terça-feira, 17 de outubro de 2017

Fetiches

Lutei feito leoa as batalhas deste dia.
Eis, que me deito agora, gata mansinha
Ronronando entre almofadas de plumas
Felina, ainda, com garras prontas.
Ouves de longe meu roçar persistente.
Miados, gemidos e dentes. Te encaro.
Já na cozinha me espiãs malicioso
e ouço o tilintar da tigela de leite...
Ah, sabes que adoro mamar.
Esfrego-me oferecida entre suas pernas
e sagazmente lambo a gamela..
Vez ou outra olho-te de soslaio,
compreensivo afaga de leve meu rabo.
Então, satisfeita salto-lhe ao colo e 
face a face lhe proponho intimidade.
Tu me abraças protetor e resolve
abrandar meu calor: me despes devagar,
cobrindo de beijos minha derme.
Minhas garras retráteis já no tesão te marcam a pele.
Rolamos na cama numa fúria dulcíssima.
Te clamo selvagem. Me chama "menina".
Neste coito perfeito, recheado de amor.
O que buscamos é prazer, delicadeza e dor.

AngelPiai

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Menino

Menino, vivo sonhando com teus beijos salgados na água do mar, com o gosto desta tua pele morena mesmo sem o sol te queimar.
Aí, menino está tua voz rouca me põe louca e me faz sambar. Eu entro na roda esqueço na hora que nem sei dançar.
Quando o teu Batuque retumba na noite eu sinto o açoite do desejo a carne marcar.
Salgo a ferida com o suor que escorre enquanto  no rebole tento fazer-te me olhar. 
Tu és o rei da madrugada, e eu a poeta por ti apaixonada. 
Canta, menino,  e encanta este meu coração. Meus versos são ecos dos versos de tua canção.
Vai, malandro, no swing do samba e rouba este meu coração  roque n roll.
Dama e vagabundo, perdidos no mundo, se amando em vão.
Eternizo-te em minha poesia enquanto a fantasia de mim te afina o refrão.



AngelPiai

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Totens

Totens

Quero hibernar com o urso numa floresta encantada pelos nossos sonhos.
Colher da Terra as flores e os frutos deste nosso amor.
 Quero a ingenuidade das manhãs, a preguiça das tardes,  contar e ouvir histórias enquanto cai a noite em volta da fogueira cercada pela magia da lua e pelo seus seguidores.
Quero louvar a mãe Terra dançando nua em orgias poéticas. Livre de medo. Liberta de culpas. Sem posses ou possessões.
Quero dedicar-me ao sossego da escuridão, revoando a floresta. Sendo o que sou nas asas da coruja.  Do alto ver a vida fluir nas águas, verdejar nos vales.
Dispo-me e vou. Convicta filha da Deusa que me habita'.
Deitar-me-ei ao lado do doce leopardo e invisíveis rugiremos o silêncio dos que têm fé.
 Uma longa trajetória fizemos até aqui, espíritos fragmentados que se fundem numa perfeita alquimia. Nossa história não está nos livros de história, ela sangra nas veias cósmicas deste Universo por além da eternidade.

AngelPiai


Sentidos

Sou feita de olhos que veem:
 a leveza cruel das palavras
 as sutilezas do ódio contido
 o estrago da ignorância

 Sou feita de ouvidos que ouvem
 o medo das mães famintas
 o assassinato silencioso das florestas
 o gemido agonizante dos rios 

Sou o palato que sente 
a crueza da carne exposta
 a fome dos versos escritos
 o estupro do que foi a infância
 
Sou feito faro que fareja
restos de humanidades entre os homens sobras de bondades caídas no chão farelos de esperança ocultos sobre o medo 

Sendo coberta do sentir da cabeça aos pés
frágil alma carrego em mim
tatuada de ventos e tempestades deixe-me ser... profundidades


AngelPiai



sábado, 30 de setembro de 2017

Pio da coruja


Pousa as tuas longas asas sobre meu ombro dormente
e ao lado do meu coração, me pressente
Pia teu mau agouro. Não temo!
 Meu destino prevejo escrevo em versos que não ousam rimar
Ao vento exponho minhas mágoas, ele as levará.
À chuva entrego minha lágrima e ela inundará (rios e mares) invadindo cidades.
O caos que trago é revolução. Só assim as peças do velho jogo se perderão. Recomecemos mais livres e leves.
Não há veneno que acabe com quem devora serpente.
A observar na noite os seres que o dia despreza me misturo entre brumas bruxas poesias e (h)eras.
Minha arma é ser o que sou: garra, asas e arte! Pretensão, à parte!
Hipocrisia seria não devorar os ratos que rondam as lixeiras ou comer as putas que fumam nas biqueiras.

AngelPiai

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Gênio

Achei uma lâmpada mágica escondida no meu quintal. lustrei, lustrei e lustrei. Um gênio apareceu e reclamando da recessão um pedido me ofereceu....
Falei "quero dormir nos braços quentes do amor, com direito a cafuné e cama cheirando flor."
O gênio pensou um pouco e começou a chorar. Tinha tantos poderes, mas não tinha o dom de fazer amar.
Com pena do pobre gênio, deixe pra lá o pedido, deite-me em minha cama e também chorei escondido....

AngelPiai

Diabo

Quando nasci o diabo afinou a guitarra e tocou rock n' roll no berçário.
Todos os anjos mijões fugiram temerários.
Eu, ainda sem dentes, segurei na grande do berço e falei:
- oh, do chifre! Toca Raul, caralho!

Maria Angela Pyay

Amor

Tenho saudades de você, minha doença maldita.
Sinto falta de sua gangrena apodrecendo minha carne.
Que maldição sentir-lhe tanto tempo parte de mim e de repente extirpar-lhe numa incisão que nunca cicatriza...
Sangro eternamente está ausência que me salva a vida, mas que me condena a eterna dor.

Livros

"Os livros saíram das prateleiras,
voando como borboletas...
Fiquei algum tempo fascinada,
olhando, em silêncio, a literatura criar vida,
fugir pelas janelas e invadir toda cidade."

AngelPiai

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Homem

Tenho fome de você sendo meu homem.
Sinto sede do seu sêmen escorrendo em minha boca semi aberta.
Meu corpo implora pelo seu e, de joelhos, em contrição gozo sozinha o nosso tesão.

