terça-feira, 20 de junho de 2017

Canção




O vento que sopra
Arrepia meu pêlos
Amo o vendaval que desalinha
minha vida e o meu cabelo
Minha história é
Feita de tempestades 

Meu desencanto é canto
Espalhando pelos quatro cantos
Desta cidade 
Se lhe causa espanto
A minha  liberdade
Só lhe peço respeito
Me dê uma chance

Afinal,
A vida é romance
Etecetera e tal
Amor é freelance
Mas me entrego total
Não estrague meu lance
Com sua falsa moral

Essa ventania que invade meus dias
E me leva a todos os lugares
Procurando um caso de amor
em todos os bares...
Mas ao final da noite, 
Na madrugada fria
Eu sempre acordo em sua companhia.

Será que todo este tesão é amor?
Será que todo este tesão já virou amor?

O vento que sopra
Sopra a liberdade
E eu quero amar você
 em todo canto
Desta cidade
Atravessar a rua
Beijando-lhe a boca
Quero dar de louca
E jantar você....

Afinal,
A vida é romance
Etecetera e tal
Amor é freelance
Mas me entrego total.

Será que todo este tesão já virou amor?
Será que minha confusão já amou você?

Angel.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Musa





Durante dias o poeta
procurou a Musa
Pelos bares da cidade
Pelos bosques ao redor
Pelos becos isolados
Pelos campos, por serrados

O poeta ficou rouco
De tanto chamar
Chamaram-no de louco
Vendo-o na rua a berrar

Bebeu o poeta
Da jarra de vinho
E bêbado de desejo
Tropeçou em versos não ditos

Não feliz, o poeta
Se entorpecer de absinto
Sedento de poesia
Participou de orgias

Quase nunca dormia
A não ser quando caia
Desmaiado n'alguma sarjeta

A Musa não se apiedou
Do desgraçado poeta 
Que pelas ruas vagou
Uma figura decrépita 

Riam dele as moças,
Desdenhavam-lhe os letrados,
As velhas carolas se benziam
Quando o ouviam recitar versos
na escadaria da igreja.
"Bêbado" "Tarado"
De tudo era tachado, mas
De poeta ele nunca foi chamado.

Numa noite de chuva forte
Encontrou a sua sorte
Ao cruzar uma avenida...
Então nos braços da musa
o poeta despertou.
No paraíso dos versos, 
seu corpo descansou.

Angel

Elvis



Sonhei com você, meu amor
Finalmente íamos nos casar
Eu, você e Elvis Presley
Estávamos juntos num altar
Muitas luzes, muito rock
Beijamos-nos finalmente
Ao som de love me tender
 Fomos prum motel barato
Transamos antes de chegar no quarto
No quartinho de limpeza
Me fez gozar sobre a mesa
No dia seguinte, de ressaca
Passeamos de mãos dadas
Quietos, eu estava mal humorada...
Mas, caminhavamos levando
um isqueiro descarregado,
pouco mais que dez trocados,
enormes e bobos 
sorrisos nos lábios
e corações apaixonados.
....

Angel.

Amor

Sento-me, cruzo as pernas a sua espera. 
Comportada feito menina, meus dedos brincam com o bordado da saia.
Olho de soslaio o Tempo que corre moleque e ri de mim. Até que me irrito e corro atrás dele. 
Desfaço o penteado, Borro a maquiagem, rasgo a saia num galho onde trepo. 
Gargalho do vento que leva a pipa, solto alguns palavrões, mergulho na vida.
O Tempo, travesso, me enche de cicatrizes. 
Eu corro. Eu rio. Eu brinco...
Invento-me guerreira. Pinto-me sonhos. Corto-me desilusões. 
E sigo. Sigo em frente...
Passam-se estações, pessoas, histórias. Eu planto sorrisos e colho saudades, por isso choro. 
Minhas lágrimas o Tempo recolhe em sua ampulheta e bebe....
Você chega de repente. Nos reconhecemos silenciosos. Há em nós aquele amor dormente, que explode intensidades. 
Não sou mais a menina recatada, delicada, que lhe esperou. Agora estou desgrenhada pelo vento, pelo tempo... Mas você me vê e sorri. Percebo no sorriso a ternura e respondo sorriso.
Nos abraçamos e olhamos o Tempo correndo ao longe. Ele agora é eternidade...

Angel

Angel

Janela

A janela ficou aberta a noite toda, 
a vida inteira.
Vi, através dela, o tempo fluir. 
Ventos, temporais, calor ardente, insetos sanguinários e amores violentos entraram e saíram por ali.
A bela tintura perdeu a cor, descascou-se. 
Vi a deterioração do belo. Passiva.
Hoje me levantei da cama, caminhei
em direção a claridade matinal.
Hoje, num ataque de fúria, fechei a janela.
Tranquei-me aqui onde não há luz.
Quero habitar a escuridão que me habita.
Serena...

