sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Minha

Concluo que pertenço a ti
Por dedicar-lhe meu amor.
Mas a verdade é que só posso
Pertencer a mim.
Sendo eu dona das minhas coragens e dos meus medos
Sendo eu quem decide a que ponto de entrega eu chego. 
Sendo só minha a dor de ser quem sou.
Sendo eu Sísifo rolando eternamente a pedra dos meus pecados.

AngelPiai

Dengo

Faço dengo a espera do teu chamego.
Me chama, meu nego.
Me chama que não te nego o meu fervor.
Venha com a doçura e a fúria dos amantes
Me aquece o corpo com o teu calor
Embriaga-me com o cheiro do teu cio
E uivemos juntos nossas juras de amor!

AngelPiai



quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Pluma

A brisa sopra pra longe
nosso breve, frágil e leve amor...
E ficamos, você e eu, encarando o vazio.
Voa pra longe amor, antes que possamos maculá-lo com nossas vigarices e egoísmos...
Voa que seu vôo leve vira poesia e se eterniza nas rimas que não faço.
Porque se até o amor eu liberto, quem dirá os quanto são livres meus versos?

AngelPiai


Parto do poeta

Como nascem os poetas
(Fiz hoje, espero que gostem)

Disseram que quando o poeta nasceu antes de tudo nasceram seus olhos.
Dois olhos imensos, bem abertos, admirados encaravam no mundo. Os olhos do poeta pareciam dispersos a realidade e encantados em seu alinhamento.
Pouco depois nasceram-lhe as orelhas e os ouvidos, podendo ouvir a vida, seus olhos brilharam mais lindos.
O corpo do poeta saiu então, meio sem jeito, tímido, sentindo-se diferente dos outros. O corpo do poeta era quase uma camuflagem a ocultar-lhe o coração. Porque o coração do poeta era imenso. Mais do que isso, era intenso. Tão cheio de cicatrizes que parecia tecido bordado e costurado pedacinho por pedacinho...
Os médicos presentes também estranharam o fato de o poeta nascer sem pele, em carne viva tudo a dia no pobre sonhador.
Por último nasceram-lhe as mãos eram tortuosas e abobalhada inicialmente, pareciam vivas a parte do próprio corpo e estavam ligadas diretamente ao coração, assim como ele, também pulsavam.  E se desenvolveram tímida e tremulamente como o resto do poeta...
Firmeza as mãos só alcançaram quando, depois de letradas, lançaram seus primeiros e ingênuos versos no papel. Eram mãos adolescentes transcrevendo  o primeiro Amor. E foram tantos os amores transcritos que fizeram do poeta um maldito vagando de dor em dor.

AngelPiai



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Criação

No fundo, com afinco
Nunca é o bastante
Nunca chego a artéria principal
Nunca sangro até esvair-me.

Traço minha meta na pele clara
Clareio, assim, meus pesadelos
Há objetivo. Não há medo.

Finco, mas sempre fico na expectativa turva.
Sobre a tela em branco escorre o carmim
E nenhum Dalí conseguiria compor com tamanha preciosidade sua Arte.
A surrealidade da morte em vida. Onde não há morte. Há, apenas, o resgate do que nos torna humanos, da dor, do êxtase, do gozo esborrifado em vermelho vivo sobre a paisagem.
O foco do poeta se funde a faca que faz a tinta donde nascem os poemas mais viscerais.
Tranço letras em tiras num bailado fonético que formam tranças  no cabelo acobreado da menina. Mas vem o vento, este moleque, e insiste em despentea-la.
Então ela ri e joga a cabeça para trás o que me faz esquecer toda poesia mergulhando no verde daqueles olhos. Fico meses perdido nas lonjuras esmeraldas daquele labirinto sem desejo algum de alcançar a saída. Porém ela sussurra: poeta! Ei, poeta!
E eu despencou de volta em mim.
Só então percebo o batom vermelho borrado naqueles lábios entreaberto num sorriso bobo.
Tento me agarrar a realidade em torno.
Já é tarde a poesia rasga-me a carne, explodem versos por minhas veias dilaceradas 
Escrevo com febre e em convulsões, quase em transe e até a exaustão, quando me quedo abatido. Num fiapo de lucidez a que me agarro antes do total esquecimento procuro com os olhos a menina musa e vejo- a partindo levada por uma réstia de vento. Só então, adormeço.

Angel Piai

Colibri

Leve-me leve como um colibri
Na brisa da primavera
De flor em flor
De cor em dor
Levemente perdida
No ar em movimento
Setenta vezes 
Paradigma anti gravidade

Leve-me na levissíma contradição
Que paira entre amar-lhe e odiar-lhe
 Intensamente

leve-me na música
Que se repete
Na areia que gruda na pela
Deite- me contigo
Na cama fria
Nas noites sem luar
E abrace, abrace
Meu corpo ausente

Voe livre
Voe alto
E volte flutuando leve
Minha dor, minha cura
Vá, mas leve-me

@ direitos reservados
Angel Piai

Desilusão

Eu queimo, mas sem febre
Sofro de uma agonia crônica
É psíquica, porém fere fisicamente
Por isso, sangro
Meu corpo arde. Sou incêndio.
As lágrimas tentam aplacar a chama que me consome. Nunca são o bastante.
E está solidão imensa e intensa feito um cão feroz me devora aos bocados.
Pouco sobra de são. Vísceras, ossos, carnes, alma....tudo condenado a uma execrável existência, a podridão mundana, aos vermes rastejantes.
Este amor, afinal, morre comigo. Ele, maldito veneno que me infectou de forma lancinante. Hoje adormeço a dor, adormeço eu, morre a poesia.

Angel Piai
@direito reservado



quinta-feira, 27 de julho de 2017

Foto

Eu perguntei: e agora, José?
E não é que um José respondeu! 
"Guardei pra você, parece um  ótimo lugar pra ser feliz!"
Sabe, olhar e ver um "lugar de ser feliz", me embelezou o coração. 
Há, porém, (eu sei) dentro das casas dores, privações e tristezas.
Mas, talvez porque precise de férias, deste senso de realidade aguçado que me adoece, eu decidi observar o macro; a imagem com as suas cores e seu aconchego. 
Decidi ser a que está lá com o vento nos cabelos e o sol sobre a pele, em completo silêncio. Em plena sintonia com o belo, com o sagrado, com a poesia...