AngelPiai

Louca

Eu sou louca.
Sempre fui louca. Não há cura!
Não sou estas loucas que saem gritando no meio da rua, que rasga a roupa pra mostrar a calcinha. Sabe? Estas loucas que não são loucas só querem chamar atenção?
Eu sou louca com atestado médico confirmando minha loucura.
Sou louca com poesia na veia declamando me nhã insanidade.
Acham bonitinho ser "tão intensa"?
Acham sexy não ter limites?
Aí, vocês querem se aproximar, querem ser amigos, se apaixonar... Mas então quando chegam perto e vêem o sangue jorrando, as veias pulsando, toda fúria, o parto dolorido e lamacento dos versos, quando vêem a realidade, se mijam de medo e correm. Não satisfeito de fugir ainda gritam: louca!
Os poetas sofrem, mas as poetas são mártires da Arte. São loucas, são putas... Na verdade, somos muito sozinhas.

AngelPiai



segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Fim

Amar você me matou
Quero dar um tiro de espingarda no meio da minha cabeça.
Você me fez afundar nas drogas, fudeu com meu cérebro e com toda minha vida.
Amar você foi a pior escolha que não tive a chance de fazer. 
Muito rock n' roll, grunge e uma vida fudida. Só assim, sem romantismo algum, poderíamos viver juntos este pesadelo.
Seria melhor naquela noite ter tomado uma cartela de calmantes e vinho e ter desmaiado no vomito aqui no chão.
Caralho, você foi embora e estraçalhou a porra do meu coração. 
Queria esfaquear você até que implorasse pra voltar pra mim. 
O psiquiatra fez pouco caso pro meu corpo fatiado e me encheu de tarja preta. 
Todo mundo deu conselhos do caralho, mas nenhum remédio curou a dor que estou sentindo.
Agora só pego no sono se finjo que finalmente estou morrendo.
E eu choro sozinha ouvindo Nirvana  no fone de ouvido indo pro serviço....

AngelPiai


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Sex

Lança sobre minha pele tua fúria pela carne
Canibais nos consumimos nos êxtase do amor
Mastigadas as estranhas sua porra se derrama
No meu corpo se proclama a marca do meu senhor.
Serva absoluta do teu tesão rastejo implorando teus beijos....

AngelPiai

Eu

Tenho formas estranhas de sentir prazer
Há nomes feios que os médicos dão pra elas
São tabus que quebro em segredo
Nos gemidos de quatro paredes
Meu corpo é meu brinquedo sexual
Meu corpo paradoxo total: contravenção!
Compenso meus traumas inconscientes
Na consciência absoluta que a dor me causa.
Minha causa é superar a minha invalidez, desvencilhar-me dos limites e crescer.
Não devo nada a quem me trata com deprezo, todo me zelo é me tornar o que realmente sou.

AngelPiai

Laço

Traço por traço
Com Fita e com  laço
Desenho e tranço
o poema em ti.
Os versos deslizam
em filetes de sangue
que colibrizam 
tua cútis vibrante.
Tu és o caderno
onde rabisco
meus silenciosos berros.
Não são palavras mortas
e mornas arrumadas num papel.
São gemidos, arrepios e vozes
tua dor é meu cordel.
Vibra e treme, pois eis que te tornas
a forma cadente de sonoro poente.

AngelPiai



quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Borboletas

Quando nasceu o médico disse sorrindo: 
"é uma menina".
Eu nada disse, nasci de olhos abertos, contemplando o mundo.
Uma das primeiras coisas que vi, foram as borboletas que xeretavam meu parto através da janela.
Deixaram-me num canto enquanto costuravam o estrago que fiz em mamãe.
Aproveitando-se da distração borboletaram  pra dentro do quarto as quatro borboletas e foram me arrodear...
Estendi os bracinhos e sorri travessa. Mas quando abri a boquinha sem dentes, as danadas aladas aproveitaram a entrada e dentro de mim fizeram morada.
A partir daí fiquei assim avoada, agitada.. Me metamorfoseando do nada. 
Essa alma danada que tenho, toda borboleteada, só pensa em voar de flor em flor, de dor em dor, de amor em amor.... Nunca fica num só jardim, nunca sossega dentro de mim.
Alma-flor. Alma-amor. 
Alada e aprisionada, flui desesperada pelos vãos da insanidade, entre os dedos da saudade. Subordinada da Arte que arde feito ferida aberta no peito do poeta.
Casulo versos. 

AngelPiai

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Barco

Eu, barquinho de papel 
feito em dia de chuva
Pela molecada da rua.
Eu, solta na enxurrada
durante a tempestade,
agitada pelas águas turvas
ouvindo a gargalhada da garotada...
Sinto-me aos poucos encharcada
Sigo, desfragmentando-me.
Tão desidealizada que chego a ser triste..
Logo a frente, o que vejo, um 
imenso bueiro donde eu naufragarei...
Não há outro caminho.
Não tenho mais salvação.
Sigo o fluxo da morte, sem fé ou dimensão da finitude que me traduz e a que me resumo.

AngelPiai

Menina

Me sinto viva quando sangro
Me sinto mulher quando sangro
Me sinto parte da deusa mãe quando sangro.
Sou poesia quando sangro.
Não há meias verdades. Não existe meio termo.
Extrema nasci. Estremecendo céus e terras morrerei.
Há rumores que será breve.
Há a hipótese de uma paixão.
Ninguém saberá. Vento leva ventania pro meio do mar e lá maremotos. Mares remotos. 
Mar é morto no silêncio das ondas.
Me sinto sangue porque sou mar.
Eu sou o amar que sangra.
As ondas que vem e vão deslizam a poesia com minhas mãos... E a poesia é vermelha e pinga serena da carne branca fatiada no grande açougue que é o mundo.

(Ninguém acariciou os cabelos da menina  enquanto ela desexistia)

AngelPiai

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Suicídio

Tu partiste 
Fostes sem adeus dizer
Teu retrato esquecido
Sobre a estante da sala
Tem o teu sorriso
Há muito esquecido
Paralisado.
Há tempos tu não sorrias
Há tempos e eu não percebi
Não houveram malas sendo feitas
Não houve discussão, ou gritos
Só um silêncio doído apertando o peito
A culpa, por nada mais poder ser feito
Eu cheguei, abri a porta e ouvi.
O balançar, o bater dos pés nas paredes
Leve, seco, assustador.
Caminhei em direção ao ruído e te vi
Bailando feito um sino
Pendurado pelo cinto.
Quase um anjo, mas sem as asas.
Já não respiravas...
Cai de joelhos no chão, o rosto entre as mãos
Sem lágrimas....
Tu partiste, sem dizer adeus.
Há tempos tu não sorrias
E eu nem tinha percebido 
A falta do teu sorriso..
Como eu posso não ter 
Percebido a falta do teu sorriso?

