio 
de um olhar 
vazio...

versinho

Dizem que muito cedo eu aprendi a falá
Dizem que depois disso eu nunca quis me calá
Mas a poesia da vida me veio sem o bê-á-bá
Aprendi foi sentindo no peito outros jeitos do amor se contá
E fazedor deste ofício prossegui por longa estrada:
aprendi c'os bicho falá
vi coisas que ninguém viu
percebi té livro cantá
escuitei o lastimar dos rios
E flores, versos declamá!
Trago os zóios rasos d'água,
as mãos cheia de calombos
Minh'alma é anssim,
meio menina,
corre descarça
entre sonhos...
Anssim fui ficando poeta
sem jeito de se desvirá
Mordida de encantamento
com tudo em vorta a me afetá
Isso é coisa mandada
Nasce cá gente sem dó cresce no peito e arregaça
Vem mesmo pra dilacerá
Sei que julgam maluca
Inconsequente tarvez
Mas guardo comigo
que loucura de poeta é santa
(pro Mundo do jeito que tá?
acho que doido são cêis)

Velho Chico

Espelhos d'água
derramam-se em
meu reflexo.
Reflito sobre o
encanto ausente
A aflição presente
anexada aos meus arquivos.
Carrego o fardo dos meus
pequenos processos...

Van Goh

Perdi as minhas orelhas
num vaso de girassóis
que deixaram sobre a mesa
onde eu comia feijões.
Procurei com meus sete dedos
durante minhas trinta mãos
e surpreender-me o medo
vinte vezes em cada grão.
A tal da pedra no meio no caminho
sempre me faz tropeça.
"maldita pedra"...
Eu reprimo
(e volto a me
machucar...)

Tristeza

Há um espécie de tristeza
que me habita
Tristeza sem dono, ou nome
Tristeza sem hora,ou lugar
Ainda não estudada,
não tem como ser medicada

Será doença de poeta?

Penso, quando assim estou,
que é a Morte
que me visita, vem me beijar...
Quase vejo-a, invisível que é,
diante da xícara
fumegante com meu café.
Como anseio pegá-la
em meus braços, beijá-la...

Será a pestilência da poesia
que me contamina?

Há uma espécie de tristeza
que me habita
E mora em mim há tanto tempo
que me apeguei profundamente
a ela.
Tornou-se praticamente
uma característica minha:
" Lá vai Maria
e seus olhos tristes"...
Dizem quando passo
Afundo os olhos num livro
e vou com mais pressa

Tentando não deixar espaço,
tentando não virar conversa...

Quero estar comigo e com
minha tristeza

Só ela sabe de nós
Só ela sabe porque vive aqui dentro
desde que eu era pequenina
desde que eu me escondia na goiabeira
Só nos duas, de mãos dadas, comendo pipoca
assistíamos meus pesadelos.
Eu a calçava junto
com meus sapatos, toda manhã.
A comia nos lanches da escola.
Ela desenhava comigo a giz
no muro do meu quintal.

Quando as luzes se apagavam,
quando todos iam dormir,
fugíamos juntas para o
lugar mais alto e por horas
procurávamos sentido
nas estrelas...Entrelaçadas.
Eu e minha Tristeza sem nome.

Cresci, mas não muito.
Ela cresceu comigo.
A Tristeza sem rosto e sem nome,
que não é
nem feia,
nem fria,
nem amarga.

De alguma forma,
mesmo sem forma,
a vejo.
E a Tristeza que trago,
sem nome e sem rosto,
é quente- como o mormaço de uma tarde de tédio,
é bela- como uma cicatriz recém aberta,
e doce- como um favo de mel ainda não chupado.

Um quente que amolece o corpo
Um belo que arrepia a alma
Um doce que se come com os olhos

Meu maior medo,
quando a encaro
é que seja uma falha genética,
que seja no meu dna.
Que se espalhe através dele
como uma peste!
Que perturbe meus filhos,
como me perturba.

Talvez por isso
eu não a deixe ir
Talvez por isso
eu a segure aqui
Não quero que
persiga ninguém.

Há uma espécie de tristeza
que me habita
E mora em mim há tanto tempo
que me apeguei profundamente
a ela.
Dizem todos quando passo:
" Lá vai Maria
e seus olhos tristes"...

Traição

Que medo
nunca se
vai?
Que vazio
nunca se
preenche?
Que angústia
sempre
sufoca?
Nada de
lábios
em minha
boca.
Nada de
dedos
em minha
mão.
Nada de
brilho
em meus
olhos...
Doce
ilusão,
você
azedou.
realidade,
você
distorceu.
Você
sempre
você:
vazio,
frio,
distante!
Então me cansei de ser assim
toda você, nada pra mim.
Eu, um vulcão em chamas.
Você, o gelo polar.
Eu lhe querendo na cama.
Você se dando em outro lugar!

quadrinha triste

Meu olhar esta triste.
Meu olhar como o mar.
Meu olhar não existe.
Meu olhar quer chorar....

SÍLABA

CAINDO
Lentamente
VERTIGINOSAMENTE
No nada
Mas eu 
só me
 dou em
Dó Maior
Si
  La
   Bi
    Ca
     Men
      Te

suave

Disperso meus mistérios pelo ar.
Enquanto caminho meus pés plantam flores.
Minha boca tem gosto de morte e meu almoço é o medo.
Por que pernas fracas e mente forte
não conseguem suportar
o peso de uma alma vazia?
E se berro, quem urra é a tempestade.
E se choro,
quem goteja são
                as nuvens 
                       sobre os telhados.