Angel

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Fiz

Fiz versos para os teus sonhos
Fotografas-tes meus medos
Nus de corpo. Nus de alma.
Entre nossos corpos, nenhum segredo.
A Arte envolvendo-nos feito lençol,
aquecendo-nos contra o inverno que assola a humanidade.
Dois profanos contra a castidade.
Amantes confessos contra a hipocrisia.
Gozaríamos poesia.

Angel

Rimas

Não sei rimar seus ciúmes com a minha instabilidade. Não gosto de versos que rimam, de qualquer forma. Soam forçados.
A toa a vida nasce todos os dias, alguns a chamam milagre. Desconverso por conta do sono que não veio durante a noite e atou-se aos meus pés de manhã. Desconverso, embora descreia, já há muito, em milagres.
Apesar de descrente, levanto da cama todo dia e sorrio. Talvez seja costume, talvez isso seja fé. Não ver, mas crer. Não crer, mas viver, ainda assim, mais um dia. E todo dia, um dia de cada vez.
Olhar para o futuro me embaça as vistas e me embrulha as vísceras. Prefiro morar neste dia, nesta choupana triste de olhos claros.
Aqui não cabe nada, além desse amor imenso. Amor de obesidade mórbida, se derrama em sobras dentro de mim. Tão pequena.
Neste corpo quase translúcido, com uma alma cheia de maremotos. Me acostumei, nem abro o guarda-chuva, doei meu para- raios.
Se quiser trazer um acolchoado e deitar-se ao meu lado olhando o impossível, venha.
Se veio plantar espinhos, peço que saia de leve, sem causar estragos. Se crê que eu mereço, aceito as sementes de bom grado. Vou plantar e colher. E quando florescer, pisarei com os pés descalços, que é para sangrar você.
Queria que soubesse apenas, que quando lhe vi chegando, ao longe, imaginei- lhe um raio de sol a sobrepujar as densas nuvens e aplacar um pouco da minha tormenta. Mas vi de longe, devo ter apenas fantasiado. Delírios da loucura a que fui condenada. Mais nada....

Mesmo sem crer, mais um dia. Com um tantico de fé, meu bom dia.
Angel

Inverno

O inverno é estranho.Me deixa melancólica
(Como se eu já não fosse o bastante)
As pessoas pressentem e se achegam amistosas. Querem me salvar de mim.
Mal sabem, eu sobrevivente que sou!
Me falam de um deus que perdi pelo caminho.
Julgam-me por ter seguido só.
As pessoas mal sabem, que no dia em que deixei o deus que haviam me vendido, eu encontrei minha alma e minha fé.
Estes dias cinzas que fazem parte de mim, acontecem também vez ou outra às pessoas. Elas, quando acontece, se apavoram.
Eu, que estou quase que acostumada, sobrevivo.
A dor é suportável, o que paralisa é o medo.
Mas eu sou teimosa feito o Cão, busco o inferno e nele me aqueço.
O frio é estranho...


Angel.

Frases

Fez promessas, mas no final das contas foi embora deixando a porta entreaberta.
Pouco importa, afinal, toda história de amor é contraditória e pela fresta aberta que você deixou um novo amor entrou ...

Angel.


Imagens



Há lugares que são santuários
Lugares onde nosso olhar é uma prece.
Nesses momentos sagrados o milagre está no sorriso
espontâneo que suspira sereno em nossos lábios.
E o paraíso existe para as pessoas que encontram este lugar dentro de si.

Angel..

Cale-se, poeta!

Cale-se, poeta!
Dirija-se aos porões...
Caminhe pelos becos e vielas.
Ninguém quer ler seus longos poemas.
O mundo hoje é feito de flores de uma só pétala. Desfolhe-se.
Ah, e -por favor- tire estes espinhos dos seus versos.

 Não temos tempo para sangrar uma lágrima se quer.
Somos constituídos de certo grau de narcisismo 

e temos acesso a muita informação, 
portanto nos consideramos aptos a tudo.
Porém tudo é urgente. 

Somos alheios a introspecção, a contemplação e as Artes.
Então, poeta, desvie o olhar de nossa passividade idiocrática, t

emos vergonha de expor nossa mudez autoritária.
No entanto, criamos remédios que podem anestesiar seus sentidos. 

Deixá-lo como nós, seres normais.
 Basta conseguir uma receita médica atestando sua inconformidade.
No mais, poeta, solicitamos que evite nossas editoras.

 Temos muitos livros de auto ajuda a imprimir e precisamos enriquecer seus autores.
Sendo só, no presente momento, nos despedimos, 

desejando mais que você é sua poesia se fodam
Atenciosamente
Pessoas Normais.

Angel
C

amamos

Me deitava na escuridão da alma, ainda menina.
E ouvia galopes de sonhos, sem adormecer.
Sabia que era você.
Sempre rondou-me a alma, fez morada em meus pensamentos.
O tempo chicoteava- me feroz, mas nunca você chegava. Vinha seu gosto. Vinha seu cheiro.
Eu, vinho. Lhe esperava com duas taças cheias.
Virou vinagre e azedou-me, busquei-lhe em outros amores. Vãos.
Vãos nas paredes dos quartos de motéis baratos. Por onde eu lhe espiava em delírios enquanto gozava o não prazer de relações vazias.
Até que navegando, sem rosto ou nome, somente poesia você me reconhecia. E veio a mim num barco a remos. Remamos contra marés de estranhezas.
Mesmo assim não nos alcançamos. Afogamos-nos seduzidos por sereias e tritões; tivemos o coração destroçado por tubarões.
Amamos, mas permanecemos a solidão um do outro. 