Angel

Obrigada José Carlos Boudoux-silva


Vida

O sopro da vida 
breve instante
que abraçamos
insistentes.
Ele flui
apesar dos medos
apesar dos relógios
apesar dos pesares...
Nunca constante.
Sempre ciclíco.
A chama de uma vela,
um breve sopro e
a eterna escuridão.
Ou não...

Angel



quarta-feira, 26 de julho de 2017

Temporal

Estava segura sob o céu azul
Mas sou tempestade
Sou redemoinho...
Reviro o mundo, por onde passo.
Ninguém me quer 
Só causo estrago...

Mas eu vento, eu vento
Eu furacão...

Angel


Cansei

Cansei de andar por aí feito louca, vou voar.
Abrir minhas asas de águia e ir além. 
Olhar o mundo com outro olhar .
Enxergar o que daqui do chão não posso ver.
Preciso alçar vôo, rumar pra outras terras, respirar outros ares...
Quero cruzar oceanos, mergulhar. 
Não posso mais ficar parada olhando pro nada.
Me sinto cansada...
Libertem-me das gaiolas. Arranquem-me as correntes. Deixem minhas asas crescerem novamente.. 
Vou visitar todos os continentes. Talvez ir mais longe, pra outros planetas, visitar estrelas e caçar cometas...
Não me segurem, já não pertenço mais a este lugar... Vou debandar!

Angel



Frase

Abraça-me como se as noites fossem sempre estreladas e beija-me como se as nuvens fossem feitas de algodão... Doces!

Angel

Temporal

A poesia pulsa 
enquanto sangro
versos perdidos. 
Fala mais o vento 
sobre mim do que
 toda primavera.
Me faço verbo
e sou diante do perecer.
Sopro meus sonhos dentre o bambuzal
que geme minha dor...
Assim vou, desintegrada,
feita das saudades mais doídas.
Quem sabe as flores me abracem?
Névoa e caos caem
Sobre meus olhos
Mar remoto
Maremotos...
Névoa e caos, 
enquanto arquejo
num arco-íris...
Chuvisco lágrimas
é só então me lembro
Que deixei o para-raios
em casa...

Angel



Frases

Sou viúva de amores mortos.
Restos torpes de paixões sanguínolentas.
Haverá vida após a morte?
Oremos todos  pelo vazio.

Angel

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Puta

A puta que nos pariu
A puta que somos agora...

Senhora, silêncio: não goza​.
Faça versos rimados, não prosa. 
Seja prece, não reza.

Senhora, fique calada.
Ou de louca será tachada
Mede o tamanho da saia
Ou será devidamente estuprada

Senhora, não ande sozinha
Vamos pensar que você é galinha
E não estude demais. Talvez
Os homens não lhe queiram mais.

A puta da televisão
A gostosa da vizinha
A biscate do mercadinho
A menina que é galinha
A quenga lá da esquina
A vaca que lhe xingou
A sapatão feminista
A chata que não te aceitou
A frigida que disse não
a bêbada que você uso
A adolescente safadinha
A gorda que você gozou
A negra objeto

Todas elas são culpadas
Todas putas que somos agora
Filhas das putas que nos pariram
Tão putas quanto a que pariu você
Tão putas quanto as que pariram seus filhos e sobrinhos.
Culpa da puta vagina que nos estgmatiza, nos condena, nos martiriza...

Angel


Selvagem

Pra que eu silenciaria minha alma selvagem?
Corro em direção aos meus medos gritando e agitando os braços a fim de afugentá-los...
E eles voam feito corvos no milharal porque temem quem se expõe com ousadia.
Observo o brotar das sementes que plantei feito mãe zelosa olhando o filho que adormece.
Alimento meus sonhos com os grãos que colho com minhas próprias mãos. Por isso, elas são ásperas e eu livre.

Angel


Pesadelo

Sigo pelas portas estreitas 
Desvendando os labirintos
do meu inconsciente.
Há escadas imperfeitas e
pontes suspeitas sobre as
quais devo Passar.
Ultrapasso medos variados
que meus lábios, não querem confessar.
Vou, sobre mares e rios enlodaçados,
tropega, temerosa, turbulenta...
Mordem-me serpentes sem me envenenarem.
Sonhos recorrentes. 

Angel.


Frases

Quase morro poema nos degraus de uma escada.
Quase morro num tropeção idiota  num buraco qualquer.
Sempre por perto, rindo de mim, a morte.

Angel

Abuso

Eles entraram na minha vida de mansinho.
Eles não pediram licença. Nunca se desculparam também.
Quando vieram tinham as mão sujas e elas profanaram a alvura dos meus lençóis e das fronhas sobre meus travesseiros.
Eu tinha sonhos então, era menina. Eles, monstros.
Quando saiam satisfeitos deixavam o rastro de  lodo espalhado por meu quarto, por meus brinquedos, pela minha infância.
Ninguém ouviu meu grito, já que nunca gritei.
Nem enxugaram minhas lágrimas, pois escondido chorei.
E fiquei tão boa em esconder que escondi dentro de mim as lembranças, tão fundo, tão fundo, que só as sei por minhas neuroses.
(Neuroses não são boas em guardar segredos)
As meninas aprendem o silêncio com a dor. Maldrasta de todo abuso. Amante do abusador.
Com os fiapos de cabelo que arranco, desde pequena (com estes fiapos invisíveis que nunca arranquei) tranço o açoite com que me castigo pela culpa que sempre carreguei.
Carregava no bolso da calça, na mochila até a sala de aula... Agora, carrego na alma.
Eles entraram e saíram. Entraram e saíram.
Eu sangrei.