Sou

preciso ser assim
preciso caminhar
delirante
entre a loucura
e a sanidade
tenho que sorrir
durante o sol
e ocultar
esta tristeza
perfurante
na eterna
noite do meu âmago.
sou devassidão
e sanidade
equilibradas
sobre o medo
e, às vezes,
sou bondade,
porém outras
desespero...
preciso ser assim

Sonhos

Não diga que seus sonhos lhe foram roubados,
Diga que eles – simplesmente- adormecem,
E que têm o sono leve de bebês recém-ninados.
Se seus sonhos adormecidos
Resmungarem,
Cante-lhes,
em voz baixa,
canções tranquilas.
E embale-os em seu coração.
Enquanto eles adormecem
Prepare-se para seu despertar:
Construa alicerces,
Abra caminhos,
Aqueça-os,
Alimente-os.
Nunca é hora de desistir de um sonho!
Carregamos,
dentro de nós,
coisas muito intimas,
valiosas e transferíveis:
nossa experiência de vida,
nossa história,
nossa luta.
Somente você sabe
Quantos passos foram necessários
Para chegar
Para parar um minuto
Para estar aqui,
lendo esta mensagem que lhe diz:
- se você chegou até aqui,
Você pode ir além!
Não diga que seus sonhos lhe foram roubados,
Diga que eles – simplesmente- adormecem,
E que têm o sono leve de bebês recém-ninados.
E é, por isso, que você
canta,
constrói,
luta,
espera,
ama,
estuda,
trabalha...
E é, por isso, pelos
sonhos adormecidos
que carrega no peito,
que você acorda todos os dias.
E - mesmo sendo tão difícil ter fé-
você continua, porque traz n’alma
fagulhas acesas por Dona Esperança

(Esta senhora simpática
que não deixa ninguém,
Desistir de seus sonhos!)

Soneto da Pieguice

Grande amor que partiu
Partiu sempre estando ausente
Mesmo quando parecia presente
Presente somente a ilusão existiu
Quem me dera neste luar
Um anjo estivesse me abraçando
Com suas asas quentes enlaçando
E envolvendo com seu cantar
Triste amor que foi embora
A madrugada se faz tão longa
e a solidão congela a hora
infeliz a vida de quem não chora
para quem a madrugada se delonga
pela eternidade do agora

Sem melodia

Tanta coisa acontece
em meu interior
a cidade anoitece
permanece o calor.
Há magia no ar
folhas verdes no chão
recomeço a cantar
outro velho refrão.
Para falar de alegria
de uma doce paixão
que pulou na folia
e virou um só coração.
Se me abraça a agonia
procuro a solidão
e na noite vazia
reescrevo a canção.
Ao mudar a melodia
reconheço no tom
o toque da nostalgia
que vem do coração.
Deixo que chore a alma
ao som do cavaquinho
o meu cantar não é pobre
é o sonhar de um menino.
Traquinagens e birras
gargalhadas e cantigas
essas são minha sinas
por viver amando a toa.
Há quem chore por mim
(este há de morrer de dor
ao perceber que de mim
só se recebe calor).
Se há marcas no corpo
destas antigas paixões
tento fugir do sufoco
trazendo poemas nas mãos.
E quem ouvir meus soluços
e tropeçar no meu nó
há de abrir-me os braços
e enlaçar-me sem dó.

Paz

Hoje amanheci

Sem espaços
Compacta
Não terei que
Passar o dia
Tapando buracos
Preenchendo vazios
Hoje cantarei
A canção da vida
Sem desafinar
Nenhum verso
Hoje
(somente hoje,
eu sei)
A paz me habita.

Outono

Silenciosamente
como caem
as folhas
no outono

Deixo-me prostrar
sob a melancolia
que me envolve

Sibila meu riso
como o vento
nas árvores,
mas não é riso,
não há vento,
só lamentos

Sou uma estação
 perdida
entre frio e quente
entre o ser e o não ser

Não trago flores,
dispo florestas.

O tigre e a rosa

Atentai para o barulho
dos tigres na alma da rosa
Silencie para ouvir o ronronar felino
nos olhos decadentes de flor
Toque com dedos trêmulos
o perfume da fera enjaulada
mesclado ao odor da rosa apodrecida
Inale o medo
Apalpe a dor
E beba num cálice
a amargura de se estar enjaulado
num peito rasgado
por garras inconsistentes e
inconscientes da própria realidade
O que sobrevive?
Tenho seis pares de garras
arranhando a garganta
Sofregamente balbucio:
salvem os tigres da rosa.

o portão

Em minha janela,
canta uma cotovia
fingindo ser ela
quem eu amei um dia
num reflexo fatal
no refluxo final
eu perdida.
Passos na casa vazia,
escuridão...
Eu atenta,
em vigília...
Ouço o vento batendo o portão
E pensamentos agitando-se nos galhos de árvores
que arranham as paredes perdidas entre tempo e espaço
Qual meu tempo?
Qual meu espaço?
A areia da ampulheta corre mais depressa que meus pés
e não consigo estancá-la com meus pequenos dedos
a areia corre, cobrindo meu corpo devasso de inquietação
e num violento sopro da natureza,
o portão se fecha pra nunca mais se abrir.

O homem e a natureza

Aquele casal em flores
Defronte o temporal
Com os lábios pleno em amores
Encaram-se num ritual
As mãos se unem e se estiram
O vento como contorno
Os corpos não se distinguem
Revoltos num maremoto
A mulher sem fragilidade
O homem sem destemor
As entrelaçadas almas:
insensibilidade mortal
A chama os consumiu
O verso ninguém salvou
Do homem a mulher sumiu
E a morte o homem beijou

O FARAÓ E A ESFINGE

meus olhos são faróis
perdidos no cais
de uma ilha.
naufraga é minha alma
perdida na ausência de paz
trago raios e trovões
sou maremoto
trago lavas e vulcões
sou terremoto
nem sempre sorrio assim,
ás vezes engano até a mim...
e atravessando as águas turvas
nas madrugadas insones
desafio-te como a pirâmide:
"decifra-me ou devoro-te"
devoro-te com sede felina,
desafio-te como ulisses a poseidon
a navegar por minhas cidades
mitológicas,
a enfrentar criaturas fantásticas
que habitam minha essência,
desafio-te com minha sexualidade utópica
a um duelo de honra...
reages com coragem
me encaras
ninguém desvendou meus enigmas
todos me descrevem de forma obsoleta
e tu, talvez, me compreenda...
por isso, posso te amar

NÃO

Colocaram o fermento
podre da inveja no
bolo sagrado do amor.
Amargaram o sabor
do recheio com fel.
Ninguém se deliciou.
Ninguém conseguiu gostar.
Ninguém amou...