AngelPiai

Esquecer

Lhe dei meu gostar
Dei-lhe meu querer
Então, dei-lhe minha paixão com toda sua fúria.
Transformei-a no mais pleno e intenso amor e entreguei-me por inteiro.
Você destruiu tudo. Transformou tudo em caos.
Me reconstruo aos poucos e garanto, quando terminar de colar os cacos, nem raiva restará. 
Você significará um grande e absoluto NADA.

AngelPiai

Frases

Abre teus lábios e sorri
Estou pensando em ti
Vê e sente o que sinto
Se digo que não é amor
Saiba que minto...

AngelPiai

Jogo

Aguça meus instintos 
É hora de brincar
Meu corpo seu tabuleiro
Prepare-te para jogar
Tu Rei. Eu, Rainha.
Arriscando posições
Delírio a  cada movimento
Um jogo de sensações.
Toca-me com precisão
E ouve-me, então, gemer
Estremeço em tuas mãos
Xeque-mate-me de prazer

AngelPiai

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Minha

Concluo que pertenço a ti
Por dedicar-lhe meu amor.
Mas a verdade é que só posso
Pertencer a mim.
Sendo eu dona das minhas coragens e dos meus medos
Sendo eu quem decide a que ponto de entrega eu chego. 
Sendo só minha a dor de ser quem sou.
Sendo eu Sísifo rolando eternamente a pedra dos meus pecados.

AngelPiai

Dengo

Faço dengo a espera do teu chamego.
Me chama, meu nego.
Me chama que não te nego o meu fervor.
Venha com a doçura e a fúria dos amantes
Me aquece o corpo com o teu calor
Embriaga-me com o cheiro do teu cio
E uivemos juntos nossas juras de amor!

AngelPiai



quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Pluma

A brisa sopra pra longe
nosso breve, frágil e leve amor...
E ficamos, você e eu, encarando o vazio.
Voa pra longe amor, antes que possamos maculá-lo com nossas vigarices e egoísmos...
Voa que seu vôo leve vira poesia e se eterniza nas rimas que não faço.
Porque se até o amor eu liberto, quem dirá os quanto são livres meus versos?

AngelPiai


Parto do poeta

Como nascem os poetas
(Fiz hoje, espero que gostem)

Disseram que quando o poeta nasceu antes de tudo nasceram seus olhos.
Dois olhos imensos, bem abertos, admirados encaravam no mundo. Os olhos do poeta pareciam dispersos a realidade e encantados em seu alinhamento.
Pouco depois nasceram-lhe as orelhas e os ouvidos, podendo ouvir a vida, seus olhos brilharam mais lindos.
O corpo do poeta saiu então, meio sem jeito, tímido, sentindo-se diferente dos outros. O corpo do poeta era quase uma camuflagem a ocultar-lhe o coração. Porque o coração do poeta era imenso. Mais do que isso, era intenso. Tão cheio de cicatrizes que parecia tecido bordado e costurado pedacinho por pedacinho...
Os médicos presentes também estranharam o fato de o poeta nascer sem pele, em carne viva tudo a dia no pobre sonhador.
Por último nasceram-lhe as mãos eram tortuosas e abobalhada inicialmente, pareciam vivas a parte do próprio corpo e estavam ligadas diretamente ao coração, assim como ele, também pulsavam.  E se desenvolveram tímida e tremulamente como o resto do poeta...
Firmeza as mãos só alcançaram quando, depois de letradas, lançaram seus primeiros e ingênuos versos no papel. Eram mãos adolescentes transcrevendo  o primeiro Amor. E foram tantos os amores transcritos que fizeram do poeta um maldito vagando de dor em dor.

AngelPiai



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Criação

No fundo, com afinco
Nunca é o bastante
Nunca chego a artéria principal
Nunca sangro até esvair-me.

Traço minha meta na pele clara
Clareio, assim, meus pesadelos
Há objetivo. Não há medo.

Finco, mas sempre fico na expectativa turva.
Sobre a tela em branco escorre o carmim
E nenhum Dalí conseguiria compor com tamanha preciosidade sua Arte.
A surrealidade da morte em vida. Onde não há morte. Há, apenas, o resgate do que nos torna humanos, da dor, do êxtase, do gozo esborrifado em vermelho vivo sobre a paisagem.
O foco do poeta se funde a faca que faz a tinta donde nascem os poemas mais viscerais.
Tranço letras em tiras num bailado fonético que formam tranças  no cabelo acobreado da menina. Mas vem o vento, este moleque, e insiste em despentea-la.
Então ela ri e joga a cabeça para trás o que me faz esquecer toda poesia mergulhando no verde daqueles olhos. Fico meses perdido nas lonjuras esmeraldas daquele labirinto sem desejo algum de alcançar a saída. Porém ela sussurra: poeta! Ei, poeta!
E eu despencou de volta em mim.
Só então percebo o batom vermelho borrado naqueles lábios entreaberto num sorriso bobo.
Tento me agarrar a realidade em torno.
Já é tarde a poesia rasga-me a carne, explodem versos por minhas veias dilaceradas 
Escrevo com febre e em convulsões, quase em transe e até a exaustão, quando me quedo abatido. Num fiapo de lucidez a que me agarro antes do total esquecimento procuro com os olhos a menina musa e vejo- a partindo levada por uma réstia de vento. Só então, adormeço.

Angel Piai

Colibri

Leve-me leve como um colibri
Na brisa da primavera
De flor em flor
De cor em dor
Levemente perdida
No ar em movimento
Setenta vezes 
Paradigma anti gravidade

Leve-me na levissíma contradição
Que paira entre amar-lhe e odiar-lhe
 Intensamente

leve-me na música
Que se repete
Na areia que gruda na pela
Deite- me contigo
Na cama fria
Nas noites sem luar
E abrace, abrace
Meu corpo ausente

Voe livre
Voe alto
E volte flutuando leve
Minha dor, minha cura
Vá, mas leve-me

@ direitos reservados
Angel Piai

Desilusão

Eu queimo, mas sem febre
Sofro de uma agonia crônica
É psíquica, porém fere fisicamente
Por isso, sangro
Meu corpo arde. Sou incêndio.
As lágrimas tentam aplacar a chama que me consome. Nunca são o bastante.
E está solidão imensa e intensa feito um cão feroz me devora aos bocados.
Pouco sobra de são. Vísceras, ossos, carnes, alma....tudo condenado a uma execrável existência, a podridão mundana, aos vermes rastejantes.
Este amor, afinal, morre comigo. Ele, maldito veneno que me infectou de forma lancinante. Hoje adormeço a dor, adormeço eu, morre a poesia.

