sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Jornal de Ciências







Depois de anos de experimentos, de testes científicos e comportamentais e de infinitos congressos internacionais, uma coletiva de imprensa foi convocada. A declaração feita causou furor entre os jornalistas.
Embora já se houvesse a suspeita, foi então confirmado pela ciência, a mutação no genoma de todo poeta existente.
A alteração dos seres desta agora considerada uma nova espécie é responsável por seu estranho comportamento.
Através de métodos comprovados, pode-se afirmar que poetas são seres de hábitos predominantemente noturnos e solitários. No entanto, apreciam caçar em grupos e, por esta razão, têm sérias tendências à boêmia.
São seres não monogâmicos que possuem, como característica básica, se apaixonarem intensa e dolorosamente de duas a doze vezes por ano. Apesar disso, os especialistas observaram que, a grande maioria destes relacionamentos ocorre de forma platônica e, todas estas acaloradas paixões só se concretizam em formas de poemas românticos, com sérias pitadas de erotismo.
Testes confirmam que há na construção de uma boa prosa qualquer espécie de descarga hormonal no cérebro do ente poético (ainda não catalogada ou nomeada nos anais da medicina) que os torna excêntricos diante de simplicidades rotineiras. Essa química os torna capazes de filosofar horas a fio sobre coisas que passam desapercebidas às pessoas normais como, por exemplo, falar sobre a consistência metafísica da pétala da margarida.
Essas “aberrações cromossômicas” trazem aos indivíduos altas doses de dramaticidade e uma profunda sensibilidade o que leva às pessoas erroneamente a classificar os poetas como loucos ou preguiçosos.
O DNA do poeta, na verdade, é mais antigo do que o da raça humana normal. Possui traços  de seres mais primitivos e selvagens, dotados de instintos aguçados e, seriamente destinados a adorarem divindades míticas como Musas.
Devido a forte tendência a serem sonhadores e instáveis os poetas não conseguem manter relações duradouras entre seres da sua espécie o suficiente para se acasalarem, então é bem provável que estejam condenados a extinção. Este fato levou a um consenso e comoção geral entre todos os estudiosos: “seria uma grande tragédia para a raça humana o fim da poesia, pois é ela a aura da insanidade que nos mantem humanos.”, afirmaram.

De Maria Angela Piai (Doutora Poesiologia e especializada em estudos do DNA de poemas, poesia e prosa.)