Microcosmo

Labutas pelas veredas
sem as mãos calejar...
E ouves uma corneta,
é o tempo a lhe chamar.
Não vives, apenas tecla.
O sol, não vês brilhar.
Será tua vida uma tecla
que você tem que apertar?
Os olhos quase sem brilho
estrelas não vão tocar.
A tela é teu destino.
Navegas sem ancorar...
E o mundo vai girando
não espera ninguém acordar.
As horas se extinguindo,
num delete tudo vai findar.
Tuas raízes perpetraram
no submundo da tecnologia
Vendas lhe colocaram,
tiraram-lhe as fantasias
Agora és um robô.
Não precisas mais de ninguém:
Não sofres decepções,
mas carinho virtual faz bem?

meus versos

Andar descalça na areia
sentir a brisa tocar minha face,
assim é a minha prece.

Olhar para o céu da noite,
conversar com as estrelas
é assim que me confesso.

Minha fé acaricia meus cabelos
 enquanto meus pecados são
levados pelo vento...

       (ouço o)
Solene barulho da chuva
em tardes cinzentas
faz música sobre os telhados

      (enquanto a)
taça de vinho já
pela metade,
marca com um beijo

escarlate a toalha
-quase nobre de tão casta-
que cobre a mesa.

       (onde os)
Pensamentos me rondam
como varejeiras
prestes a por ovos
dentro de minha
cabeça aberta.

Meus rastros na areia são breves...
Meus olhos se fecham, inconstantes...
Mas a leveza que não carrego
Faz-me eterna de instantes.

Menina

Passo por passo, passeio.
transeunte o encanto

destilado na aurora...
Menina em mim,
mulher em outro alguém...
São apenas

suspiros murmurantes
que vagueiam
numa imensidão

vadia de sol.
Sou mulher mutante,

gritarei aos Sátiros
que se escondem
pela floresta

de réstias de luz.
E, cavalgando nua

 em um unicórnio prateado
fugirei para o nunca

MELANCOLIA

Sinto meu pulso parar:
calem-me as canções que falam de amor;
calem-se todas as histórias felizes;
apaguem os filmes românticos.
Quero o silêncio de minha solidão martelando sobre mim.
Quero a dor, a angústia...
Quero ouvir o conta gota da tristeza caindo lentamente.
Quero que a explosão deste desespero
retumbe por todo o dia em minha alma vazia.
Eu preciso ser assim...

Maria eu...

Não sou esta senhora
que segura a caneta
que contem a respiração
que olha para todos os lados

Ela, a que você vê,
é minha casca.

Dela, nada tenho
De mim, ela nada possui.
Apenas lhe empresto
duas esmrealdas,
nada mais!

Sou a que os olhos não vêem.
Sou a poesia que ela pari
dolorosamente de seu ventre podre.

Eu não estou aqui quieta:
eu grito,
eu chuto.

Eu estou correndo de baixo da tempestade...

Não tenho medo e habito
esta imensidão paradisíaca
que criei sozinha:
 sem homens, deuses ou demônios

E, por ser meu universo,
nele não há pecados ou
condenações.
Não sou dona, ou serva de nada:
sou pura existência e
êxtase.

Ela sorri. Observa. Silencia.
Eu, vivo! 
O silêncio dela, é meu grito.
A calma dela, é meu êxtase.
A doçura dela, minha fúria.

E você a olha...
E você a toca...
E você a beija...

Mas,
não me vê
      não me possui,
            não me sabes.

Maria

Sou Maria preta.
Sou erva daninha.
Caminho fogosa
subindo a colina.
Vou dar lá no morro,
moro na favela.
Peço por socorro
enquanto queima a vela.
Faço oração
(Todo dia eu oro)
é que na favela
num sufoco eu moro.
Levo na cabeça
a trouxa com roupa
Sou Maria preta
que trabalha fora,
a que ganha pouco-
mal dá pra comer-
mas eu rio a toa,
canto sem sofrer.
É que nesta vida
aprendi viver
com a agonia
de ter e não ter...
Sou Maria mãe:
perdi muitos filhos,
nas guerras de rua,
são alvos de tiros.
Sou mulher Maria
e estou sem marido
foi comprar cachaça
e morreu bandido.
Mai lá no meu barraco
não há tristeza não...
Ao longe se ouve
o meu baruião.
E quando é carnaval
logo me transformo:
Sou Maria doida,
tô na confusão,
e da festa toda
eu sou a rainha,
corre pelas veias
confete e purpurina...
Pela noite adentro
eu viro felina
Sou Maria a Amélia
que cozinha bem.
Sou mulher da rua,
não me prendo a ninguém.
E assim eu vivo,
sem rolar meu pranto,
levando no sorriso
um mar de desencanto.
Tenho muitas cores,
me dão muitos nomes,
sou mulher das flores,
sou mulher sem homem,
Sou grande guerreira,
sou gata mansinha...
Sou Maria preta,
sou erva daninha.