Angel Piai
@direito reservado



quinta-feira, 27 de julho de 2017

Foto

Eu perguntei: e agora, José?
E não é que um José respondeu! 
"Guardei pra você, parece um  ótimo lugar pra ser feliz!"
Sabe, olhar e ver um "lugar de ser feliz", me embelezou o coração. 
Há, porém, (eu sei) dentro das casas dores, privações e tristezas.
Mas, talvez porque precise de férias, deste senso de realidade aguçado que me adoece, eu decidi observar o macro; a imagem com as suas cores e seu aconchego. 
Decidi ser a que está lá com o vento nos cabelos e o sol sobre a pele, em completo silêncio. Em plena sintonia com o belo, com o sagrado, com a poesia...

Angel

Obrigada José Carlos Boudoux-silva


Vida

O sopro da vida 
breve instante
que abraçamos
insistentes.
Ele flui
apesar dos medos
apesar dos relógios
apesar dos pesares...
Nunca constante.
Sempre ciclíco.
A chama de uma vela,
um breve sopro e
a eterna escuridão.
Ou não...

Angel



quarta-feira, 26 de julho de 2017

Temporal

Estava segura sob o céu azul
Mas sou tempestade
Sou redemoinho...
Reviro o mundo, por onde passo.
Ninguém me quer 
Só causo estrago...

Mas eu vento, eu vento
Eu furacão...

Angel


Cansei

Cansei de andar por aí feito louca, vou voar.
Abrir minhas asas de águia e ir além. 
Olhar o mundo com outro olhar .
Enxergar o que daqui do chão não posso ver.
Preciso alçar vôo, rumar pra outras terras, respirar outros ares...
Quero cruzar oceanos, mergulhar. 
Não posso mais ficar parada olhando pro nada.
Me sinto cansada...
Libertem-me das gaiolas. Arranquem-me as correntes. Deixem minhas asas crescerem novamente.. 
Vou visitar todos os continentes. Talvez ir mais longe, pra outros planetas, visitar estrelas e caçar cometas...
Não me segurem, já não pertenço mais a este lugar... Vou debandar!

Angel



Frase

Abraça-me como se as noites fossem sempre estreladas e beija-me como se as nuvens fossem feitas de algodão... Doces!

Angel

Temporal

A poesia pulsa 
enquanto sangro
versos perdidos. 
Fala mais o vento 
sobre mim do que
 toda primavera.
Me faço verbo
e sou diante do perecer.
Sopro meus sonhos dentre o bambuzal
que geme minha dor...
Assim vou, desintegrada,
feita das saudades mais doídas.
Quem sabe as flores me abracem?
Névoa e caos caem
Sobre meus olhos
Mar remoto
Maremotos...
Névoa e caos, 
enquanto arquejo
num arco-íris...
Chuvisco lágrimas
é só então me lembro
Que deixei o para-raios
em casa...

Angel



Frases

Sou viúva de amores mortos.
Restos torpes de paixões sanguínolentas.
Haverá vida após a morte?
Oremos todos  pelo vazio.

Angel

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Puta

A puta que nos pariu
A puta que somos agora...

Senhora, silêncio: não goza​.
Faça versos rimados, não prosa. 
Seja prece, não reza.

Senhora, fique calada.
Ou de louca será tachada
Mede o tamanho da saia
Ou será devidamente estuprada

Senhora, não ande sozinha
Vamos pensar que você é galinha
E não estude demais. Talvez
Os homens não lhe queiram mais.

A puta da televisão
A gostosa da vizinha
A biscate do mercadinho
A menina que é galinha
A quenga lá da esquina
A vaca que lhe xingou
A sapatão feminista
A chata que não te aceitou
A frigida que disse não
a bêbada que você uso
A adolescente safadinha
A gorda que você gozou
A negra objeto

Todas elas são culpadas
Todas putas que somos agora
Filhas das putas que nos pariram
Tão putas quanto a que pariu você
Tão putas quanto as que pariram seus filhos e sobrinhos.
Culpa da puta vagina que nos estgmatiza, nos condena, nos martiriza...

Angel


Selvagem

Pra que eu silenciaria minha alma selvagem?
Corro em direção aos meus medos gritando e agitando os braços a fim de afugentá-los...
E eles voam feito corvos no milharal porque temem quem se expõe com ousadia.
Observo o brotar das sementes que plantei feito mãe zelosa olhando o filho que adormece.
Alimento meus sonhos com os grãos que colho com minhas próprias mãos. Por isso, elas são ásperas e eu livre.

Angel


Pesadelo

Sigo pelas portas estreitas 
Desvendando os labirintos
do meu inconsciente.
Há escadas imperfeitas e
pontes suspeitas sobre as
quais devo Passar.
Ultrapasso medos variados
que meus lábios, não querem confessar.
Vou, sobre mares e rios enlodaçados,
tropega, temerosa, turbulenta...
Mordem-me serpentes sem me envenenarem.
Sonhos recorrentes. 

Angel.


Frases

Quase morro poema nos degraus de uma escada.
Quase morro num tropeção idiota  num buraco qualquer.
Sempre por perto, rindo de mim, a morte.

Angel

Abuso

Eles entraram na minha vida de mansinho.
Eles não pediram licença. Nunca se desculparam também.
Quando vieram tinham as mão sujas e elas profanaram a alvura dos meus lençóis e das fronhas sobre meus travesseiros.
Eu tinha sonhos então, era menina. Eles, monstros.
Quando saiam satisfeitos deixavam o rastro de  lodo espalhado por meu quarto, por meus brinquedos, pela minha infância.
Ninguém ouviu meu grito, já que nunca gritei.
Nem enxugaram minhas lágrimas, pois escondido chorei.
E fiquei tão boa em esconder que escondi dentro de mim as lembranças, tão fundo, tão fundo, que só as sei por minhas neuroses.
(Neuroses não são boas em guardar segredos)
As meninas aprendem o silêncio com a dor. Maldrasta de todo abuso. Amante do abusador.
Com os fiapos de cabelo que arranco, desde pequena (com estes fiapos invisíveis que nunca arranquei) tranço o açoite com que me castigo pela culpa que sempre carreguei.
Carregava no bolso da calça, na mochila até a sala de aula... Agora, carrego na alma.
Eles entraram e saíram. Entraram e saíram.
Eu sangrei.

