quinta-feira, 24 de março de 2016

à corda (para Rezsõ Seress)



Nua de encantos
cobrir-me-ei com o negro manto da noite
Adornarei de estrelas mortas meus cabelos
e a beira do abismo,
que cavei com minhas unhas,
bailarei a insanidade

O vazio das profundezas
sabe meu nome e o
sussurra no vento gelado
desta madrugada sombria

Ao som de Gloomy Sunday
deixo esvair, feito fumaça,
as lembranças  que me prendiam aqui
Murcha aos poucos nos meus lábios
o sorriso abobalhado
que cultivei por toda vida.


Eu, que tanto esperei por este encontro,
por este baile , por esta última dança
Trago a pele gelada, colorida pela cianose
e os olhos tristes dos peixes  de balcões frigoríficos

O  medo, que sempre foi minha companhia
foi-se embora de repente sem dar-me adeus
Estou só, ao som desta bela melodia,
e deixo-me levar pela tristeza
tão familiar que ela grita.

E, no auge da noite, recebo submissa
o beijo que esperei por tanto tempo
dos lábios de minha amante
Seu beijo, dona da vida, 
é leve, frio, calmo e sufocante.

Deixo despencar-me no abismo
com os olhos fechado,
completamente entregue
ao meu destino.

Agora, pertenço a escuridão.