Angel.

abandono

Na taça suja da noite passada
Restou o champagne, agora quente
Rente a borda
Restou na mesa minha cabeça recostada e minha mente apagada pelo álcool
O corpo pende preso a cabeça vazia de sonhos.
O outro corpo, que dividia comigo a bebida e a noite, se foi.
Há somente ausência fria sobre a cadeira.
Quando despertar deste estado de não-sono, não haverão claras lembranças, apenas o sabor amargando a minha boca, do abandono.

Angel.

Evoés

Evoés, poetas. Eu brindo...
a sutileza da beleza do simples de Manoel;
a nobreza de Drummond
aos suspiros doces de Cecilia
aos que passarinhos em Quintana
a melancolia suicida de Woolf
a ousadia salmoura de Hilst
ao escárnio profético de Buck
a riqueza polipoética de Pessoa
a enxada cavando versos em áridos Corações do Patativa
a putaria apaixonada e delirante de Vinicius musicada por Jobim e cantada por Chico
a versada ousadia de Florbela a espancar a esperança
as palavras romantizando o sexo em Neruda
Aos vermes que nos devoram de Anjos enquanto os Corvos de Poe - absortos absolutos, nos espreitam a carne podre.
Faço uma bacanal na esquina regado de poetas fumando versos, bebendo poesias. Num brinde a Musa erguem a taça Mikaela, diva dos versos gritantes entre Barphomeu e Afrodite, com a heteronímia estética de Caballero e a sedução requintada de Giar.
Feito ninfas incendiárias, nuas, cruas, perdigueiras, dançam em volta da fogueira; Baunilha, Valéria e Luciana.
Num canto próximo, não calados, estão anjos do subúrbio, instrumentados. Góes urbano, caótico, desprovido do pecado do não ser. Alexandre, verso-sangue, verso-bala, poesia- facada. E Rua poesia e prosa sobrevivente das guerras da vida. Naldo e Erick misteriosos, sedutores doces e arredios.
Noutro canto observo calada as não bem comportadas. Líria Porto e Lázara poetas politizadas armando alguma parada com a misteriosa Rubilar.
Carregando tochas e gritando louvores a baco vem Moraes, louco sensato. Elizário versado generoso a espalhar sua simpatia aos pares poéticos. Jordão, Raul e Manoel rindo ricos em ironia e sarcasmos textualizando contemporaneidade líricas.
No culto fértil à poesia as Musas reverenciadas extasiam e seduzem os poetas, cada vez mais se achegam num vinculo virtual em prol a arte, profanando a mesmice, estuprando a moralidade hipócrita. Eis, os poetas do hoje. Evoenos, grita Góes! Evoemos, brindamos nós!


Angel

Corpos

Puxa meu corpo contra o teu
Preciso sentir teu calor
Rasga minha roupa, não há tempo para cerimônias.
Nosso amor tem fome de carne exposta.
Morda-me, pois hei de sangrar e beberás de mim.
Seremos então eternidade.
Tu, senhor absoluto, das trevas que me habitam.
Cheira minha carne quente. Excita -te ouvindo o meu coração batendo acelerado. Meu medo endurecendo teu membro.
Eu sinto teu desejo e tremo vadia, querendo.
Não diga nada, apenas exponha tua vontade. 

De joelhos no chão minha boca abocanha-te inteiro. 
Gruda as mãos no meu cabelo e geme, me deixa assim molhada, ajoelhada em puro êxtase e resignação na busca do teu gozo.
Senhor de mim, governa-me sem piedade. 

Me toma abruptamente postando-me de quatro, fincando-me fundo o mastro que há pouco eu sorvia com gosto. Balbucio um protesto prazeroso...
E enquanto estalam os teus tapas no meu lombo, cavalga-me.
Galopamos profanos o prazer absoluto da entrega sem pudores até que gozo escandalosa regada por teu leite, nosso deleite termina com corpos extenuados abraçados ao amor frente a lareira.


Angel

internet

A personagem navega na rede,
prepara o bote. Esmaga e engole.
Não é Eva, culpada.
Não é Madalena, arrependida.
Não é Maria, imaculada.
É Lilith, a liberta.

Angel.