Labirinto

Eu caminho por onde

me guia o coração
Cega a razão, titubeio
entre os conceitos sobrepostos
Tateando paredes e barreiras
que cerceiam meus desejos
mais profundos
Busco a liberdade
em um labirinto
que se impõe indecifrável
Eu também, dentro de mim,
construo muros
Algo que possa proteger a
pequena e frágil chama
que carrego
(tarefa árdua
num mundo
repleto de tempestades)
Meu coração
intenso e fraco 
trêmula
Sangrando por suas
inúmeras feridas
que infrinjo
Não sei ser
sem ser intensa
Não consigo estar
sem ser perdida
Busco, mas
não sei
se me encontro
Procuro, porém
pode ser que enlouqueça
Na hora que passa
tudo passa,
eu findo

Irresponsavelmente

O que sabe quem não abraçou a morte?
Do que entende, quem não carregou a vida no próprio ventre?
Não sei dizer dos outros
Não sei explicar o que sentem
Quando falo
digo de mim, de mim apenas
...De todos meus erros
...De todas as minhas contradições
...Das imensas dúvidas
que trago embutidas
 em cada sorriso
em rios de lágrimas
Não consigo elaborar grandes prólogos sobre os outros:
- Sou eu gritando em meus versos
- Sou eu gargalhando sem rima
- Sou eu, irresponsavelmente eu
errando o número de sílabas poéticas
Entre tantas grades,
dentre tantas jaulas
a que me sujeito
permito-me esta liberdade
Não clamo nada além do direito de escrever,
escrever inutilmente
mesmo sem ser lida
Escrever e ler-me sozinha no escuro do quarto
enquanto mordo os pulsos
com os dentes frouxos de saudades
Clamo esta liberdade
não  compreendida
de buscar-me
em mim.

Intragável

Trago no trago
a intragável mania
tragada por anos a fio
(deste amor)
Vício compulsório
fumante passivo que sou.
Morro sem ar
Agonizo sem respirar
Seu veneno entorpece
só penso em lhe tragar..

INcertezas

Pare de ter certeza.
Por favor, já chega!
Tenha dúvidas,
nunca certezas...

As certezas tornam
estúpidas e
intolerantes
as pessoas

Duvide do amanhã
e, por isso, viva o hoje
de forma plena.

Duvide de ter conquistado
o amor eterno e, por isso,
conquiste a pessoa
que ama todos os dias.

Duvide que as flores têm perfume
e, por isso, cheire-as sempre.

Duvide que ainda tem imaginação
e, por isso, volte a pular amarelinha
nos desenhos abstratos das calçadas.

Duvide que sabe de cor a letra
de suas canções preferidas e,
por isso, cantarole no meio da rua.

Duvide que sua saúde vai bem e,
por isso, cuide de você todos os dias.

Duvide que você está certo e,
por isso, ouça - de verdade-
o desabafo dos outros.

Duvide das palavras e,
por isso, passe a observar ações.

Duvide que seu alimento
 é o que você queria e,
por isso, deguste cada mordida
saboreando esta intriga.

Duvide da hora marcada pelos
ponteiros do relógio e, por isso,
crie seu próprio tempo.

Duvide do que lhe diz seu horóscopo
e crie suas próprias expectativas.

Duvide que o guarda chuva abrirá
e saia correndo na chuva.

Duvide que vai dar tempo de chegar e,
por isso, saia mais cedo e aproveite
o caminho para duvidar de tudo
o que antes você viu com pressa e,
por isso, passe a apreciar
com outro olhar
a paisagem...


Não tenha certeza de nada,
duvide de tudo,
 duvide de tudo
i n c l u s i v e
da poesia...

ESCONDERIJO

Por que não
consigo fugir
deste medo,
desta angústia,
ou se quer do
desespero?
As músicas
que eu amava,
me magoam.
meus versos,
não ecoam.
Ficou o silêncio
de vidro
partido,
ficou navalha.
Ficou solidão
e sangue...

Dulci

Nublado o dia
alma nebulosa
Calada e Solitária
Luto contra pás de moinhos
imaginários
Doentemente quixotesca!
Sonho com o que temo
Anseio pelo que me apavora
Luto contra o que sinto
Fujo, do que me devora por dentro
Alma heroica? Mente insana?
Que diriam os doutores?
Que declamariam os poetas?
Eu me deponho: perdida!
Totalmente perdida, dentro de mim...
Hormônios? Traumas obscuros?
Será culpa da poesia?
Serei doente, louca, apaixonada?
Tudo
ou
nada?
Nada mais, nada menos...

desejo

Quero-te
    pelo pecado que é querer-te
Quero-te
   pelo absurdo que seria ter-te
Quero-te
   pelo encanto que em ti projeto
         sem convicções reais do que és
Minha fantasia é o que faz-te perfeito
sem sê-lo
E, se o tivesse, talvez o encanto
se desfizesse
Quero-te
    por meus delírios com meus instintos

Hoje, quero-te por não ter-te
Quero-te por não querer-te
Quero-te pela incerteza
criativa de um amor ausente

Cegos do Castelo II*

Eles...
rastreiam suas presas
gostam do cheiro de sangue fresco
tateiam em sua escuridão
a procura de armas -
maculam...
espero a espreita
minha morte passiva
sim, sim...me emaranhei nas correntes.
apenas escondida em um canto
" e aquele garoto que ia mudar o mundo"
murmuro em preces
a um Deus perdido, perdido...
E em meio a devassidão insana
dos caçadores ferozes

me calo
me calo
me calo...
silêncio dos ignorantes

(título referência a música da banda Titãs )

Capitalista

disperso-me
no submundo
disposto
entre vermes
me enquadro
em gráficos e
ideogramas...
me faço confesso
de todo pecado
me torno culpado
de todos os crimes
"comemos a maçã"
e por ela mastigamos
e regurgitamos,
uma eterna ânsia
adormecida
dos cacos do
que você chamaria de
consciência
roubo o açúcar
para espumar o café
e bebo
através da fenda
partida na xícara
(é por onde sangro)
pateticamente,
suturo com tinta
as abertas feridas
de meu ventre inchado...
S E N T A D O
sou
a
imagem
do
C A O S

BILHETE

Leia-me
Decifre meus signos
Deguste-me
Dobre-me em quatro
e encha-me de vincos
Cheire-me
enfie-me sem pudores em um bolso qualquer
Esqueça-me então
Para que eu desfaça-me
no chacoalhar das águas
Este é o preço que se paga...
Este é o sacrifício a que me disponho..
...Pelo nosso segredo
...Pelo breve instante
      (de prazer sincero que sentimos
      no momento em que seus olhos de leitor
     desvendaram meus códigos de linguagem)
...Pelo enigmático sorriso em sua face
enquanto me desfaço

Aurora

Triste como o sol no entardecer...
Triste como quem perde a vontade de viver...
Triste minha alma a percorrer pelo meu ser...
Triste é cantar e ainda assim sofrer...
Mas quem sabe o sol num outro dia possa amanhecer?
Mas quem sabe o céu azul lhe faça renascer?
E então, quem sabe minha alma cante uma outra canção?
E, quem sabe então, me sorria o coração?
Agora vem surgindo a noite cheia de luar...
Meus versos vêm a minha mão para poder gritar...
E meus olhos marejados sem poder chorar
Pedem a quem passa para me abraçar...

