sexta-feira, 15 de abril de 2016

Poesia



Quero ser poesia, mais do que ser poeta.
Quero me intoxicar com a dor de sentir e me flagelar suplícios de amores impossíveis
Quero furar minhas veias com uma seringa infectada por micróbios e bactérias
Quero sentir a doença derrubar minha imunidade e estar totalmente vulnerável
Eu olho para eles, para os ratos de beco, os poetas.
Eu os compreendo, e os amo com um amor incestuoso que me esfacela.
Beberia com Charles em bares sujo, meteria sem pudores em lençóis mal lavados, mais tarde leria sobre mim em seus poemas como sendo mais uma puta de boteco e o amaria por me desprezar assim.
Sim, a arte permite: o porre, o gozo e o nojo.
Difícil, nos nossos tempos,  é suportar a hipocrisia destes artistas limpinhos, cozidos em banha maria.
Vomitam prosas vorazes, mas parecem poodlezinhos de madame lambendo cervejas caras em copos descartáveis, cantando putarias e vivendo como monges puritanos atrás de seus teclados. Essas gentes que suja o pé para parecer descolada, mas suas obras são tão higienizadas que, quando as leio, tenho a impressão de estar em um hospital fazendo uma microcirurgia no cérebro, são um porre.
Não compreendem a profundidade  de se jogar no fundo de um poço e de sair de lá pelos canos de esgoto; de se refestelar no que é podre, fétido e humano.
Trago os joelhos ralados,  roxos pelo corpo e feridas na alma. São dores que eu mesma me causei.
Não quero ser aquela que mede as rimas, que conta as estrofes, que escolhe as palavras.
Quero ser intensa, vibrante, profana e suja. A imundice  me dá significância.
Não, não quero ser poeta. Quero ser poesia.