Noite

Anoitece na alma menina que há pouco corria traquina .
Perdem-se seus versos como o dia perde a luz.
E ela, ser mutante, caminha, ainda descalça.
Suas tranças se desfazem com a ventania que chega.
Furações devoradores de corações de meninas.
Mas ela segue. Teme, mas vai. Treme, mas vai.
Há pedras no meio do caminho.
Há lobos e caçadores.
Esperanças? Estas não se acham. Todas perdidas.
Pés que sangram viram asas.
Mãos que escrevem viram asas.
E voam poesia.
Escurece na alma da menina e ela se perde na escuridão.
Ninguém gosta das meninas perdidas.
Ninguém liga para as garotas que se prostituem poesia em troca de versos.
Preces confusas sobre liberdade são murmuradas nos delírios febris da madrugada,

 mas Deus não ouve os poetas.
Desce a Musa, feito anjo, feito luz e sussurra.
A menina febrilmente rabisca mediúnica.
Só assim, amanhece.


Angel.

faca

Se você cortar minhas asas
Se você cortar, vou sangrar.
Minhas asas são feitas de carne crua e cheia de veias .
Se você tolher minha liberdade
Se me tolher, eu vou sangrar
Minha liberdade é cheia de vísceras
e defeca atrás da moita.
Uivo nas noites de luas cheias e persigo ilusões como os cães perseguem rodas de carros.
Ainda tenho marca da corrente no pescoço, mas fugi. Minha alma nunca foi domesticada..
Se você me cortar eu sangro. Mas se não o fizer, eu mesma farei porque é muito tarde para se falar de amor.
Falemos da rima, inexata, gravada pelo fio da navalha.
"Sempre é tarde" estava escrito em minha coleira. Na coleira que rompi na força de um grito agudo, mudo e sobretudo ensurdecedor.

Angel

sopro




Espero teu sopro leve em minha nuca. Arrepio-me vagabunda. Sinto teu calor recostando no meu corpo em chamas. E sinto teu desejo crescendo sob a roupa. Viro-me e nossos olhos desafiam-se antes do beijo. Devoramo-nos promíscuos. Nus, então, nos penetramos.
Somos suor e gemidos. Ardente destino o nosso: presa e predador. Sou-lhe entregue, sou banquete... Ei de fartar-te os apetites. Palita os dentes com meus sonhos e arrota os meus medos.... Quero apenas gozar neste deleite...

Angel

Cachorra




Te engulo gulosa
Boca faminta, ansiosa
Sobre tua pele ardente
Minha saliva escorre
Suavemente
As mãos são perdigueiras,
Que se esgueiram pelos pêlos
Os gemidos, são apelos
Do prazer de me ter te tua
Inteira. Lua. Nua.
Gulosa a boca perdigueira
Caça a pétala em flor
E sorrateira derrama-se
Inteira em gozos.

Angel

fotografia



Amo a flor que nasce em meio a espinhos.
Amo a pétala que trêmula sob a lua.
Amo a maciez aveludada da pele acariciada pelo orvalho e a ferocidade que lateja e rasga.
Amo teus olhos pousados sob a paisagem feito dois pássaros verdes assentados em fios.
Amo tuas voz musicada por nossos risos no final das tardes.
Temo e amo nossa utopia e desejo que se derrama sobre nós.
Amo ser arte e por ela sermos tão sós.
E amo o sol sob nossos dorsos nus enquanto trepamos na areia de uma praia deserta de padrões.
Amo a liberdade de ser totalmente tua, sem lhe pertencer. E vou ama, enquanto viver.


Angel

domingo, 7 de maio de 2017

Ir



Chega de ter limites.
Quero romper barreiras.
Quero o prazer incomensurável
A vida passa, fiquei presa aqui. 
Rogando piedade aos transeuntes, feito mendiga.
Chegou a hora de rasgar os velhos trapos e correr nua pelas ruas ...

Angel

Demônios



Hoje o demônio se apossou de mim.
Minha alma voou para uma dimensão obscura. E em meu corpo Lilith fez morada.
Ela falou pelos meus lábios.
Seduziu marinheiros. Despiu poetas.
Lilith almoçou com meus parentes e vomitou sobre a mesa do jantar.
Transou com meus homens e os fez gozar.
Hoje um demônio se apossou de mim enquanto minha alma constatava apavorada que ninguém ao redor percebia nada....

Angel

Domingar


Amanhece e os sons da cidade acordam. 
Fecho as frestas da janela, preciso da escuridão.
 Hoje é domingo e não preciso ver o mundo. 
Cinco dias da semana me obrigo a saltar da cama e sobreviver. Hoje não saudarei ao sol. 
Habitarei a caverna não platônica, respirando solidão no ar e cheirando meus dedos com fluidos vaginais. Foda-se o resto.

Angel.

Assalariada



Trêmulo na corda bamba
Há muitos boletos no bolso direito
E pouco amor do lado esquerdo. 
Bambeio. Oscilo ociosa.
Não é que tiraram a rede salva vidas?
Se cair a queda é livre. 
Embora seja bem provável que me enforque com a coleira que botaram no pescoço quando fiz dezoito.

Angel.