Atéia

peco contra ti
deus social
através de minha
gargalhada incontida
firo-te com meu
desejo de vida
sangro-te o ego
com minha
paixão imedida
assexuadamente
me apaixono
em um instante
incontavelmente.
bebo vinho
leio poesia
amo boemia…
não calo a boca
e isto te põe louca
sociedade tribal
tua veste sacra
cravada de ouro
não admite
minha nudez espiritual
ou esta liberdade
de chorar e rir
de pular do edifício e
voar dentro de mim
tomas como
ofensa pessoal,
e então acorrenta-me
e fere-me
com suas correntes
tecidas e torcidas
de intrigas
que plantais no coração de
seus fiéis.
bem, eu te maldigo,
deus social,
maldigo tua injustiça
teu pré-conceito,
maldigo a mim e
ao inferno que me condeno
(e mesmo condenada,
não lhe temo)

Aos que partiram para outros mares

Muito cedo aprendi
Que a vida me traria
(como as ondas do mar)
Que a vida levaria
(como as ondas do mar)
  ... olhares
...calores
... odores
... dissabores


Minha alma  salgada
de lágrimas
que não choro:
náufraga de saudades!

Sentada no cais
Abraçada aos joelhos
Artrosos da vida
Aceno invisível
Aos que partem
Partindo-me em mil

 O vento da maresia
O cheiro da água inquieta
O barco sumindo no horizonte
Tudo isso aprendi a aceitar
(não sem revolta,
Não sem tormenta...)

E, quando tudo se transforma,
sozinha no Píer,
invento uma dança
sem música
e bailo inconsequente
sentindo me só
(em meio a imensidão do céu e do oceano).
Só, mas intensamente viva,
e  
    maravilhada
   por
        sentir...

ao Capivari

Inunda-me com tuas impurezas,Rio Profano!
Vejo-te morrer delirante
pelas ações parasitas
desta, tão insana,
espécie

Devastas teu redor
e odoriza o dia com
a podridão humana

Finge-te de morto
enquanto a natureza
vampiriza este sangue lodacento
tentado a vida

Óh, águas do Capivari:
Declino-me sobre ti como que em prece
E em teu reflexo, quase negro,
Enxergo apenas, meu tormento.

Não faço nada por ti,
testemunha de minha história.
Não choro por ti e sequer
sinto misericórdia
pela morte de tua glória.

E, enquanto eu não lamento
ouço os gemidos sedentos
de um futuro
não tão distante...

ansia do ser

Não gosto mais de tantas coisas
perdi a sensibilidade
não sinto perfume de flores
não sinto gosto na comida
nem mais medo do escuro
agora o escuro é só ausência de luz
me acostumei a isto...
Mas ainda gosto de olhar meus filhos
através da janela embaçada
que há meses não limpo.
Mas eu gosto de ouvir a gargalhada deles
pulando sobre o sofá velho que não posso trocar.
Mas eu ainda gosto de brigar com eles pra entrarem no banho,
mesmo sabendo que vou ter que brigar para saírem de lá.
Gosto quando eles dormem e eu vou segurar a mãozinha adormecida
para tentar saber se ainda posso sentir algo neste coração embrutecido.
Não sei se tenho cura
mas se houver alguma cura
é só por eles que eu vou buscar...

Amargor

Meus olhos estão marejados
enquanto sangra-me o coração
Cansada que estou
de sua ironia
envenenar meu café
toda manhã
   ...Agonizo
        ...Sua acidez me fermenta a alma
Era apenas uma tarde quente
eram apenas palavras cheias de mormaço
e, por tédio, ouvimos juntos
algumas canções
Arriscamo-nos brincando de ser nós mesmos
- Olhando de longe o mundo se destruir-
Ninguém nos precaveu sobre este perigo
Nos perdemos, eu sei
Desviamo-nos do caminho
...E os farelos de pão foram devorados
por aves de rapina
Eis-nos solitários na floresta escura.
Mesmo quando já estávamos velhos demais
   para acreditar
      em noites escuras,
        em contos de fadas,
         em amores possíveis...
Mergulhamos fundo
num mar de incertezas
E das pedras- ocultas pelas águas-
nenhuma de nossas certezas
pode nos proteger
Agora as palavras se acabaram
ficaram pequenas, inúteis
O silêncio que segura forte em nossa garganta,
nos sufoca e o encaramos,
olhamos dentro dos seus olhos
E só o que vemos
é  morte...

Agonia

Preciso estar morta
     Antes que nasça o sol
            enquanto ainda é madrugada
              e algumas vezes
                      depois de cada dia
Doentiamente preciso
   que minha alma
                 se canse
                      se parta
                           Em milhões de
MiCrosCóPiCas partes
  Sem consciência
 Preciso não rimar O amor
Nem cantar Lamentos
Preciso viver de olhos fechados
Para não ver  pessoas
Jogando seus dados viciados
Preciso parar de equilibrar
Na ponta de dedos
Doloridos
Essa vida frágil e decadente
Talvez, se pudesse
Não lamber feridas
Pra lua ,não uivar
Pro sol, não gemer
E nos bolsos,
Poemas, não trazer
Mas trago esta mania doente
 De nutrir furacões na alma
Por medo
E pela poesia infame
 que me assola
Por amores,
 rancores,
pavores
do agora
 Pela agonia,
nostalgia,
 melancolia
de outrora
   Pelo vazio de tudo
     Pela essência do nada
            É que preciso morrer
   Antes que termine
A madrugada

tesão

Você me observa, mas não vê
a ave de plumagem escura
pousada sobre meu ombro esquerdo
bicando meus olhos
Você que julga e não sabe
dos tigres   trancados
por trás deste sorriso bobo
imensos, ferozes,
devorando minhas entranhas
Você me toca, mas
não sente a febre e
a doença que se espalha
em meu organismo
Em seu trono
Sob seu pedestal
julga-me severamente
desdenha-me,
classifica-me,
rotula-me
Rouba meus beijos
e fica excitado
sem perceber a podridão
da morte exalando
em meu hálito adocicado