Angel



quarta-feira, 19 de julho de 2017

Anjo

Ajoelho-me no chão frio
onde plantei o medo
e abraço a fé que perdi.
Há marés turbulenta
inundado meus olhos.
Minha prece nunca foi dita
nasce de mim e em mim,
não morre.
Nenhum deus foi glorificado...
As palavras saem em verso.
As palavras são poesia...
As canto baixinho no vão 
da madrugada...
Meu corpo treme,
minha alma teme,
meu coração sussurra...
O tempo não existe, é silêncio!
Então, ele vem. Ele é Luz.
Não olho, mas vejo-o.
Sinto-o intensamente,
quando me abraça e
sopra seu fôlego puro
no meu ouvido:
"não tema!"
A luz se vai aos poucos.
Só, na escuridão, estou.
Deito-me, mais calma, 
mas ainda choro...
Então, adormeço.

Angel.


Crônica de mim

Mãos que me deitaram no asfalto quente, com a suavidade de uma doença silenciosa destruindo um organismo aparentemente saudável. Nem uma ferida, nem um gemido.
Toque e calor. Submissão e quietude.
Na nuca o metal frio. O estampido veio ensurdecedor. E vi o mundo e a vida
passando em câmera lenta.
Um caleidoscópio cristalizou-se na minha retina e não senti medo da morte, aquele anjo belo e quente que tocava minha alma...
Pensei, ele a levará...tudo findou.
Horas depois, acordei.Era menina, ainda.
 Estava em minha cama, ao lado dos meus irmãos...
Irônico, mais de trinta e tantos anos depois, eu ter essa dor na nuca bem onde o estranho encostou a arma e me acertou. Esquisito lembrar do sonho? Nem tanto, ele foi tão vívido que falei e escrevi sobre ele diversas vezes.
Pena não ter mais meus diários....

Angel

#cronicaterapia001



terça-feira, 18 de julho de 2017

Frases

Peço licença para invadir-te sem decência.
Meu desejo não aprende a ser contido.
E contigo quero estar a vida toda 
mesmo que isso dure o eterno desta hora....

Angel.


Amor

Eu queria te amar livremente na beira da noite, entre a realidade e os sonhos.
Ainda insone e alerta deslumbrada apenas com os teus beijos.
Liberta dos medos infantis que não abandonei a medida que envelhecia
Escrevo estes versos mal traçados em meio ao caos do trânsito, ao lado de um outro alguém que me conforta, mas não desperta os sentimentos que por ti tenho.
Sou uma covarde com medo da vida, com medo do amor irresponsável....
Mas que posso fazer se me abati tantas vezes nos descaminhos traçados?
Te vejo saindo da minha vida. Quero gritar teu nome, pedir que fique...Não ouso. 

Angel




Você

Só existe você neste brado ecoando por todo meu eu.
Existe você e essa sua ausência agonizante.
Há versos mudos ululando entre nós feito aves carnívoras.
Elas bicam meus olhos enquanto choro.
Tremo o frio da saudade de seu corpo contra o meu.
A solidão urra feito loba no cio e eu lhe chamo na madrugada entre sonhos e delirios febris.
Você nunca vem. Ouve, mas não volta.
Escuta, porém não se importa.
Louca imagino-lhe:
 Cobre-me com seus beijos, 
aquece-me com suas carícias, 
faz-me gozar em meu desejo...
A loucura me leva a você sabendo-lhe inexistência...

Angel



Morte

Quero escrever, mas a morte berra pela minha boca e eu não quero dar voz a ela.
Meu hálito azedo da bebedeira na noite anterior também não ajuda eu fingir ser humana.
Não tive coragem de viver todos amores que senti. Todavia amei loucamente e me apaixonei perdidamente por muitas vezes.
Obviamente quebrei a cara pra caralho...
Eu não gosto nada da sensação de perda. No entanto, vivo.me apaixonando de novo. 
Ás vezes, por mais de uma pessoa ao mesmo tempo. E todos os caras se acham o melhor....
Não me importo com esta merda toda. Ou me importo demais, sei lá.
Sempre tive um monte de caras balançando seus paus duros na minha cara desde menina e meio que me viciei nisso. Me sentir um lixo é melhor que me sentir um nada.
(Gosto de fazer textos longos que poucas pessoas lêem...)
Também não sou essa desgraça, tenho coisas valiosas na minha vida. Coisas que conquistei e que pouca gente se quer sente o cheiro durante a existência toda.
Mas não sei. Sou meio estragada por dentro e faço muita força pra não ferrar tudo. Então, assim que acender a luz e sair deste quarto, vou escovar os dentes e sorrir.


A menina do poeta

Serelepe bebe  café e masca chicletes
enquanto se derrete lendo histórias de amor
na internet...
Calça ALL star em qualquer ocasião
Bebê Coca cola no canudo dizendo que faz bem à digestão
Menina maluca que vive no mundo da lua
com pés descalços no chão levando todos os sonhos trançados no coração.
Menina que canta  noite e  dia
trazendo alegria por onde passa..
Que desafina, mas canta
pois gosta de contrariar a tristeza
que vive querendo por mesa
Faceira Menina que  encanta a vizinhança
com seu jeito traquina, que corre moleque 
a beira do precipício levando poemas 
nas mãos.
Desajeitada Menina que sempre tropeça 
em delírios derrubando o que trazia
mistura, então  música e rima espalhando poesias na canção.
 Menina que caminha deixando um rastro de luz por onde passa feito rastro de estrelas na escuridão, mas que descompassa o coração do velho poeta, pois enquanto passa ultrapassa os limites entre a terra e o céu, entre o amargo e o mel, entre o você e o eu.

Angel




.