Durona


Quando olho no armário e não vejo as roupas do meu homem penduradas.
 Não choro.Mudo o tom de voz para grave, o olhar endureço, peço-lhe as chaves e aponto para a rua. 
Antes que diga que vai partir parto ao meio este troço que chamam de amor.
A porta da rua é a serventia da casa. Dá no pé, cria asa. E saia daqui, não esqueça de bater o portão.
É assim que ouço a batida caio abatida no chão...
Me rasgo, me corto, me descabelado, bebo veneno e quebro o espelho.
Eu sofro escondida. Na rua, bandida: batom vermelho, vestido colado, salto afinado.
E só pra não lhe dar o gostinho passo sorrindo e lhe aceno com a mão.

Angel.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Lençol



Veja o tecido branco que me cobre
Perfeitamente tecido e estendido sobre meu corpo
Está limpeza e perfeição não me traduzem. 
Porque elas esconde a devassidão e dor que trago comigo.
A lâmina voraz é a poesia que eu finco com afinco em busca de libertação.
Vaza nos versos o sangue sujo, mancha De lá Mancha a branquidão.
Sim, Quixotesca. Imersa na escuridão que sou, me afogo.
É, assim em agonia e êxtase, que ouço a voz do  amor a chamar meu nome.
Dos farrapos do lençol eu faço o laço que me ata a você.
 Eu lhe curo. Você me salva. Enquanto nós nos comemos ao som de Marley sob a luz pálida da lua cheia..

Angel

jaci



Desafio das lendas:

Jaci luzia na noite
da aldeia onde
Naiá ouvia de Pajé
desde curumim
que tocando Jaci
brilharia como ela..

As Cunhãs desejosas
procuravam enfeitar-se
com penas nos cabelos
e pintura de urucun no rosto
buscavam o amor da lua
almejando tornarem-se estrelas.

Naquela noite escura
Jaci luzia inteira
parecia ter o tamanho do céu
Despertando desejos e ardores

Seu brilho seduzia a jovem Naia
que subia em árvores e montes
tentando o amor alcançar
Toda a tribo dormia, mas
a índia não desistia e, sozinha,
pela floresta seguia.

Naiá num descampado chegou
e ouviu o rio chorando
foi espiar e surpresa viu
refletido nas águas
O brilho de sua amada.

Sem pensar duas vezes
Mergulhou naquelas águas
Mas por mais que nadasse,
que o amor nunca alcançasse
Naiá não desistia.

Assim seu corpo boiou
no rio, como boia a lua no céu
Contam que a lua chorou
E por amor transformou
Naiá numa estrela do rio

Nas noites quando Jaci brilha
Naiá se abre em flor
exalando o suave perfume
do seu amor.

Angel

Lenda: vitória régia

Vadia


Acostumado a comer puta européia achou brega as carnes caipiras da poeta. 
Excitou-se, porém com seus versos a revelia do que seu estômago burguês exigia. Tal diversão gastromica não lhe agradou a digestão, então esferveceu um anti ácido destilado e arrotou calado sua solidão.

Angel.

Brasil 2017



Consta na história
Um povo visto como gado
Feliz de ir pro abate
Feliz por ser livre pra decidir
Se morre no fogo ou na faca
Consta, que às vezes, na história
O povo cansado se fez feroz
E ferozmente lutou unido
Consta que toda vez que isso
Aconteceu o povo deixou
De ser povo e fez história!

Angel

Foto de Gabriela Zanardi

Morte

Se eu gritar teu nome tão alto quanto possam os meus pensamentos, tu vira?
Entrarás pela janela fechada, sem arrombá-la e me levarás contigo no meio da noite?
Cavalgarás pelas estradas invisíveis dos sonhos e me esconderá dentre as brumas?
Preciso saber se podes me fazer sumir devagarinho nas lembranças​ dos que ficam, pois não quero lágrimas a me chamar.
Este lugar quente e seguro para onde me levas tem cheiro de mato? Preciso que tenha, porque me acalma.
Lembro-me criança, olhando a madrugada, esperando-te certa de que viria, de que me escolherias. Mas sempre fui enjeitada por ti. Mesmo tu rondando-me a vida toda.
Agora, dou por certa tua chegada. Cometi todos os Erros tolos que esperavam de mim. Não surpreendi as expectativas de ninguém. 
Irei como vivi, a toa. 
Quero fazer mais um pedido: peço que cante Dylan no longo trajeto rumo ao esquecimento.

Angel...

Viajante

Ela sempre dizia que ia embora, por isso deixava a mala pronta, ao lado da porta. Porém toda noite, pouco antes de adormecer dizia a si: vou ficar mais um dia, quem sabe vai  acontecer algo pelo que valha a pena insistir?
E ela ficava. E todo dia, aconteciam. Não grandes coisas, daquelas que saem nos notíciários, mas pequenas daquelas que marcam a alma pela eternidade...

Angel...

Assim



Entre assim e assado, 
eu lhe amo.
Não posso dizer 
que aprendi  este amor, 
mas que lembrei dele, 
porque ele já existia.

Ele, esse amor, faz parte de mim,
 como se fosse eu mesma.
Há, nessa nossa distância, 
uma falta de sentido absurda, 
que me entristece intensamente.