Angel



quarta-feira, 19 de julho de 2017

Anjo

Ajoelho-me no chão frio
onde plantei o medo
e abraço a fé que perdi.
Há marés turbulenta
inundado meus olhos.
Minha prece nunca foi dita
nasce de mim e em mim,
não morre.
Nenhum deus foi glorificado...
As palavras saem em verso.
As palavras são poesia...
As canto baixinho no vão 
da madrugada...
Meu corpo treme,
minha alma teme,
meu coração sussurra...
O tempo não existe, é silêncio!
Então, ele vem. Ele é Luz.
Não olho, mas vejo-o.
Sinto-o intensamente,
quando me abraça e
sopra seu fôlego puro
no meu ouvido:
"não tema!"
A luz se vai aos poucos.
Só, na escuridão, estou.
Deito-me, mais calma, 
mas ainda choro...
Então, adormeço.

Angel.


Crônica de mim

Mãos que me deitaram no asfalto quente, com a suavidade de uma doença silenciosa destruindo um organismo aparentemente saudável. Nem uma ferida, nem um gemido.
Toque e calor. Submissão e quietude.
Na nuca o metal frio. O estampido veio ensurdecedor. E vi o mundo e a vida
passando em câmera lenta.
Um caleidoscópio cristalizou-se na minha retina e não senti medo da morte, aquele anjo belo e quente que tocava minha alma...
Pensei, ele a levará...tudo findou.
Horas depois, acordei.Era menina, ainda.
 Estava em minha cama, ao lado dos meus irmãos...
Irônico, mais de trinta e tantos anos depois, eu ter essa dor na nuca bem onde o estranho encostou a arma e me acertou. Esquisito lembrar do sonho? Nem tanto, ele foi tão vívido que falei e escrevi sobre ele diversas vezes.
Pena não ter mais meus diários....

Angel

#cronicaterapia001



terça-feira, 18 de julho de 2017

Frases

Peço licença para invadir-te sem decência.
Meu desejo não aprende a ser contido.
E contigo quero estar a vida toda 
mesmo que isso dure o eterno desta hora....

Angel.


Amor

Eu queria te amar livremente na beira da noite, entre a realidade e os sonhos.
Ainda insone e alerta deslumbrada apenas com os teus beijos.
Liberta dos medos infantis que não abandonei a medida que envelhecia
Escrevo estes versos mal traçados em meio ao caos do trânsito, ao lado de um outro alguém que me conforta, mas não desperta os sentimentos que por ti tenho.
Sou uma covarde com medo da vida, com medo do amor irresponsável....
Mas que posso fazer se me abati tantas vezes nos descaminhos traçados?
Te vejo saindo da minha vida. Quero gritar teu nome, pedir que fique...Não ouso. 

Angel




Você

Só existe você neste brado ecoando por todo meu eu.
Existe você e essa sua ausência agonizante.
Há versos mudos ululando entre nós feito aves carnívoras.
Elas bicam meus olhos enquanto choro.
Tremo o frio da saudade de seu corpo contra o meu.
A solidão urra feito loba no cio e eu lhe chamo na madrugada entre sonhos e delirios febris.
Você nunca vem. Ouve, mas não volta.
Escuta, porém não se importa.
Louca imagino-lhe:
 Cobre-me com seus beijos, 
aquece-me com suas carícias, 
faz-me gozar em meu desejo...
A loucura me leva a você sabendo-lhe inexistência...

Angel



Morte

Quero escrever, mas a morte berra pela minha boca e eu não quero dar voz a ela.
Meu hálito azedo da bebedeira na noite anterior também não ajuda eu fingir ser humana.
Não tive coragem de viver todos amores que senti. Todavia amei loucamente e me apaixonei perdidamente por muitas vezes.
Obviamente quebrei a cara pra caralho...
Eu não gosto nada da sensação de perda. No entanto, vivo.me apaixonando de novo. 
Ás vezes, por mais de uma pessoa ao mesmo tempo. E todos os caras se acham o melhor....
Não me importo com esta merda toda. Ou me importo demais, sei lá.
Sempre tive um monte de caras balançando seus paus duros na minha cara desde menina e meio que me viciei nisso. Me sentir um lixo é melhor que me sentir um nada.
(Gosto de fazer textos longos que poucas pessoas lêem...)
Também não sou essa desgraça, tenho coisas valiosas na minha vida. Coisas que conquistei e que pouca gente se quer sente o cheiro durante a existência toda.
Mas não sei. Sou meio estragada por dentro e faço muita força pra não ferrar tudo. Então, assim que acender a luz e sair deste quarto, vou escovar os dentes e sorrir.


A menina do poeta

Serelepe bebe  café e masca chicletes
enquanto se derrete lendo histórias de amor
na internet...
Calça ALL star em qualquer ocasião
Bebê Coca cola no canudo dizendo que faz bem à digestão
Menina maluca que vive no mundo da lua
com pés descalços no chão levando todos os sonhos trançados no coração.
Menina que canta  noite e  dia
trazendo alegria por onde passa..
Que desafina, mas canta
pois gosta de contrariar a tristeza
que vive querendo por mesa
Faceira Menina que  encanta a vizinhança
com seu jeito traquina, que corre moleque 
a beira do precipício levando poemas 
nas mãos.
Desajeitada Menina que sempre tropeça 
em delírios derrubando o que trazia
mistura, então  música e rima espalhando poesias na canção.
 Menina que caminha deixando um rastro de luz por onde passa feito rastro de estrelas na escuridão, mas que descompassa o coração do velho poeta, pois enquanto passa ultrapassa os limites entre a terra e o céu, entre o amargo e o mel, entre o você e o eu.

Angel




.

Carn'anal

Encarecidamente rogo
aos donos das verdades
aos perfeitamente sãos
aos inabaláveis
que sigam sua estrada
convictos e seguros.
Afastem-se de nós 
os que estão em dúvidas
os enlouquecidos
os que se perdem pelo caminho.
Deixem-nos para trás 
Deixem-nos dançando sem música
Deixem-nos em paz
dentro de nossa luta.
Sei que cansamos vocês
os perfeitos
os absolutos
os centrados, mas
abrimos caminho
saímos da frente
lhes deixamos passar... Sigam!
Vago vagamente perdida
deixai-me tatear já que
reconheço minha cegueira
minha ignorância
minha completa falta de bom senso.
Minha poesia não é
perfeita em sua Língua
rimada em sua trova
literalmente prosa?
Sinto muito, seguem minhas lágrimas
dobradas no guardanapo sujo do bar
presas no vão da mesa
perdidas na almofada do sofá
Seguem também as desculpas
que eu mal digo, sendo maldita.
Nós, os perdidos.
os poetas que se rasgam
em alma e carne
Nós, os carn'almas, delirantes
que vomitamos versos...Os nojentos!
Os que repugnamos sua finésse poética...
Deixai-nos para trás. 
Não necessitamos de medalhas
não desejamos honrarias
não ansiamos pela sua aprovação
(linguística, moral, intelectual)
A poesia ampara nossas vísceras
nos salva da insanidade completa
nos humaniza, nos salva.
Por isso e para isso somos poetas.
porque a pétala nos fala
tanto quando o espinho
porque às vezes, sangramos na flor...
Deixai-nos aqui
mesquinhos, pequenos, delirantes
e afastem-se vestidos com a toga do saber
absoluto.
Nós ficaremos aqui vendo os vermes
roerem as carnes das carcaças
que nem os abultres, nem as hienas
quiseram provar.
Já é tarde demais para nós,
 os malditos...