Carn'anal

Encarecidamente rogo
aos donos das verdades
aos perfeitamente sãos
aos inabaláveis
que sigam sua estrada
convictos e seguros.
Afastem-se de nós 
os que estão em dúvidas
os enlouquecidos
os que se perdem pelo caminho.
Deixem-nos para trás 
Deixem-nos dançando sem música
Deixem-nos em paz
dentro de nossa luta.
Sei que cansamos vocês
os perfeitos
os absolutos
os centrados, mas
abrimos caminho
saímos da frente
lhes deixamos passar... Sigam!
Vago vagamente perdida
deixai-me tatear já que
reconheço minha cegueira
minha ignorância
minha completa falta de bom senso.
Minha poesia não é
perfeita em sua Língua
rimada em sua trova
literalmente prosa?
Sinto muito, seguem minhas lágrimas
dobradas no guardanapo sujo do bar
presas no vão da mesa
perdidas na almofada do sofá
Seguem também as desculpas
que eu mal digo, sendo maldita.
Nós, os perdidos.
os poetas que se rasgam
em alma e carne
Nós, os carn'almas, delirantes
que vomitamos versos...Os nojentos!
Os que repugnamos sua finésse poética...
Deixai-nos para trás. 
Não necessitamos de medalhas
não desejamos honrarias
não ansiamos pela sua aprovação
(linguística, moral, intelectual)
A poesia ampara nossas vísceras
nos salva da insanidade completa
nos humaniza, nos salva.
Por isso e para isso somos poetas.
porque a pétala nos fala
tanto quando o espinho
porque às vezes, sangramos na flor...
Deixai-nos aqui
mesquinhos, pequenos, delirantes
e afastem-se vestidos com a toga do saber
absoluto.
Nós ficaremos aqui vendo os vermes
roerem as carnes das carcaças
que nem os abultres, nem as hienas
quiseram provar.
Já é tarde demais para nós,
 os malditos...

Angel

*Na foto Puna Baush


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Janela

A janela ficou aberta a noite toda, 
a vida inteira.
Vi, através dela, o tempo fluir. 
Ventos, temporais, calor ardente, insetos sanguinários e amores violentos entraram e saíram por ali.
A bela tintura perdeu a cor, descascou-se. 
Vi a deterioração do belo. Passiva.
Hoje me levantei da cama, caminhei
em direção a claridade matinal.
Hoje, num ataque de fúria, fechei a janela.
Tranquei-me aqui onde não há luz.
Quero habitar a escuridão que me habita.
Serena...

Angel

Noite do desencontro

A noite do nosso desencontro 

Eu saio de casa para não lhe encontrar.
Marcamos de nos desver na praça central.
Saia preta pregueada rodada como eu em você
Enrendamos uma trama, maior é o drama a nos envolver.
O descompasso dos nossos passos, nem AllStar azul poderia prever.
A meia noite nos desencontramos com a lua cheia de eu em você.
No beijo que nós não damos mais do que saliva trocamos. Somos tão demodê...
Sem dentes mordemo-nos os lábios. Vamos nos beber. Seu sangue o meu envenena e eu enveneno você.
Despido de todo pecado corremos pelados pela multidão. 
Uivamos apaixonados para um astro cheio do nosso tesão.
Fazemos amor feito bicho, no meio do mato, deitados no chão.
E eu volto para casa envolvida nos frios braços da solidão.

De: Angel

Dedilhar

Nos meus dedos o cheiro da noite que sonhei contigo 
Nos meus dedos o agridoce do prazer fingido.
Nos dedos meu gosto como se fosse teu.
Um delírio de imaginação poderosa que resulta no gozo estupendo.
Uma noite de amor bem louca desejando o amado meu.
Me cheiro, farejando-te.
Teu gosto, consumindo-me.
Êxtase das mãos estremecendo-me

Angel.

Você

Sinto-me na rua
Sinto-me nas pessoas que passam
Saio-me de mim e vou...
Penetro nas almas e construo versos.
Meus versos falam dou meu eu, 
mas comunicam-se com o mundo.
Transcendo o meu sentir, 
atinjo o universal.
A poesia que faço é alteridade. 
Poesia é um ente vivo e latejante
no seio de uma sociedade torpe.
Rasteja solene a margem.
Silenciosamente berra, arranha.
Sinto-me no espírito dessa gente toda.
Sinto-me nas pessoas que já passaram,
que se foram há tempos.
Saio da zona de conforto
rasgo-me ao meio e cicatrizo poesias.
A poesia que vejo nas ruas, escrevo.

Angel

Conexão

Sinto-me na rua
Sinto-me nas pessoas que passam
Saio-me de mim e vou...
Penetro nas almas e construo versos.
Meus versos falam dou meu eu, 
mas comunicam-se com o mundo.
Transcendo o meu sentir, 
atinjo o universal.
A poesia que faço é alteridade. 
Poesia é um ente vivo e latejante
no seio de uma sociedade torpe.
Rasteja solene a margem.
Silenciosamente berra, arranha.
Sinto-me no espírito dessa gente toda.
Sinto-me nas pessoas que já passaram,
que se foram há tempos.
Saio da zona de conforto
rasgo-me ao meio e cicatrizo poesias.
A poesia que vejo nas ruas, escrevo.

Angel
Foto: 

Nuvens

De menina brincava 
que as nuvens eram doces
que a lua era mágica
que o sol era habitável...
E a noite eu esperava
deitada num telhado
que seres de outro mundo
me levassem... 
Eu olhei para o céu com fé
a vida toda... 
E o céu nunca olhou para mim.
Mas nós já choramos juntos,
algumas vezes.
E trovoamos muitas tempestades.
Deito-me na terra, minha mãe.
E olho para o céu, meu pai
Há ainda há  um pouco da menina em mim...
Um pouco da sonhadora romântica a desejar o gosto de nuvens algodão doce.
Ainda há em mim as tempestades
Ainda me habitam algumas esperanças...

Angel

Foto de Jorge Queiroz

Trevas

Sempre há de parecer certo sucumbir aos desejos insanos de meu coração. 
Tarde da noite trafego insone a procura de inspiração. 
A rasgo a dentadas nas madrugadas em busca de essências.
Não oro, nem choro, mas me corto. A dor que se parte reparte-me entre sentires que viram sangue e de sangue vertem versos. 
Se houver condenação que seja pela vírgula mal colocada separando verbo e sujeito.
Mas nunca me condene por me sujeitar ao verbo.  
Já que cavalgo tão solitária entre as brumas deixa-me delirar... Deixa-me delirar e despencar suavemente neste abismo que eu sou...