Se pudesse eu estar ao seu lado,
 iriamos junto regar o boldo
 que você plantou, mas que confidenciou
deixar a chuva molhar por preguiça.
E, juntos, nos surpreenderíamos 
ao vê-lo Florar...

Se pudesse estar ao seu lado
Deitaria em seu colo e 
Ouviria suas histórias
Até adormecer
Talvez, na madrugada,
Acordassemos nos procurando 
um ao outro, e nos amassemos
Até o amanhecer...

Angel...

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Foto

Por trás da lente vejo o mundo 
Por trás do mundo eu, mudo, observo você:
A borboleta que baila perdida entre as flores. 
Eu, lente. Foco seu voo livre. Aprisiono sua imagem, eternizo seu movimento.
Não respiro, o momento exige perfeição, entrega absoluta. 
Se eu lhe encurralar não registrarei a exuberância de suas asas, de sua alma.
Então deixo que desfile indecente entre galhos, espinhos, e jasmins.
A vida se movimenta no vácuo do seu planar.
Eu, onipresente, respiro enfim o amar

Angel.

Rosas

Sonhei que alguém me trazia flores. 
Eram rosas. Vermelhas.
Apenas três botões de rosas. Vermelhas.
A pessoa vinha quando deu um esparrão num vulto. Preto.
As flores se desfizeram no chão. Cinza.
Pétalas pingaram no caminho até mim. Sangue.

Angel

Demons

O demônio que me habita
É faminto e me devora
Rói a carne crua e 
Bebe minh' alma...
Eu, senhora do pecado
Sem hora pra perdões
Rogo, em vão o rosário,
Repito em grito o sermão.
Dai-me para comer teu corpo sacro
Que era trigo e fez-se pão.
Daí-me de  beber o vinho
Que era o teu sangue cristão.
Grunhe,  anjo caído!
Meu corpo teu abrigo
Também fez-se tua prisão.
Pois não há maior castigo
Que arrastar contigo
Um humano coração partido

Angel

Rotina

Rasguei o véu da noite
 e vi a nudez pálida dá aurora.
Beijou-me os lábios a
 velha solidão que mora comigo.
e bailamos tristes durante toda manhã
A tarde veio para o almoço
e trouxe consigo o olhos cansados
A fome de você.
Já não havia tempo para mais nada
O relógio dá sala batia as portas
Dá eternidade.

Angel

Releitura




Primeiro matavam os homossexuais.
Eu não me importei
Eu não era homossexual
 
Em seguida estupravam as mulheres
Mas eu não me importei
Eu nunca fui estuprada
 
Depois as balas perdidas mataram os favelados, mas eu não me importei com isso, porque eu não moro na periferia
 
Depois queimaram os mendigos
Mas eu tenho casa,  também não me importei .
 
Mais tarde bateram panelas, eu não bati. Mas não me importei. Com isso tiraram um presidente eleito, e eu não me manifestei.
 
Eu vi que seis famílias têm 70% de toda imprensa no Brasil, mesmo assim me achava informada vendo o Jornal Nacional. Eu vi pessoas de mídias alternativas, que expunham o outro lado da notícia,  sendo censuradas, mas eu me calei.
 
Agora, eles votaram contra os meus direitos. Mas talvez, já seja tarde. Como eu não me importei com ninguém. Como ninguém se importou com ninguém, agora eles não estão com medo.
Agora ninguém se importa comigo.
 
Releitura do Poema de Bertolt Brecht(1898-1956) por Angel Piai

terça-feira, 25 de abril de 2017

Ventre

fui arrancada ainda feto de um ventre e jogada aos lobos pra satisfazer-lhes.
filha da chuva e dos trovões, carrego a fúria do vento em meus quatro corações.
domei os lobos e, hoje, sou selvagem.
farejo a tempestade que se aproxima e me preparo, mas não espere que eu me fragmente, sou inteira
não espere que eu me esconda, 
sou verdadeira.
minha fé são estes pés ora em olímpo   ora em hades

angel

Frágil



não faça isso  comigo
sou frágil como uma lebre descarnada que vive
minha feridas são minha própria carne exposta
sei que todos me rodeiam
querem minha força,
minha luz,
a sexualidade que exalo....
mas compreendam, alguem
estuprou a menina que eu era
e eu carrego sua alma morta dentro do meu corpo
Ás vezes a morta geme , chora dentro de mim.
Tapo meus ouvidos com as mãos, mas não paro de ouvir seus lamentos dentro da minha cabeça.
Não exprema com força, não me julgue com severidade...
Eu me sinto perdida o tempo...

Angel

Tua




Quando digo que sou sua e você dúvida, perco meu rumo. 
Se lhe conto das saudades que senti e você diz que está com pressa em sair, quero pedir para que fique, mas perco as palavras.
Você é meu primeiro pensamento a cada amanhecer. Meu último pensamento, antes do adormecer.
Você me fez lembrar das preces que eu havia esquecido e trouxe a música às horas vazias.
Não vejo seus olhos, não sinto seu cheiro, mas sinto-o intensamente em mim.
E nossas almas perdidas se completam porque caminharam juntas por dezenas de existências.
Nos reencontramos, sem podermos nos encontrar. 
Eu, tão sua. Você, tão meu. Sem pertencimento , apenas sentimentos. Apenas amor.