Angel

*Na foto Puna Baush


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Janela

A janela ficou aberta a noite toda, 
a vida inteira.
Vi, através dela, o tempo fluir. 
Ventos, temporais, calor ardente, insetos sanguinários e amores violentos entraram e saíram por ali.
A bela tintura perdeu a cor, descascou-se. 
Vi a deterioração do belo. Passiva.
Hoje me levantei da cama, caminhei
em direção a claridade matinal.
Hoje, num ataque de fúria, fechei a janela.
Tranquei-me aqui onde não há luz.
Quero habitar a escuridão que me habita.
Serena...

Angel

Noite do desencontro

A noite do nosso desencontro 

Eu saio de casa para não lhe encontrar.
Marcamos de nos desver na praça central.
Saia preta pregueada rodada como eu em você
Enrendamos uma trama, maior é o drama a nos envolver.
O descompasso dos nossos passos, nem AllStar azul poderia prever.
A meia noite nos desencontramos com a lua cheia de eu em você.
No beijo que nós não damos mais do que saliva trocamos. Somos tão demodê...
Sem dentes mordemo-nos os lábios. Vamos nos beber. Seu sangue o meu envenena e eu enveneno você.
Despido de todo pecado corremos pelados pela multidão. 
Uivamos apaixonados para um astro cheio do nosso tesão.
Fazemos amor feito bicho, no meio do mato, deitados no chão.
E eu volto para casa envolvida nos frios braços da solidão.

De: Angel

Dedilhar

Nos meus dedos o cheiro da noite que sonhei contigo 
Nos meus dedos o agridoce do prazer fingido.
Nos dedos meu gosto como se fosse teu.
Um delírio de imaginação poderosa que resulta no gozo estupendo.
Uma noite de amor bem louca desejando o amado meu.
Me cheiro, farejando-te.
Teu gosto, consumindo-me.
Êxtase das mãos estremecendo-me

Angel.

Você

Sinto-me na rua
Sinto-me nas pessoas que passam
Saio-me de mim e vou...
Penetro nas almas e construo versos.
Meus versos falam dou meu eu, 
mas comunicam-se com o mundo.
Transcendo o meu sentir, 
atinjo o universal.
A poesia que faço é alteridade. 
Poesia é um ente vivo e latejante
no seio de uma sociedade torpe.
Rasteja solene a margem.
Silenciosamente berra, arranha.
Sinto-me no espírito dessa gente toda.
Sinto-me nas pessoas que já passaram,
que se foram há tempos.
Saio da zona de conforto
rasgo-me ao meio e cicatrizo poesias.
A poesia que vejo nas ruas, escrevo.

Angel

Conexão

Sinto-me na rua
Sinto-me nas pessoas que passam
Saio-me de mim e vou...
Penetro nas almas e construo versos.
Meus versos falam dou meu eu, 
mas comunicam-se com o mundo.
Transcendo o meu sentir, 
atinjo o universal.
A poesia que faço é alteridade. 
Poesia é um ente vivo e latejante
no seio de uma sociedade torpe.
Rasteja solene a margem.
Silenciosamente berra, arranha.
Sinto-me no espírito dessa gente toda.
Sinto-me nas pessoas que já passaram,
que se foram há tempos.
Saio da zona de conforto
rasgo-me ao meio e cicatrizo poesias.
A poesia que vejo nas ruas, escrevo.

Angel
Foto: 

Nuvens

De menina brincava 
que as nuvens eram doces
que a lua era mágica
que o sol era habitável...
E a noite eu esperava
deitada num telhado
que seres de outro mundo
me levassem... 
Eu olhei para o céu com fé
a vida toda... 
E o céu nunca olhou para mim.
Mas nós já choramos juntos,
algumas vezes.
E trovoamos muitas tempestades.
Deito-me na terra, minha mãe.
E olho para o céu, meu pai
Há ainda há  um pouco da menina em mim...
Um pouco da sonhadora romântica a desejar o gosto de nuvens algodão doce.
Ainda há em mim as tempestades
Ainda me habitam algumas esperanças...

Angel

Foto de Jorge Queiroz

Trevas

Sempre há de parecer certo sucumbir aos desejos insanos de meu coração. 
Tarde da noite trafego insone a procura de inspiração. 
A rasgo a dentadas nas madrugadas em busca de essências.
Não oro, nem choro, mas me corto. A dor que se parte reparte-me entre sentires que viram sangue e de sangue vertem versos. 
Se houver condenação que seja pela vírgula mal colocada separando verbo e sujeito.
Mas nunca me condene por me sujeitar ao verbo.  
Já que cavalgo tão solitária entre as brumas deixa-me delirar... Deixa-me delirar e despencar suavemente neste abismo que eu sou...

Angel

Dor

Meu pescoço tem uma cicatriz
Eu amo minha cicatriz
Meu ventre tem cicatrizes
Eu amo os frutos dele
Me cortaram muitas vezes
Me feriram sem precisar
Amo minhas feridas
Há agora, na nuca,
Uma dor constante
Que oscila, entre o suportável
e o insuportável
Não amo a minha dor, mas
Quase entendo que a mereço.
Nunca dei um sorriso a menos
Por conta da minha dor
Nunca disse "agora não posso te ouvir"
Por conta da minha dor
Nunca faltei do trabalho
Por conta da minha dor.
Eu a levo comigo
No olhar, na poesia, no amor 
Que trago no meu peito.
Eu me respeito por isso

Angel.

Leve

Eu quase voei...
Quase!
Eu flutuei e vaguei
longe do meu corpo,
pleno espírito.
Fui leve como folha levada 
pelo vento outonal...
Fui leve!
Mas voltei, tinha que estar aqui.
Por isso, fiquei.

