quarta-feira, 16 de março de 2016

Peregrina



Quero tirar férias de mim mesma.
Guardar  em uma mala bem fechada, bem dobradas, todas as coisas as coisas que aprendi. Empacotar cuidadosamente cada sabor som e aromas que mais gosto.
Gostaria de sair por aí sem pesos, pés descalços, cabelos ao vento e, nessa viagem interior me redescobrir, me repintar de novas cores sob novos tons, me recobrir de odores inebriantes, me saciar de novos gostos, dançar canções que ainda não ouvi.
Pois, creio, que há mais coisas para se ver quando se vai além. Pois há diversos perfumes escondidos debaixo de novas possibilidades. Pois há música na ousadia de mudar.
Quero entrar como uma moleca entraria (irresponsavelmente sozinha) num barco. Soltar despreocupadamente as velas e erguer as ancoras. Deixar-me levar pelo reboliço das ondas. Avistar a infinitude do azul e a plenitude das tempestades.
Quero deixar o leme solto, a nau a deriva!
Um dia, se fosse da vontade de Posseidon em comum acordo com Iemanjá, poderia voltar para as coisas que guardei.
(Como seria então o encontro entre o que eu sou com o que me tornei? Deste encontro sairia um outro eu?)
Sim, possuo passaporte para estas e outras viagens. E me permito ser peregrina desta sagrada aventura. Não posso permitir jamais que o peso do medo me torne incapaz de seguir, de vislumbrar novos cenários, novos aprendizados.
Eu me ausento de mim por meses em minhas viagens. Ninguém percebe a ausência. Estou sem ser, sendo a brisa que me leva levemente para longe; desbravando lugares que ninguém, além de mim, pode ver ou se quer imaginar.
Nestas aventuras meus pés podem sangras espinhos, todavia meus olhos florescem.