terça-feira, 8 de novembro de 2016

Luzes da Ribalta

Estamos em um grande palco chamado mundo
cada um com seus personagens, atuamos.
Nada disso é real. Somos metáforas de nossos eus
Somos todos bons atores num circo de horrores.

Toda manhã vestimos nossos figurinos
Usamos nossas maquiagens ou máscaras
 A iluminação é perfeita para cada ato
Dramas, tragédias, comédias...

Partes de uma fantasia imensa
Mas, como de um grande sonho,
um dia despertaremos.

Quanto medo sentimos!
Vão nos tirar do palco?
Estaremos nus, descalços!

Choramos os que partem antes
não por saudades dos que se vão,
mas pelo medo de ter que ir
Agarramos com mais força
nossa grande farsa

Já joguei este jogo inúmeras vezes
Afinal, faço parte de tudo isso
Ouço os aplausos, sinto as vaias
Todavia, nada disso me abala

Construi bons personagens,
faço bem o meu papel.
Quis, por escolha própria,
ser a que provoca
a que abala a passividade,
a que enfia as mãos nas entranhas
e revolve os intestinos,
o horror  no olhar
dos cadáveres'inda vivos
me fascina...

(Me lê e fica de pau duro
Me lê e sente ódio profundo
me lê e quer chorar
me lê e pensa me amar)

Alguns tentam contracenar comigo
Por pouco tempo. A intensidade assusta.
Sempre deixo que falem e falem
Me divirto com suas histórias vazias
São invenções perigosas, que
eu não levo a sério.

Não perco tempo com péssimos roteiros
com personagens medíocres
me interessam os bons atores
Eu os reconheço pelo jeito de me olhar
Com eles divido as cenas importantes
Com eles, posso improvisar

Quando cansada vou à ribalta
E as luzes quedam-se sobre mim
como num monólogo, mas eu me calo.


Penso em arrancar a fantasia,
deixar o vento tocar-me a pele,
fugir deste céu de holofotes e gelo seco...

Tento me lembrar de como eram as estrelas
e, não conseguir fazê-lo, me leva às lágrimas
(pedaços de alma que fogem)

A plateia, composta de figurantes
um tanto mesquinhos,
urra furiosa
Medo, todos têm muito medo
de sentir. Culpam o ator.

O show nunca pode parar
Por isso sigo em minha
tragicômica encenação de vida

Crente de que só viverei realmente
quando descer do palco.

Todavia, sei que existem pessoas
que nunca param de fingir.
Mesmo quando não há público,
representam. É como um vício.
Um vício fatal.

Eu gosto de estar aqui.
E gosto de ser eu mesma.
Sinto prazer em colocar
e em tirar minhas máscaras
Gosto de estar comigo e
rir de pequenas bobagens.
Gosto de estar comigo e
chorar por tolas tragédias.

Sei que pareço não fazer sentido,
mas eu me encontro
onde a maioria se perde.
E, quando pensam que estou perdida,
estou apenas me divertindo um pouco.
Há em ser-me assim um quê de paz
e isso é o suficiente para mim.

Angel