Angel

Dor

Meu pescoço tem uma cicatriz
Eu amo minha cicatriz
Meu ventre tem cicatrizes
Eu amo os frutos dele
Me cortaram muitas vezes
Me feriram sem precisar
Amo minhas feridas
Há agora, na nuca,
Uma dor constante
Que oscila, entre o suportável
e o insuportável
Não amo a minha dor, mas
Quase entendo que a mereço.
Nunca dei um sorriso a menos
Por conta da minha dor
Nunca disse "agora não posso te ouvir"
Por conta da minha dor
Nunca faltei do trabalho
Por conta da minha dor.
Eu a levo comigo
No olhar, na poesia, no amor 
Que trago no meu peito.
Eu me respeito por isso

Angel.

Leve

Eu quase voei...
Quase!
Eu flutuei e vaguei
longe do meu corpo,
pleno espírito.
Fui leve como folha levada 
pelo vento outonal...
Fui leve!
Mas voltei, tinha que estar aqui.
Por isso, fiquei.

Angel

Foto: Jorge Queiroz

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Números

Agora que eu descobri que sou m número não quero mais sentir.
Agora que me descobri um rótulo não procuro mais que existir.
Antes não, antes eu vivia. Abraçava as manhãs como quem abraça a saudade quando ela volta.
Antes eu corria pelas tardes como as gazelas pelas savanas.
Antes eu não deitava para dormir, me deitava para sonhar..
Hoje sou uma sequencia numérica. E ela diz: quem sou; o que posso; até onde ir; quando voltar; o quanto pertenço...
Sem ela, embora eu caminhe, ame, viva...eu não existo.
O número, esse sim metáfora do não existir, vale mais que meu eu físico, psíquico, espiritual.
Ele, mudo, fala mais lato que eu....música.
Pessoas longínquas, quase de outras dimensões decidem, através de gráficos e proporção, os destinos, as vidas..
Valores são números, não mais que isso.
Perdeu-se o correr descalça, a pular na poça de lama, o riso escancarado.
Sorrio discreta com dentes enjaulados. Afinal, tudo tem que estar simetricamente alinhado.
Sequencial. Produção em série. Vou. Vamos.
Proíbem-nos de decidir não fazer parte. É contra lei (da vida, dos homens, de um deus).
Então, caibamos na forma. Mesmo que ela nos deforme.
Então que o ferro em brasa nos marque a carne, no enumere.
Anulemos convenientemente a inconveniência questionadora, a curiosidade e a criatividade.
Para que o Império do número reine absoluto,
Para que a ditadura dos rótulos seja soberana,
Faz-se fundamental que se mate a Arte.

Angel

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Curto



O amor candeia-se em ritmos 
que bailamos enlouquecidos.
Parceiros na valsa da vida
não desafinamos uma só nota,
desafiamos todas as apostas
E deixamos a música levar...

Angel

Curto


Cai a noite de leve
Levando as luzes
Criando as sombras
Sopro vida
Supero instantes
S o b r e v i v e n t e
Vago sombria
Na imensidão
Que sou.

Angel

Curtos

Baila perigosamente pela vida, menina!
É teu (des)equilíbrio que mantém a órbita dos planetas.
Sede o que és e, a partir daí, transborda o mundo...

Angel

terça-feira, 20 de junho de 2017

Canção




O vento que sopra
Arrepia meu pêlos
Amo o vendaval que desalinha
minha vida e o meu cabelo
Minha história é
Feita de tempestades 

Meu desencanto é canto
Espalhando pelos quatro cantos
Desta cidade 
Se lhe causa espanto
A minha  liberdade
Só lhe peço respeito
Me dê uma chance

Afinal,
A vida é romance
Etecetera e tal
Amor é freelance
Mas me entrego total
Não estrague meu lance
Com sua falsa moral

Essa ventania que invade meus dias
E me leva a todos os lugares
Procurando um caso de amor
em todos os bares...
Mas ao final da noite, 
Na madrugada fria
Eu sempre acordo em sua companhia.

Será que todo este tesão é amor?
Será que todo este tesão já virou amor?

O vento que sopra
Sopra a liberdade
E eu quero amar você
 em todo canto
Desta cidade
Atravessar a rua
Beijando-lhe a boca
Quero dar de louca
E jantar você....

Afinal,
A vida é romance
Etecetera e tal
Amor é freelance
Mas me entrego total.

Será que todo este tesão já virou amor?
Será que minha confusão já amou você?

Angel.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Musa





Durante dias o poeta
procurou a Musa
Pelos bares da cidade
Pelos bosques ao redor
Pelos becos isolados
Pelos campos, por serrados

O poeta ficou rouco
De tanto chamar
Chamaram-no de louco
Vendo-o na rua a berrar

Bebeu o poeta
Da jarra de vinho
E bêbado de desejo
Tropeçou em versos não ditos

Não feliz, o poeta
Se entorpecer de absinto
Sedento de poesia
Participou de orgias

Quase nunca dormia
A não ser quando caia
Desmaiado n'alguma sarjeta

A Musa não se apiedou
Do desgraçado poeta 
Que pelas ruas vagou
Uma figura decrépita 

Riam dele as moças,
Desdenhavam-lhe os letrados,
As velhas carolas se benziam
Quando o ouviam recitar versos
na escadaria da igreja.
"Bêbado" "Tarado"
De tudo era tachado, mas
De poeta ele nunca foi chamado.

Numa noite de chuva forte
Encontrou a sua sorte
Ao cruzar uma avenida...
Então nos braços da musa
o poeta despertou.
No paraíso dos versos, 
seu corpo descansou.

Angel

Elvis



Sonhei com você, meu amor
Finalmente íamos nos casar
Eu, você e Elvis Presley
Estávamos juntos num altar
Muitas luzes, muito rock
Beijamos-nos finalmente
Ao som de love me tender
 Fomos prum motel barato
Transamos antes de chegar no quarto
No quartinho de limpeza
Me fez gozar sobre a mesa
No dia seguinte, de ressaca
Passeamos de mãos dadas
Quietos, eu estava mal humorada...
Mas, caminhavamos levando
um isqueiro descarregado,
pouco mais que dez trocados,
enormes e bobos 
sorrisos nos lábios
e corações apaixonados.
....

