sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Cruxifica-o



Descobri que os poetas podem falar de amor,
Desde que de amor romântico
Não é permitido ao poeta
Ter desejos que não os platônicos. 
Ai, do poeta que sentir ereção. Ai de ti poeta, haverá de arderes no tribunal da pureza.
Ao poeta é dado o dom da linguagem, 
Desde que ele fale sobre a castidade e o perfume das flores.
Mas, aí de ti poeta, se usastes do verbo bem sovado numa metafórica fodida.
Tal dialética  causa horrores fatais a donzelice língua portuguesa
Freira puritana essa nossa língua que se mete em todas reentrâncias da minha arte
O açoite da gramática é cruel às costas  poéticas.
Que o poeta fale de pássaros e cante o olhar dos meninos, que tenho uma musa
Mas não ouse ele meter-se com ela entre lençóis  vagabundos de um motel barato.
Poeta, ouvis meus conselhos, contorças  junto às suas palavras, mas contenha o gozo. 
Não haverá de ser perdoado o extasiar-se, o deslumbramento
Pois impera a hipocrisia na (horla) intelectual dos lascivos moralistas.
"Os quais  influenciam mentes e que são destinadas a controlar a humanidade"
Juntemo-nos ao banquete farto da teocracia  deixemo-nos embriagar e dormitar  bêbados entre a imaculada brancura que ostentam no palacete dos santos. Não há nenhum pecado na humanidade além da poesia, então crucifiquem o poeta.