Eu, deixo-me  ser
sua, dele, de quem quiser
Apenas não há mais
máscaras para o baile
calçados para os pés
anjos sobre nossas cabeças.
Vou deixar-me levar
como pluma em pleno vendaval
Cansei de resistir
de me fragmentar.
Quero delirar sozinha
e passar o dia metida
 em minha imundice.
Quero que meu fogo, me consuma

Enquanto você me olha,
mas não me vê...
Eu me masturbo
entro em êxtase
gemo, gozo.

Odeio

Odeio manhãs ensolaradas e o sorriso dos transeuntes que creem veementes que todos têm tamanha disposição àquele horário.
Parece-me que sou a única que trafega indisposta, mal trajada, e suando horrores sem vontade alguma de celebrar o alvorecer.
Prefiro as madrugadas escuras e silenciosas onde me caibo inteira na concha de caracol; onde me alojo fumando cigarros imaginários que enchem de fumaça cancerígena a minha sanidade.
A percepção aguçada me impede a alienação visto que sinto ininterruptamente o cheiro de minha carne em decomposição.
O cheiro da morte me envolve feito uma áurea e não há Chanel que disfarce certos odores pútridos.
Nunca sou o que já fui, abandonada ao eterno e intenso fluir.
Se me distrair com futilidades que auxiliará o incansável parto do devir?
Concentro-me introspectiva  e acolho cada recém-nascido tormento tal qual parteira amorosa.
De repente, refletir sobre barcos e aviões de papel assumiu significâncias mais complexas em meu existir. (Vivo caçando desperdícios   deste que me apaixonei por Manoel de Barros)
Quanto mais me construo, mais desconstruída estou.
A poesia profana que me habita faz-me altar onde a arte prostra-se devota. Eu, sacerdotisa de meu templo interior, cultuo deuses e deusas dançando nua em torno da fogueira que me arde, que me incendeia sem me consumir.
Meu corpo é uma pequena e frágil embarcação, minha alma um vasto oceano. Tempestades moram em oceanos, sem os destruir. Tempestades fazem pequenas partes do  oceano se agitarem e engolirem navios inteiros, cheios de pessoas minúsculas que sorriem estúpidas em manhãs ensolaradas.
Nada detém o oceano que sou e que transborda intensidades.

mini

Me perdi  tantas vezes
sem nunca
 ter me encontrado
sou meu labirinto
crio e alimento
meu próprio
Minotauro

Menininho...

Ilustração homenageia Aylan Kurdi, menino sírio que morreu em praia na Turquia (Foto: Reprodução/Facebook)
Chorei a noite inteira a lembrança da morte do menino Sírio.
Não me condenem ou julguem dizendo “ muitas crianças morreram sem ter sua consternação”, isso seria mentira por demais cruel.
Não há dia em que não me entristeça ao pensar em nossa “humanidade”.
A foto do garotinho  deitado a beira   do mar, como se estivesse correndo na praia, brincando com as ondas e caísse  na sono de repente fere fundo, fere porque risca nosso orgulho.           
Fomos a lua, mas ainda nossas crianças caem sem vida a nossa volta, como pequenos pássaros feridos por torpes motivos (vaidades, ganancias...)
Não, falsos profetas, não é o fim do Mundo. Desde o começo dos tempos crianças são nossas maiores vítimas. E isso mostra que além de maus, somos covardes. Abatemos os menores, os mais frágeis, os que não podem se defender. 
Exemplo disso é alimentarmos uma sociedade canibal e doente  com a desigualdade social a níveis gritantes e sermos favoráveis a medidas medíocres como a redução da maioridade penal.
“Sim, mas eles não são crianças. São monstros!”             
Ah, é? Eles vieram do Espaço Sideral? Foram criados lá?
Quem criou estes “monstros”, sociedade?
Fomos nós. Somos todos culpados!
...
Tive pesadelos com o menininho...
Eu o via meu filho e enormes demônios tentavam rouba-lo dos meus braços. Eu fugia, orava, o cobria... Mas eles eram ferozes, cruéis, sanguinários!
Acordei perdida, olhei meus filhos.... Meu caçula deve ter a mesma idade do garotinho na foto. Ele dormia numa cama simples, mas macia e cheia de coberta, com a barriguinha cheia e um teto sobre sua cabeça. Estava deitado quase na mesma posição que o corpo na praia.
Sei que algumas pessoas (cruéis) dirão: “você deveria agradecer a algum deus porque seu filho está bem. Olha como deus te ama”.
“Nossos deuses” (o de cada religião) devem estar extremamente decepcionados com Homens que usam este tipo de argumento para não terem que “arregaçar as mangas” e tomar medidas realmente efetivas contra este tipo de violência.
Cada criança que morre por conta de doença, fome ou guerra deveria – no mínimo- ser motivo de luto e vergonha para toda humanidade, pois estas mortes simbolizam o nosso total fracasso como sociedade.
  E eu ficava pensando... “Como será o nome daquele menininho?”
Hoje vi muitas crianças correndo, comendo, sorrindo. E não é porque elas têm “mais do que as outras” que eu me incomodo. Eu me incomodo por achar que todas as crianças deveriam ter o direito de viver uma infância plena, saudável e feliz.
O menininho sírio era um pardalzinho frágil e sem nome, mas a imensidão dos céus era dele. Fomos nós que lhe arrancamos as asinhas. Então ele caiu. Entre a terra e o
 mar, adormeceu.
“Agora eu sei
que os demônios
dos meus pesadelos
eram os Homens...
Dorme, menininho...
Dorme em paz!”