Angel.

Amor

Sento-me, cruzo as pernas a sua espera. 
Comportada feito menina, meus dedos brincam com o bordado da saia.
Olho de soslaio o Tempo que corre moleque e ri de mim. Até que me irrito e corro atrás dele. 
Desfaço o penteado, Borro a maquiagem, rasgo a saia num galho onde trepo. 
Gargalho do vento que leva a pipa, solto alguns palavrões, mergulho na vida.
O Tempo, travesso, me enche de cicatrizes. 
Eu corro. Eu rio. Eu brinco...
Invento-me guerreira. Pinto-me sonhos. Corto-me desilusões. 
E sigo. Sigo em frente...
Passam-se estações, pessoas, histórias. Eu planto sorrisos e colho saudades, por isso choro. 
Minhas lágrimas o Tempo recolhe em sua ampulheta e bebe....
Você chega de repente. Nos reconhecemos silenciosos. Há em nós aquele amor dormente, que explode intensidades. 
Não sou mais a menina recatada, delicada, que lhe esperou. Agora estou desgrenhada pelo vento, pelo tempo... Mas você me vê e sorri. Percebo no sorriso a ternura e respondo sorriso.
Nos abraçamos e olhamos o Tempo correndo ao longe. Ele agora é eternidade...

Angel

Angel

Janela

A janela ficou aberta a noite toda, 
a vida inteira.
Vi, através dela, o tempo fluir. 
Ventos, temporais, calor ardente, insetos sanguinários e amores violentos entraram e saíram por ali.
A bela tintura perdeu a cor, descascou-se. 
Vi a deterioração do belo. Passiva.
Hoje me levantei da cama, caminhei
em direção a claridade matinal.
Hoje, num ataque de fúria, fechei a janela.
Tranquei-me aqui onde não há luz.
Quero habitar a escuridão que me habita.
Serena...

Angel

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Fiz

Fiz versos para os teus sonhos
Fotografas-tes meus medos
Nus de corpo. Nus de alma.
Entre nossos corpos, nenhum segredo.
A Arte envolvendo-nos feito lençol,
aquecendo-nos contra o inverno que assola a humanidade.
Dois profanos contra a castidade.
Amantes confessos contra a hipocrisia.
Gozaríamos poesia.

Angel

Rimas

Não sei rimar seus ciúmes com a minha instabilidade. Não gosto de versos que rimam, de qualquer forma. Soam forçados.
A toa a vida nasce todos os dias, alguns a chamam milagre. Desconverso por conta do sono que não veio durante a noite e atou-se aos meus pés de manhã. Desconverso, embora descreia, já há muito, em milagres.
Apesar de descrente, levanto da cama todo dia e sorrio. Talvez seja costume, talvez isso seja fé. Não ver, mas crer. Não crer, mas viver, ainda assim, mais um dia. E todo dia, um dia de cada vez.
Olhar para o futuro me embaça as vistas e me embrulha as vísceras. Prefiro morar neste dia, nesta choupana triste de olhos claros.
Aqui não cabe nada, além desse amor imenso. Amor de obesidade mórbida, se derrama em sobras dentro de mim. Tão pequena.
Neste corpo quase translúcido, com uma alma cheia de maremotos. Me acostumei, nem abro o guarda-chuva, doei meu para- raios.
Se quiser trazer um acolchoado e deitar-se ao meu lado olhando o impossível, venha.
Se veio plantar espinhos, peço que saia de leve, sem causar estragos. Se crê que eu mereço, aceito as sementes de bom grado. Vou plantar e colher. E quando florescer, pisarei com os pés descalços, que é para sangrar você.
Queria que soubesse apenas, que quando lhe vi chegando, ao longe, imaginei- lhe um raio de sol a sobrepujar as densas nuvens e aplacar um pouco da minha tormenta. Mas vi de longe, devo ter apenas fantasiado. Delírios da loucura a que fui condenada. Mais nada....

Mesmo sem crer, mais um dia. Com um tantico de fé, meu bom dia.
Angel

Inverno

O inverno é estranho.Me deixa melancólica
(Como se eu já não fosse o bastante)
As pessoas pressentem e se achegam amistosas. Querem me salvar de mim.
Mal sabem, eu sobrevivente que sou!
Me falam de um deus que perdi pelo caminho.
Julgam-me por ter seguido só.
As pessoas mal sabem, que no dia em que deixei o deus que haviam me vendido, eu encontrei minha alma e minha fé.
Estes dias cinzas que fazem parte de mim, acontecem também vez ou outra às pessoas. Elas, quando acontece, se apavoram.
Eu, que estou quase que acostumada, sobrevivo.
A dor é suportável, o que paralisa é o medo.
Mas eu sou teimosa feito o Cão, busco o inferno e nele me aqueço.
O frio é estranho...


Angel.

Frases

Fez promessas, mas no final das contas foi embora deixando a porta entreaberta.
Pouco importa, afinal, toda história de amor é contraditória e pela fresta aberta que você deixou um novo amor entrou ...

Angel.


Imagens



Há lugares que são santuários
Lugares onde nosso olhar é uma prece.
Nesses momentos sagrados o milagre está no sorriso
espontâneo que suspira sereno em nossos lábios.
E o paraíso existe para as pessoas que encontram este lugar dentro de si.

Angel..

Cale-se, poeta!

Cale-se, poeta!
Dirija-se aos porões...
Caminhe pelos becos e vielas.
Ninguém quer ler seus longos poemas.
O mundo hoje é feito de flores de uma só pétala. Desfolhe-se.
Ah, e -por favor- tire estes espinhos dos seus versos.

 Não temos tempo para sangrar uma lágrima se quer.
Somos constituídos de certo grau de narcisismo 

e temos acesso a muita informação, 
portanto nos consideramos aptos a tudo.
Porém tudo é urgente. 

Somos alheios a introspecção, a contemplação e as Artes.
Então, poeta, desvie o olhar de nossa passividade idiocrática, t

emos vergonha de expor nossa mudez autoritária.
No entanto, criamos remédios que podem anestesiar seus sentidos. 