Angel

Foto: Jorge Queiroz

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Números

Agora que eu descobri que sou m número não quero mais sentir.
Agora que me descobri um rótulo não procuro mais que existir.
Antes não, antes eu vivia. Abraçava as manhãs como quem abraça a saudade quando ela volta.
Antes eu corria pelas tardes como as gazelas pelas savanas.
Antes eu não deitava para dormir, me deitava para sonhar..
Hoje sou uma sequencia numérica. E ela diz: quem sou; o que posso; até onde ir; quando voltar; o quanto pertenço...
Sem ela, embora eu caminhe, ame, viva...eu não existo.
O número, esse sim metáfora do não existir, vale mais que meu eu físico, psíquico, espiritual.
Ele, mudo, fala mais lato que eu....música.
Pessoas longínquas, quase de outras dimensões decidem, através de gráficos e proporção, os destinos, as vidas..
Valores são números, não mais que isso.
Perdeu-se o correr descalça, a pular na poça de lama, o riso escancarado.
Sorrio discreta com dentes enjaulados. Afinal, tudo tem que estar simetricamente alinhado.
Sequencial. Produção em série. Vou. Vamos.
Proíbem-nos de decidir não fazer parte. É contra lei (da vida, dos homens, de um deus).
Então, caibamos na forma. Mesmo que ela nos deforme.
Então que o ferro em brasa nos marque a carne, no enumere.
Anulemos convenientemente a inconveniência questionadora, a curiosidade e a criatividade.
Para que o Império do número reine absoluto,
Para que a ditadura dos rótulos seja soberana,
Faz-se fundamental que se mate a Arte.

Angel

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Curto



O amor candeia-se em ritmos 
que bailamos enlouquecidos.
Parceiros na valsa da vida
não desafinamos uma só nota,
desafiamos todas as apostas
E deixamos a música levar...

Angel

Curto


Cai a noite de leve
Levando as luzes
Criando as sombras
Sopro vida
Supero instantes
S o b r e v i v e n t e
Vago sombria
Na imensidão
Que sou.

Angel

Curtos

Baila perigosamente pela vida, menina!
É teu (des)equilíbrio que mantém a órbita dos planetas.
Sede o que és e, a partir daí, transborda o mundo...

Angel

terça-feira, 20 de junho de 2017

Canção




O vento que sopra
Arrepia meu pêlos
Amo o vendaval que desalinha
minha vida e o meu cabelo
Minha história é
Feita de tempestades 

Meu desencanto é canto
Espalhando pelos quatro cantos
Desta cidade 
Se lhe causa espanto
A minha  liberdade
Só lhe peço respeito
Me dê uma chance

Afinal,
A vida é romance
Etecetera e tal
Amor é freelance
Mas me entrego total
Não estrague meu lance
Com sua falsa moral

Essa ventania que invade meus dias
E me leva a todos os lugares
Procurando um caso de amor
em todos os bares...
Mas ao final da noite, 
Na madrugada fria
Eu sempre acordo em sua companhia.

Será que todo este tesão é amor?
Será que todo este tesão já virou amor?

O vento que sopra
Sopra a liberdade
E eu quero amar você
 em todo canto
Desta cidade
Atravessar a rua
Beijando-lhe a boca
Quero dar de louca
E jantar você....

Afinal,
A vida é romance
Etecetera e tal
Amor é freelance
Mas me entrego total.

Será que todo este tesão já virou amor?
Será que minha confusão já amou você?

Angel.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Musa





Durante dias o poeta
procurou a Musa
Pelos bares da cidade
Pelos bosques ao redor
Pelos becos isolados
Pelos campos, por serrados

O poeta ficou rouco
De tanto chamar
Chamaram-no de louco
Vendo-o na rua a berrar

Bebeu o poeta
Da jarra de vinho
E bêbado de desejo
Tropeçou em versos não ditos

Não feliz, o poeta
Se entorpecer de absinto
Sedento de poesia
Participou de orgias

Quase nunca dormia
A não ser quando caia
Desmaiado n'alguma sarjeta

A Musa não se apiedou
Do desgraçado poeta 
Que pelas ruas vagou
Uma figura decrépita 

Riam dele as moças,
Desdenhavam-lhe os letrados,
As velhas carolas se benziam
Quando o ouviam recitar versos
na escadaria da igreja.
"Bêbado" "Tarado"
De tudo era tachado, mas
De poeta ele nunca foi chamado.

Numa noite de chuva forte
Encontrou a sua sorte
Ao cruzar uma avenida...
Então nos braços da musa
o poeta despertou.
No paraíso dos versos, 
seu corpo descansou.

Angel

Elvis



Sonhei com você, meu amor
Finalmente íamos nos casar
Eu, você e Elvis Presley
Estávamos juntos num altar
Muitas luzes, muito rock
Beijamos-nos finalmente
Ao som de love me tender
 Fomos prum motel barato
Transamos antes de chegar no quarto
No quartinho de limpeza
Me fez gozar sobre a mesa
No dia seguinte, de ressaca
Passeamos de mãos dadas
Quietos, eu estava mal humorada...
Mas, caminhavamos levando
um isqueiro descarregado,
pouco mais que dez trocados,
enormes e bobos 
sorrisos nos lábios
e corações apaixonados.
....

Angel.

Amor

Sento-me, cruzo as pernas a sua espera. 
Comportada feito menina, meus dedos brincam com o bordado da saia.
Olho de soslaio o Tempo que corre moleque e ri de mim. Até que me irrito e corro atrás dele. 
Desfaço o penteado, Borro a maquiagem, rasgo a saia num galho onde trepo. 
Gargalho do vento que leva a pipa, solto alguns palavrões, mergulho na vida.
O Tempo, travesso, me enche de cicatrizes. 
Eu corro. Eu rio. Eu brinco...
Invento-me guerreira. Pinto-me sonhos. Corto-me desilusões. 
E sigo. Sigo em frente...
Passam-se estações, pessoas, histórias. Eu planto sorrisos e colho saudades, por isso choro. 
Minhas lágrimas o Tempo recolhe em sua ampulheta e bebe....
Você chega de repente. Nos reconhecemos silenciosos. Há em nós aquele amor dormente, que explode intensidades. 
Não sou mais a menina recatada, delicada, que lhe esperou. Agora estou desgrenhada pelo vento, pelo tempo... Mas você me vê e sorri. Percebo no sorriso a ternura e respondo sorriso.
Nos abraçamos e olhamos o Tempo correndo ao longe. Ele agora é eternidade...

