sábado, 16 de julho de 2016

Anjos

Eles apareceram
Eram altos
Eram muitos
Com olhos doces
Com voz suave
Cantaram em coro
Canções estranhas
Sobre gurras e glórias
E eu chorei
Me cercaram
Me despiram
Me tocaram

Nada mudou
As coisas continuaram iguais
E eu continuei com medo;
Continuei com dor
Mas quem olha nos meus olhos
Um brilho diferente vai notar
São olhos de alguém que já viu
Um coro de anjos cantar

Cadela

Os cães ladram
Roem seus ossos e
Abanam suas caudas
São cães de raça os
Políticos da praça
Que riem com graça
Enquanto o povo se esmaga
Farejando lixo na lata

Que vida ingrata
A de me coçar com a pata
De me esconder na mata
Enquanto a carrocinha passa

Cães políciais são chacina
Para vira latas de esquina
Cães ladram sem parar
Em minhas orelhas
São grandes e famintos
Roem ossos podres e fedorentos
E sou uma cadela no cio
A mercê destes ordinários

Sonhos

Quando um lampejo de ilusão se torna realidade
Não há no mundo palavras que descrevam tal felicidade
Chamam de louco o sonhador
E ele sorri e luta por seu ideal
Carrega no bolso esquerdo sua pedra filosofal
E quando a toca seus olhos se tornam faróis cheios de luz
Pessoas se assustam tentando entender como pode- se assim viver
Mas para ele a realidade é outra e continua a tentar mesmo quando parece não haver sentido
Ele sabe que o mundo não  anda bem
Já viu coisas ruins acontecerem a pessoas boas
Já viu pessoas cruéis se dando bem
Mas a sabedoria lhe diz que cada um pode fazer a diferença
E então esquece o mundo e começa por si mesmo
Pois é um sonhador e se alimenta de sonhos para poder continuar.

Serpentes

Meus pés caminha sobre víboras
Por meus dedos jorrar como um rio
Os seus venenos
Tentam me picar
Me desencorajam em cada passo
O fedor me enoja
Peçonhas prontas
Desonras são desculpas
 Meu corpo tenta se defender
Meu espírito procura se esconder
Irônias nas palavras
Atitudes mesquinhas

Preciso de calor
De um abraço amigo
Urgentemente de amor
Não penso em fugir
Mas me confesso apavorada

Filhos

ADORO
quando me olha, faz cara de dengo e sorri
Fazendo covinhas cheias de flores
E, então olho para seus olhos reluzentes
E acompanho seu riso.

ADORO
quando "faz beicinho" e transforma seu rosto em uma careta, ou quando se joga para trás fazendo birra até perder o ar.

ADORO
quando acabo seu banho e você quer ficar
brincando na água, ou quando troco sua fralda e você tesolve fazer cocô.

Adoro até quando estou perfumada e você 
regurgita em mim.

Mas adoro mesmo é vê-lo revirar-se na cama tateando com a mão a procura do peito, com os olhos ainda fechados segurá-lo pelos dois lados e sugá-lo desesperado.
Aí você vai se acalmando aos poucos e puxa, com suave carinho a blusa sobre seu rosto.
Enquanto mama fico na mais absoluta comtemplação:
tão parte de mim,  tão monha melhor parte
A cabecinha suada p
elo esforço da mamada
Seu calor
E essa respiração....
Nada no mundo é mais belo do que este momento.
Perdoa, desde já, se eu erar. Mas creia:
Te amo infinitamente
Indiscutivelmente
Inexplicavelmente
Amor simples
Amor de mãe


Grande Sertão

Pelas instigantes veredas
Em que me enredo
Trago o simples fascínio
De um bicho do mato
Lágrimas que vertem prum
Rio de terra rachada e
Fazem dos olhos duas
Velhas feridas calejadas
Mas tenho na alma 
um menino fazendo poesia
E trago nas palmas da mão
 os segredos da vida
Sou o cortante fio do facão
E amo intenso como o cio de um cão
Nas horas longínguas 
Em que me aquieto no nada
(Como peçonha da cobra
Já pronta pro bote)
Ouço, no silêncio torturante
Que estrangula minha sorte
Os gemidos ardentes de um Ser mais forte
Que abre o sertão com o toque dos dedos
Esmagando deuses, diabos e medo
Vou e voltejo no rio
Desespero
E no vai e vem deste tempo, enlouqueço!
E rezo em segredo pra um deus quelemem
Colhendo com as mãos a Rosa de todo degredo
E deito no barco, onde a morte eu beijo.

Nova geração

Todas as mentiras são ouvidas
Os burros do presépio dizem amém
e aplaudem seus carrascos sentados
em coloridos estofados
Nas mãos carregam um controle
Na realidade são controlados por ele
Ele diz: ria
Ele manda: chore
Todo obedecemos
Sacudimos nossas caudas
tentando espantar as moscas
da vontade própria e nos cegamos.
Eis a nova geração
Eis a geração televisão
... onde as pessoas se sintonizam em canais cada vez mais distantes
...onde as mentes param de ir adiante e giram como satélites
Eis, o paraiso dos ignorantes
Um brinde a todos nós!