Angel...

Faca



Há no fio dá lâmina o linear entre a vida e a morte.
Respiro o intervalo equilibrada sobre o medo.
Sou a resposta para a pergunta que ninguém nunca fez.
Sou a criança que teve a infância quebrada. Me corto com os cacos.
Mas todos os meus passos,  fui eu que caminhei. As culpas, são apenas minhas.
Agora o brilho está ofuscado pelo sangue doce da menina perdida.

Angel

Vampira



Estou em êxtase
Convulsão de gozos
Delírios com você numa madrugada febril.
A boca que percorre meu corpo inexiste. É sonho!
Atravesso a madrugada suando nos lençóis, gemendo seu nome no entreabrir dos lábios.
Você não está. Você não é. 
Eu, sua. Estremeço e sucumbo a exaustão deste desejo... 

Angel

Aranha

Teça sua teia
Envolva-me
Há em mim
Um quê de presa
Uma pressa em ser
Seu alimento
Há uma ânsia
Pelo sacramento
Pela dor, pelo fim
Eu, viscoso ser.
Inseto abominável
Parte baixa na cadeia alimentar
Eu, indigerível
Crave suas presas
No meu abdômen inchado
Sugue-me a gosma
Envenene-se
Que a nossa morte
Seja lenta e a dor
Insuportável.

Angel...

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Cama

Minha carne branca
 roçando os lençóis 
Minha Carne nua 
rolando na cama 
Sei-te rondando me na noite 
Sussurro o teu nome no vento
Aguça os ouvidos e
vem predador implacável 
nas madrugadas 
Fareja Minha Carne 
Deseja meu sangue
Possui minha alma
Tens fome de mim,
então venha selvagem
e me profana
Minha pele anseia
a tua mordida voraz.
Última chance
antes que eu corra
Faz parte da presa
tentar fugir.
Mas és caçador e 
sei que me queres
Prova do meu sangue
me faz parte de ti.

Angel...

Corvo

Mordo os pulsos
e conto o tempo:
A ave negra pousou
no ombro esquerdo
da moça louca.
Olhos vidrados e boca aberta
Moscas mortas ao chão
Ela se alimenta delas
uma a uma. ..
Com uma das mãos
enrola e arranca o cabelo.
Ela grita! GRITA...

Ninguém vê.

Veem a moça
Sentada de roupa alinhada
Cabelos dourados, bem penteados
Ela, prestativa e sorridente.

Ninguém ouve.

Angel

Menina

Menina, venha aqui
Presta atenção ao que lhe digo.
Chega de viver de sonhos tristes que caem das mesas no bar. 
Você não merece farelos ou restos...
Menina, enxuga estas lágrimas e  larga esta mania de ficar no chão.
Vem cá, segura a minha mão.
Você não está só, somos milhares. 
Irmâs da lua. Filhas de Gaia. 
Dançando nuas de corpo e alma ao redor do fogo. Onde nos queimarão, mas pouco importa, desde que dancemos na floresta.
O vento murmura nossa dor. Gememos o prazer e a agonia da Vida.
Não, menina, a vida não é um conto de fadas. 
Somos o que somos; pó de estrelas mortas. 
Todavia, menina, estas estrelas  reluzem em seus olhos tristes.
Então me abraça. Vamos caminhar com as mãos entrelaçadas até o infinito. É logo ali...

Angel...

Lâmina

Hoje quero a lâmina mais fina a traçar o seu bailado lírico sobre minha  pálida epiderme.
Que seja suave e sagrado manchando de carmin o meu leito dourado.
A dor desfilando ligeira sobre a carne, traçando retas, encurtando metas. 
Usurpar o que é sagrado. Ter os olhos selados pelo beijo maldito.
Hoje eu preciso silenciar todos os gritos dentro da minha cabeça...

Angel.

Louca

para entender-me você teria que abraçar a dor como eu abraço.
Teria que caminhar levemente na escuridão como caminho.
Teria ainda que devorar seu medo a cada amanhecer  como devoro.
Mas não deseje isso. 
Olha para mim, nada tenho a oferecer além das minhas cicatrizes. 
Bailo inconsciente e louca. Todavia absoluta.
Aflige-lhe a liberdade onde agonizo.
Não troco o milagre de ser.maldita.
Eu irrito. Eu provoco. Grito.
Me faço o abismo de  Nietzsche para você olhar.
No fundo, sou só o espelho a lhe encarar.