Angel

Angel

Janela

A janela ficou aberta a noite toda, 
a vida inteira.
Vi, através dela, o tempo fluir. 
Ventos, temporais, calor ardente, insetos sanguinários e amores violentos entraram e saíram por ali.
A bela tintura perdeu a cor, descascou-se. 
Vi a deterioração do belo. Passiva.
Hoje me levantei da cama, caminhei
em direção a claridade matinal.
Hoje, num ataque de fúria, fechei a janela.
Tranquei-me aqui onde não há luz.
Quero habitar a escuridão que me habita.
Serena...

Angel

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Fiz

Fiz versos para os teus sonhos
Fotografas-tes meus medos
Nus de corpo. Nus de alma.
Entre nossos corpos, nenhum segredo.
A Arte envolvendo-nos feito lençol,
aquecendo-nos contra o inverno que assola a humanidade.
Dois profanos contra a castidade.
Amantes confessos contra a hipocrisia.
Gozaríamos poesia.

Angel

Rimas

Não sei rimar seus ciúmes com a minha instabilidade. Não gosto de versos que rimam, de qualquer forma. Soam forçados.
A toa a vida nasce todos os dias, alguns a chamam milagre. Desconverso por conta do sono que não veio durante a noite e atou-se aos meus pés de manhã. Desconverso, embora descreia, já há muito, em milagres.
Apesar de descrente, levanto da cama todo dia e sorrio. Talvez seja costume, talvez isso seja fé. Não ver, mas crer. Não crer, mas viver, ainda assim, mais um dia. E todo dia, um dia de cada vez.
Olhar para o futuro me embaça as vistas e me embrulha as vísceras. Prefiro morar neste dia, nesta choupana triste de olhos claros.
Aqui não cabe nada, além desse amor imenso. Amor de obesidade mórbida, se derrama em sobras dentro de mim. Tão pequena.
Neste corpo quase translúcido, com uma alma cheia de maremotos. Me acostumei, nem abro o guarda-chuva, doei meu para- raios.
Se quiser trazer um acolchoado e deitar-se ao meu lado olhando o impossível, venha.
Se veio plantar espinhos, peço que saia de leve, sem causar estragos. Se crê que eu mereço, aceito as sementes de bom grado. Vou plantar e colher. E quando florescer, pisarei com os pés descalços, que é para sangrar você.
Queria que soubesse apenas, que quando lhe vi chegando, ao longe, imaginei- lhe um raio de sol a sobrepujar as densas nuvens e aplacar um pouco da minha tormenta. Mas vi de longe, devo ter apenas fantasiado. Delírios da loucura a que fui condenada. Mais nada....

Mesmo sem crer, mais um dia. Com um tantico de fé, meu bom dia.
Angel

Inverno

O inverno é estranho.Me deixa melancólica
(Como se eu já não fosse o bastante)
As pessoas pressentem e se achegam amistosas. Querem me salvar de mim.
Mal sabem, eu sobrevivente que sou!
Me falam de um deus que perdi pelo caminho.
Julgam-me por ter seguido só.
As pessoas mal sabem, que no dia em que deixei o deus que haviam me vendido, eu encontrei minha alma e minha fé.
Estes dias cinzas que fazem parte de mim, acontecem também vez ou outra às pessoas. Elas, quando acontece, se apavoram.
Eu, que estou quase que acostumada, sobrevivo.
A dor é suportável, o que paralisa é o medo.
Mas eu sou teimosa feito o Cão, busco o inferno e nele me aqueço.
O frio é estranho...


Angel.

Frases

Fez promessas, mas no final das contas foi embora deixando a porta entreaberta.
Pouco importa, afinal, toda história de amor é contraditória e pela fresta aberta que você deixou um novo amor entrou ...

Angel.


Imagens



Há lugares que são santuários
Lugares onde nosso olhar é uma prece.
Nesses momentos sagrados o milagre está no sorriso
espontâneo que suspira sereno em nossos lábios.
E o paraíso existe para as pessoas que encontram este lugar dentro de si.

Angel..

Cale-se, poeta!

Cale-se, poeta!
Dirija-se aos porões...
Caminhe pelos becos e vielas.
Ninguém quer ler seus longos poemas.
O mundo hoje é feito de flores de uma só pétala. Desfolhe-se.
Ah, e -por favor- tire estes espinhos dos seus versos.

 Não temos tempo para sangrar uma lágrima se quer.
Somos constituídos de certo grau de narcisismo 

e temos acesso a muita informação, 
portanto nos consideramos aptos a tudo.
Porém tudo é urgente. 

Somos alheios a introspecção, a contemplação e as Artes.
Então, poeta, desvie o olhar de nossa passividade idiocrática, t

emos vergonha de expor nossa mudez autoritária.
No entanto, criamos remédios que podem anestesiar seus sentidos. 

Deixá-lo como nós, seres normais.
 Basta conseguir uma receita médica atestando sua inconformidade.
No mais, poeta, solicitamos que evite nossas editoras.

 Temos muitos livros de auto ajuda a imprimir e precisamos enriquecer seus autores.
Sendo só, no presente momento, nos despedimos, 

desejando mais que você é sua poesia se fodam
Atenciosamente
Pessoas Normais.

Angel
C

amamos

Me deitava na escuridão da alma, ainda menina.
E ouvia galopes de sonhos, sem adormecer.
Sabia que era você.
Sempre rondou-me a alma, fez morada em meus pensamentos.
O tempo chicoteava- me feroz, mas nunca você chegava. Vinha seu gosto. Vinha seu cheiro.
Eu, vinho. Lhe esperava com duas taças cheias.
Virou vinagre e azedou-me, busquei-lhe em outros amores. Vãos.
Vãos nas paredes dos quartos de motéis baratos. Por onde eu lhe espiava em delírios enquanto gozava o não prazer de relações vazias.
Até que navegando, sem rosto ou nome, somente poesia você me reconhecia. E veio a mim num barco a remos. Remamos contra marés de estranhezas.
Mesmo assim não nos alcançamos. Afogamos-nos seduzidos por sereias e tritões; tivemos o coração destroçado por tubarões.
Amamos, mas permanecemos a solidão um do outro. 


Angel.

abandono

Na taça suja da noite passada
Restou o champagne, agora quente
Rente a borda
Restou na mesa minha cabeça recostada e minha mente apagada pelo álcool
O corpo pende preso a cabeça vazia de sonhos.
O outro corpo, que dividia comigo a bebida e a noite, se foi.
Há somente ausência fria sobre a cadeira.
Quando despertar deste estado de não-sono, não haverão claras lembranças, apenas o sabor amargando a minha boca, do abandono.

Angel.