crédito da imagem: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/09/ilustracoes-homenageiam-menino-sirio-morto-em-praia-em-redes-sociais.html

Ilha

Vivo numa ilha cercada de cana por todos os lados... Filha ilegítima de senhores de engenho falidos.
Somos governados, informalmente, por meia dúzia de famílias abastadas; algumas dezenas de “falsos” ricos que chafurdam em qualquer lama para ostentar algum privilégio junto à classe social “superior” e pelo Clero.
Quase medievais!
Artes e Artistas – vivos ou mortos - são tratados como pessoas à margem do que seria bom, aceitável socialmente...
Microfones e mídias não estão à disposição de todos e são utilizados em toda sua força persuasiva para construir e destruir imagens, principalmente políticas.
- Por que você não pega um barco de papel e foge daí?
Não fujo porque vivo numa ilha cercada de cana por todos os lados...
Mas nela há uma praça sofrida e bela onde me aconchego nos dias tristes para ler, escrever e chorar.
Não há outro lugar em todo planeta onde me sentiria bem, como me sinto lá.
Eu fico porque na ilha há uma igreja, que independente de quem a frequente, é uma obra de arte viva que pulsa sem parar no coração da cidade.
Permaneço porque caminho por estas calçadas desde meus primeiros passos. Conheço todos os buracos onde já tropecei. Desconfio de alguns, onde irei tropeçar...
Continuo por que aqui há um rio sujo e fedorento que eu amo, como se ele ainda estivesse vivo. Um rio onde gostaria que jogassem minhas cinzas se eu fosse queimada...
Fico porque aqui existem pessoas com as quais nunca convivi, mas que conheço há anos.
Fico porque há pessoas aqui que guardam pedaços da minha história, misturados a pedaços de suas histórias.
Fico porque nesta terra, abaixo dos meus pés, estão enterradas pessoas que amei e hoje são sementes. Quero estar aqui para vê-las brotar-se em flor!
Fico porque as mãos que cortam meus cabelos brancos são as mesmas que cortaram meus cabelos de menina. E são as mesmas mãos que oferecem pirulito ao meu filho, quando o levo para aparar os cachinhos...
Há algo no ar desta cidade junto com a fumaça dos carros que insistem em andar em fila única, como uma boiada e nunca dão seta, que me embriaga.
Há uma nostalgia espalhada na atmosfera que se impregnou a minha alma triste envolvendo-a de tal forma que não há como separá-las sem destruir-me.
Há nos sotaques carregados de “r” e “s” uma melodia familiar e acalentadora que me enche de orgulho.
Há na velha estação de trem, bem como nos casarões antigos, abandonados e ignorados pelo poder público que deveria preservá-los como patrimônios, fantasmas que me sussurram poesias.
Suas correntes também prendem meus pés.
Por estas e outras razões, as quais não me lembro agora, vou me deixando ficar, embora tantos ventos e tempestades tenham soprado forte tentando levar-me para outros cantos; embora tanta gente estivesse mais feliz e menos preocupada se eu me fosse...
Deixe-me ficar como um incômodo necessário!
Vou deixar-me ficar até prostrar-me exaurida sobre o solo ácido e improdutivo que a monocultura açucareira deixou de herança para as gerações vindouras.
Sem crematório, serei velada no prédio que serve de velório para os pobres da cidade. Porque aqui, na ilha, até na hora da morte faz-se diferença entres as classe sociais...
Talvez cães e gatos, habitantes do velho cemitério, sejam os únicos a acompanhar meu cortejo final rumo ao esquecimento merecido.
Assim como vivi, morrerei em uma ilha cercada de cana por todos os lados.

Eu's

Tenho algumas lágrimas presas em meus olhos. Elas não querem ser choradas. Não querem derramar-se e escorrerem sozinhas sobre minha pele fria.
Assim, elas se empoçam sob minha pálpebra inferior dando a impressão de que meus olhos são um pequeno lago de águas esverdeadas e serenas.
Mas não sou um lago.
Sou um oceano profundo, repleto de vidas complexas coexistindo. Por vezes, não em harmonia.
Há um barulho constante em meus ouvidos. Disseram-me que ouço meu sangue correndo. Mas eu juro que parece um moinho (destes de rio) trabalhando incansavelmente dentro de mim.
Tenho paladar e olfato malditos que dão cheiro e sabor a emoções e momentos. Sei que parece um dom. Não é. Você se imagina sentindo o cheiro do medo? O gosto da dor? O amargo da saudade?
Só posso ser maldita.
Sobre minha epiderme uma tênue cobertura de luz pálida me protege.
Sim, sou instrospecta em meus textos e isso parece egoísmo (talvez seja), mas sempre vejo as pessoas tendo tantas certezas absolutas sobre todas as coisas quando eu ainda nem sei de mim, sinto ser importante falar da busca que travo aqui dentro. São estudos de minha geografia, descobertas sobre minha arqueologia, invencionices de uma possível biologia... Sou interrogações e reticências... Sou poesia e filosofia...
Sou o que minha arte fez de mim. Não abracei nenhuma escola enquanto deflorei algumas musas. Vou com o meu pequeno martelo destruindo muralhas de dogmas infligidos.
Tenho lágrimas que não querem ser choradas, me transbordo oceânica contra pás de moinhos rangendo incessantemente. E é todo este movimento interno que me move, que me leva além, que me transcende.