Deixá-lo como nós, seres normais.
 Basta conseguir uma receita médica atestando sua inconformidade.
No mais, poeta, solicitamos que evite nossas editoras.

 Temos muitos livros de auto ajuda a imprimir e precisamos enriquecer seus autores.
Sendo só, no presente momento, nos despedimos, 

desejando mais que você é sua poesia se fodam
Atenciosamente
Pessoas Normais.

Angel
C

amamos

Me deitava na escuridão da alma, ainda menina.
E ouvia galopes de sonhos, sem adormecer.
Sabia que era você.
Sempre rondou-me a alma, fez morada em meus pensamentos.
O tempo chicoteava- me feroz, mas nunca você chegava. Vinha seu gosto. Vinha seu cheiro.
Eu, vinho. Lhe esperava com duas taças cheias.
Virou vinagre e azedou-me, busquei-lhe em outros amores. Vãos.
Vãos nas paredes dos quartos de motéis baratos. Por onde eu lhe espiava em delírios enquanto gozava o não prazer de relações vazias.
Até que navegando, sem rosto ou nome, somente poesia você me reconhecia. E veio a mim num barco a remos. Remamos contra marés de estranhezas.
Mesmo assim não nos alcançamos. Afogamos-nos seduzidos por sereias e tritões; tivemos o coração destroçado por tubarões.
Amamos, mas permanecemos a solidão um do outro. 


Angel.

abandono

Na taça suja da noite passada
Restou o champagne, agora quente
Rente a borda
Restou na mesa minha cabeça recostada e minha mente apagada pelo álcool
O corpo pende preso a cabeça vazia de sonhos.
O outro corpo, que dividia comigo a bebida e a noite, se foi.
Há somente ausência fria sobre a cadeira.
Quando despertar deste estado de não-sono, não haverão claras lembranças, apenas o sabor amargando a minha boca, do abandono.

Angel.

Evoés

Evoés, poetas. Eu brindo...
a sutileza da beleza do simples de Manoel;
a nobreza de Drummond
aos suspiros doces de Cecilia
aos que passarinhos em Quintana
a melancolia suicida de Woolf
a ousadia salmoura de Hilst
ao escárnio profético de Buck
a riqueza polipoética de Pessoa
a enxada cavando versos em áridos Corações do Patativa
a putaria apaixonada e delirante de Vinicius musicada por Jobim e cantada por Chico
a versada ousadia de Florbela a espancar a esperança
as palavras romantizando o sexo em Neruda
Aos vermes que nos devoram de Anjos enquanto os Corvos de Poe - absortos absolutos, nos espreitam a carne podre.
Faço uma bacanal na esquina regado de poetas fumando versos, bebendo poesias. Num brinde a Musa erguem a taça Mikaela, diva dos versos gritantes entre Barphomeu e Afrodite, com a heteronímia estética de Caballero e a sedução requintada de Giar.
Feito ninfas incendiárias, nuas, cruas, perdigueiras, dançam em volta da fogueira; Baunilha, Valéria e Luciana.
Num canto próximo, não calados, estão anjos do subúrbio, instrumentados. Góes urbano, caótico, desprovido do pecado do não ser. Alexandre, verso-sangue, verso-bala, poesia- facada. E Rua poesia e prosa sobrevivente das guerras da vida. Naldo e Erick misteriosos, sedutores doces e arredios.
Noutro canto observo calada as não bem comportadas. Líria Porto e Lázara poetas politizadas armando alguma parada com a misteriosa Rubilar.
Carregando tochas e gritando louvores a baco vem Moraes, louco sensato. Elizário versado generoso a espalhar sua simpatia aos pares poéticos. Jordão, Raul e Manoel rindo ricos em ironia e sarcasmos textualizando contemporaneidade líricas.
No culto fértil à poesia as Musas reverenciadas extasiam e seduzem os poetas, cada vez mais se achegam num vinculo virtual em prol a arte, profanando a mesmice, estuprando a moralidade hipócrita. Eis, os poetas do hoje. Evoenos, grita Góes! Evoemos, brindamos nós!


Angel

Corpos

Puxa meu corpo contra o teu
Preciso sentir teu calor
Rasga minha roupa, não há tempo para cerimônias.
Nosso amor tem fome de carne exposta.
Morda-me, pois hei de sangrar e beberás de mim.
Seremos então eternidade.
Tu, senhor absoluto, das trevas que me habitam.
Cheira minha carne quente. Excita -te ouvindo o meu coração batendo acelerado. Meu medo endurecendo teu membro.
Eu sinto teu desejo e tremo vadia, querendo.
Não diga nada, apenas exponha tua vontade. 

De joelhos no chão minha boca abocanha-te inteiro. 
Gruda as mãos no meu cabelo e geme, me deixa assim molhada, ajoelhada em puro êxtase e resignação na busca do teu gozo.
Senhor de mim, governa-me sem piedade. 

Me toma abruptamente postando-me de quatro, fincando-me fundo o mastro que há pouco eu sorvia com gosto. Balbucio um protesto prazeroso...
E enquanto estalam os teus tapas no meu lombo, cavalga-me.
Galopamos profanos o prazer absoluto da entrega sem pudores até que gozo escandalosa regada por teu leite, nosso deleite termina com corpos extenuados abraçados ao amor frente a lareira.


Angel

internet

A personagem navega na rede,
prepara o bote. Esmaga e engole.
Não é Eva, culpada.
Não é Madalena, arrependida.
Não é Maria, imaculada.
É Lilith, a liberta.

Angel.

Noite

Anoitece na alma menina que há pouco corria traquina .
Perdem-se seus versos como o dia perde a luz.
E ela, ser mutante, caminha, ainda descalça.
Suas tranças se desfazem com a ventania que chega.
Furações devoradores de corações de meninas.
Mas ela segue. Teme, mas vai. Treme, mas vai.
Há pedras no meio do caminho.
Há lobos e caçadores.
Esperanças? Estas não se acham. Todas perdidas.
Pés que sangram viram asas.
Mãos que escrevem viram asas.
E voam poesia.
Escurece na alma da menina e ela se perde na escuridão.
Ninguém gosta das meninas perdidas.
Ninguém liga para as garotas que se prostituem poesia em troca de versos.
Preces confusas sobre liberdade são murmuradas nos delírios febris da madrugada,

 mas Deus não ouve os poetas.
Desce a Musa, feito anjo, feito luz e sussurra.
A menina febrilmente rabisca mediúnica.
Só assim, amanhece.


