segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Manifesto da flor



Brotei de um ventre maria
Para ser maria também
Nasci com seiva guerreira
Com olhos de ver além

Caule nu de estereótipos
Jogaram-me entre  chacais
farejaram carniceiros
Cobriram-me com seus jornais

Tentaram podar meus galhos
Moldar-me em seus jardins
Enterrar-me em seus vasos
Calar-me com seus ardis

Dissimulada espécie
Que teima em não se entregar
Rasguei o asfalto quente
E na rua eu fui brotar

Tal qual Maria sem vergonha
Espalhei minhas sementes
E uma nova Primavera
Aflorou por entre as gentes

A cada onze minutos
Fazem meu sangue ferver
E broto Capitulina
Para ninguém entender

A cada onze minutos
Fazem meu sangue jorrar
Mas floreio Diadorina
Para o sertão desbravar

A cada onze minutos
Arrastam-me num camburão
Esfacelam uma Cláudia 
No cru concreto do chão
Mas ouvindo o gemido de dor
Bonita arranca o  facão
Dandara semeia Palmares
Da Penha floresce  canção
Carolina poematiza a favelada
Dá cor a fome amarelada 
E,  milhares de Marias,
Jazem na rua jardins
Com suas mãos espalmadas
Flor-mão/ Flor-alma
De sangue manchadas

Todas, flores, de pétalas calejadas
Todas, flores, com hastes espinhadas
Todas, flores, sementeiras
A cada onze minutos
Cobrirão a terra inteira.

Que nada defina a fêmea
Que nunca sujeitem a flor
Estão a romper muralhas
Sobre elas Drummond chorou.