Vazios

Noite vazias.Ideais medíocres:
nós as marionetes ocas, carcomidas de cupins.
Que inutilidade é nosso ser!
As cordinhas que nos movem recebem, hipocritamente, o nome de liberdade.
Ninguém é livre!
Somos pássaros estúpidos que mal sabem cantar.
Somos a indecência do que se chama humanidade.
Deveríamos assinar hipocrisia quando escrevêssemos nossos nomes.
Marionetes da sociedade, marionetes do capitalismo...
Grandes mentirosos: somos excremento infértil.
Que segurança temos?
Nossa existência é fina como cristal e cuspimos superioridade pelos cantos espumosos da boca.
Somos nada neste Mundo! Um nada tão vazio que assusta, então preenchemos o nada de futilidades para mostramos “ser alguém”:
grande político,
grande escritor,
grande empresário,
grande modelo,
grande merda!
Somos alimentos de vermes.

Somos carne podre e mal cheirosa, não importa o guão caro seja o nosso perfume.
Vivemos rindo, na certeza da morte, profetizado a existência de um Paraíso Perdido...
Não tenho mais tempo, também não tenho mais medo.
Só carrego cansaço.
Um cansaço pesado ao tentar compreender o nada, a abstração, a complexidade e, principalmente, o vazio.
Seria estranho morrer, porque acho que não sentiria dor. Creio que seria algo tão simples como abrir um presente de natal. Não sei direito porque tudo parece tão complicado, pois seria tão prazeroso dizer adeus e dormir...

reciclemo-nos

  O Mundo está barulhento, repleto de gritos ensandecidos, sons aterrorizantes e risos histéricos.
    Há no ar um fedor constante e geral. 
    Na paisagem urbana parece naturalizada a estética do lixo em contraste à moradias ostracísticas.
    Rios que cortam as cidades se tornaram grandes esgoto a céu aberto, não inspirando mais qualquer poesia.
    A rapidez das descobertas torna tudo provisório, urgente...
    Afastados de nossa essência não buscamos o que é permanente. Tudo é é supérfluo. Somos descartáveis.
    Cada vez mais nos afastamos de nossa identidade, enquanto seres. 
    Falta-nos foco, emotividade e motivação.

Carta a Edgar

Querido Edgar, meu caríssimo amor.

                Quem lhe escreve é sua amada. Esta, a primeira e última carta que consigo enviar desde que meus pais me trancafiaram neste mosteiro na tentativa torpe de me fazer esquecê-lo. Eles preferem-me morta que ver-me entregue a luxurias dos poetas...
                Não sei o que está acontecendo comigo, preciso lhe contar de meus tormentos, já que ninguém aqui me dá ouvidos. Desde que adentrei os muros deste cárcere em cada amanhecer sou, invariavelmente, desperta de meus pesadelos por uma melodia harmoniosa, embora triste. Insistente parece provocar-me de forma intencional, pois anuncia-se até que eu saia da cama a espie pelas grades frias da minha cela. Só depois de me ver ali, a criatura alada pousada nos galhos da macieira que roça a parede de meus aposentos, bate suas asas e desaparece. Não volta, a não ser na manhã seguinte.
                Por vezes, seu grasnar me distrai, chego a apreciá-lo, mas confesso, que é mais constante que ele me irrite em demasia. Razão pela qual perco horas de meus dias planejando como expulsar o pássaro.
                Pensei em tirar-lhe o poleiro, todavia ando debilitada, sem as forças ou as habilidades necessárias para executar tal tarefa. Não ousaria pedir que alguém o fizesse, pois algumas tarefas são por demais difíceis de serem explicadas. Como solicitar que se corte pela raiz uma vida pulsante, por conta de um passarinho, sem parecer extremamente louca ou cruel?
                Observo sua sombra irrequieta saltitar de galho em galho assim que os primeiros raios de luz adentram as frestas que, por mais que tente, não consigo lacrar em definitivo. Tento ignorar. Então ele canta e seu canto é forte, tanto que tenho a impressão que seu peito explodirá e suas penas lúgubres de uma leveza estupenda cairão eternamente sob minha consciência perdida.
                Tentei pegar a ave. Presumi até exterminar-lhe... Mas como teria a astúcia sobre-humana de atingir tal meta? Há algo de sobrenatural naquele ser infernal.
                Exasperada com tudo isso tento sobreviver a mais um dia aqui, apenas por você... Tem sido imensamente difícil, tento sorrir, articular frases, participar das atividades, mas uma obsessão cresce monstruosamente dentro do meu peito. A dor não me assusta, mas a paz que vive na escuridão me seduz, dia a pós dia. Traço em minha própria carne, meus planos. São mapas elaborados em meio a devaneios insanos. Apenas isso, nada mais...
                As horas se arrastam e anoitecem. São noites tempestuosas que fingem estrelas e luares. Meu coração úmido e transtornado refugia-se no imenso nada que me abriga. Tal cão abandonado, farejo restos vadios nos ponteiros do tempo. Estou faminta. A podridão me sacia momentaneamente porque tem gosto de morte.
                Adormeço entorpecida pela lembrança de seus beijos e abraçada a escuridão que finalmente silencia meus tormentos. O estado fúnebre do sono me acalma, mas as preces mudas não são ouvidas por nenhum deus e a lágrimas sem serem recolhidas em cálice algum evaporam em minhas febres antes de chegarem ao travesseiro.
                Então a musica de mais um dia exigindo-me desperta. De fragilidade encanto apavorante a sonoridade sobrevoa as fendas de minhas desestruturas, me desconstrói. Irrita-me a urgência de ser, de significar, dentro de minha insignificância.
                A desgraçada ave grita minha guerra. E, enquanto entre cacos, onde sangram meus pés busco resgatar os frágeis estilhaços de minha paz, ouço entoar seu tenebroso gemido: nevermore.
                Estou em profundo desespero. Louca? Delirante? Já não suporto a triste sombra que me atormenta desde que nos separamos por isso, esta carta é de despedida. Já consegui o veneno que me tirará a vida, e já o bebi. Sinto-o correr quente por minhas veias em lugar do sangue, brevemente chegará e este coração que um dia foi teu. A carta lhe será entregue a tempo de meus últimos suspiros, que a leve o mensageiro de minha morte a sentinela de minha dor camuflada de ave agourenta.
Adeus, até nunca mais...

Lenore