Angel.

faca

Se você cortar minhas asas
Se você cortar, vou sangrar.
Minhas asas são feitas de carne crua e cheia de veias .
Se você tolher minha liberdade
Se me tolher, eu vou sangrar
Minha liberdade é cheia de vísceras
e defeca atrás da moita.
Uivo nas noites de luas cheias e persigo ilusões como os cães perseguem rodas de carros.
Ainda tenho marca da corrente no pescoço, mas fugi. Minha alma nunca foi domesticada..
Se você me cortar eu sangro. Mas se não o fizer, eu mesma farei porque é muito tarde para se falar de amor.
Falemos da rima, inexata, gravada pelo fio da navalha.
"Sempre é tarde" estava escrito em minha coleira. Na coleira que rompi na força de um grito agudo, mudo e sobretudo ensurdecedor.

Angel

sopro




Espero teu sopro leve em minha nuca. Arrepio-me vagabunda. Sinto teu calor recostando no meu corpo em chamas. E sinto teu desejo crescendo sob a roupa. Viro-me e nossos olhos desafiam-se antes do beijo. Devoramo-nos promíscuos. Nus, então, nos penetramos.
Somos suor e gemidos. Ardente destino o nosso: presa e predador. Sou-lhe entregue, sou banquete... Ei de fartar-te os apetites. Palita os dentes com meus sonhos e arrota os meus medos.... Quero apenas gozar neste deleite...

Angel

Cachorra




Te engulo gulosa
Boca faminta, ansiosa
Sobre tua pele ardente
Minha saliva escorre
Suavemente
As mãos são perdigueiras,
Que se esgueiram pelos pêlos
Os gemidos, são apelos
Do prazer de me ter te tua
Inteira. Lua. Nua.
Gulosa a boca perdigueira
Caça a pétala em flor
E sorrateira derrama-se
Inteira em gozos.

Angel

fotografia



Amo a flor que nasce em meio a espinhos.
Amo a pétala que trêmula sob a lua.
Amo a maciez aveludada da pele acariciada pelo orvalho e a ferocidade que lateja e rasga.
Amo teus olhos pousados sob a paisagem feito dois pássaros verdes assentados em fios.
Amo tuas voz musicada por nossos risos no final das tardes.
Temo e amo nossa utopia e desejo que se derrama sobre nós.
Amo ser arte e por ela sermos tão sós.
E amo o sol sob nossos dorsos nus enquanto trepamos na areia de uma praia deserta de padrões.
Amo a liberdade de ser totalmente tua, sem lhe pertencer. E vou ama, enquanto viver.


Angel

domingo, 7 de maio de 2017

Ir



Chega de ter limites.
Quero romper barreiras.
Quero o prazer incomensurável
A vida passa, fiquei presa aqui. 
Rogando piedade aos transeuntes, feito mendiga.
Chegou a hora de rasgar os velhos trapos e correr nua pelas ruas ...

Angel

Demônios



Hoje o demônio se apossou de mim.
Minha alma voou para uma dimensão obscura. E em meu corpo Lilith fez morada.
Ela falou pelos meus lábios.
Seduziu marinheiros. Despiu poetas.
Lilith almoçou com meus parentes e vomitou sobre a mesa do jantar.
Transou com meus homens e os fez gozar.
Hoje um demônio se apossou de mim enquanto minha alma constatava apavorada que ninguém ao redor percebia nada....

Angel

Domingar


Amanhece e os sons da cidade acordam. 
Fecho as frestas da janela, preciso da escuridão.
 Hoje é domingo e não preciso ver o mundo. 
Cinco dias da semana me obrigo a saltar da cama e sobreviver. Hoje não saudarei ao sol. 
Habitarei a caverna não platônica, respirando solidão no ar e cheirando meus dedos com fluidos vaginais. Foda-se o resto.

Angel.

Assalariada



Trêmulo na corda bamba
Há muitos boletos no bolso direito
E pouco amor do lado esquerdo. 
Bambeio. Oscilo ociosa.
Não é que tiraram a rede salva vidas?
Se cair a queda é livre. 
Embora seja bem provável que me enforque com a coleira que botaram no pescoço quando fiz dezoito.

Angel.

Durona


Quando olho no armário e não vejo as roupas do meu homem penduradas.
 Não choro.Mudo o tom de voz para grave, o olhar endureço, peço-lhe as chaves e aponto para a rua. 
Antes que diga que vai partir parto ao meio este troço que chamam de amor.
A porta da rua é a serventia da casa. Dá no pé, cria asa. E saia daqui, não esqueça de bater o portão.
É assim que ouço a batida caio abatida no chão...
Me rasgo, me corto, me descabelado, bebo veneno e quebro o espelho.
Eu sofro escondida. Na rua, bandida: batom vermelho, vestido colado, salto afinado.
E só pra não lhe dar o gostinho passo sorrindo e lhe aceno com a mão.

Angel.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Lençol



Veja o tecido branco que me cobre
Perfeitamente tecido e estendido sobre meu corpo
Está limpeza e perfeição não me traduzem. 
Porque elas esconde a devassidão e dor que trago comigo.
A lâmina voraz é a poesia que eu finco com afinco em busca de libertação.
Vaza nos versos o sangue sujo, mancha De lá Mancha a branquidão.
Sim, Quixotesca. Imersa na escuridão que sou, me afogo.
É, assim em agonia e êxtase, que ouço a voz do  amor a chamar meu nome.
Dos farrapos do lençol eu faço o laço que me ata a você.
 Eu lhe curo. Você me salva. Enquanto nós nos comemos ao som de Marley sob a luz pálida da lua cheia..

Angel