Angel

desafio.aceito Isabel Cabaleiro

Sangue

meu sangue que escorre
feito suor sobre a pele pálida
meu sangue, teu alimento fálico.
degenerados somos.
fora dos padrões, sem.patrões.
seguimos perdidos.
mas mais que humanos:
anjos caídos de paraísos 
decadentes.

angel

Lilith

tua deusa,
 Lilith!
caída e suja
sou a profanação
a poesia sem rima
a inspiração que
rouba teu sono
que te atormenta
Sou teu ódio gritando
sou a lágrima que te torna.humano.

angel

Dor

dor, dor que és tão forte... 
que destrói homens, mulheres e deuses.
por que me atormentas?
sou só um poeta mesquinho
que quer dar asas aos passarinhos...

angel

5 minutos

há cinco minutos eu te pertencia tão plenamente, mas por descuido ou descaso  me deixou solta.
desde então eu corro sem direção
liberta e assustada
livre e louca
perdida, mas minha

angel

Você

pensei em você
e vivi mais um dia
desenhei em minha pele
um coração vermelho-sangue
bebi a vida que fluia
fui forte, na fraqueza que me corrói.
você, mais um dia
um dia de cada vez...

angel

Frase

bom dia, poetas. 

"procurou poesia na lua. Deu de cara com a ciência nua e crua. Mesmo assim se encantou...
Pobre poeira de estrelas!"

Angel

Papo com o diabo

o cara quer comprar a minha alma. A minha alma, seu moço?
Tô vendendo não. Nem troco. Não alugo...
Minha alma é minha não é de velho barbudo, nem de anjo invejoso.
Minha alma é do Amor, da Poesia, da Dor. Do que me faz gemer, gozar, crescer...
Seu moço, não seja tinhoso. 
Meu coração é teimoso e só quer amar!
Não me sobra tempo pra negociata barata nem lorota da braba. 
Minha vida é labuta. Só ganho o suado, mas assim o valor de cada tostão é dobrado.
Um abraço apertado, seja pra deus ou o diabo .

angel.

Perséfone

fui arrancada ainda feto de um ventre e jogada aos lobos pra satisfazer-lhes.
filha da chuva e dos trovões, carrego a fúria do vento em meus quatro corações.
domei os lobos e, hoje, sou selvagem.
farejo a tempestade que se aproxima e me preparo, mas não espere que eu me fragmente, sou inteira
não espere que eu me esconda, 
sou verdadeira.
minha fé são estes pés ora em olímpo   ora em hades

angel

Dia de chuva

chuva, bendita chuva
cai sobre a poesia que veio me acordar antes do sol nascer.
Aplaca o calor solitário que estes versos gritam em minha alma.
No final da contas, depois de todos os gozos, seremos sempre e somente eu e a poesia.

angel

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Estranhez




É estranho falar
Do abstrato
De fato, te produzo concreto em meus pensamentos.
Construo-te parte de mim. Ilusão.
Você pássaro livre, voando imensidão.
Eu, nasci cativa. Conheço só a prisão.
Mas, confesso é bom ver pelas frestas teu voo, tua liberdade.
Faço de tuas as minhas asas e deliro lonjuras
Que nunca, nunca voarei.
Me faz bem ser-te...

Angel.

Guerra




Me agachei moleca atrás de uma moite de sonhos e mijei nuvenzinhas cor-de-rosa na areia chão.
De saia de chita, tranças e pés descalços corri pelo mato selvagem do meu coração.
 Lacei sem corda um negro corcel - liberdade- que montei em pêlo sem olhar para os lados. Cavalguei, Amazona que sou, encarei combates. 
Levo entre dentes uma adaga bem afiada para cortar  amarras que possam me prender.
Depois de tantas andanças desfizeram-se as tranças, a saia rasgou-se em trapos e os pés são cascos endurecidos de tanto se usar.... 
Mas meu coração agora é relva macia e orvalhada. Minha mente fronteira a ser ultrapassada. Cavalgo a liberdade que habita dentro de mim....

Angel

Pensamentos

A mãe solteira envolveram num manto de santidade. Reluz casta num altar de virgens possibilidades.
A madalena perdida envolveram de carmim, caminha vadia nas ruas e a apedrejam enfim.

Angel.

Mordo



Mordo os pulsos
e conto o tempo:
A ave negra pousou
no ombro esquerdo
da moça louca.
Olhos vidrados e boca aberta
Moscas mortas ao chão
Ela se alimenta delas
uma a uma. ..
Com uma das mãos
enrola e arranca o cabelo.
Ela grita! GRITA...

Ninguém vê.

Veem a moça
Sentada de roupa alinhada
Cabelos dourados, bem penteados
Ela, prestativa e sorridente.

Ninguém ouve.

Angel

Nina



Menina, venha aqui
Presta atenção ao que lhe digo.
Chega de viver de sonhos tristes que caem das mesas no bar. 
Você não merece farelos ou restos...
Menina, enxuga estas lágrimas e  larga esta mania de ficar no chão.
Vem cá, segura a minha mão.
Você não está só, somos milhares. 
Irmâs da lua. Filhas de Gaia. 
Dançando nuas de corpo e alma ao redor do fogo. Onde nos queimarão, mas pouco importa, desde que dancemos na floresta.
O vento murmura nossa dor. Gememos o prazer e a agonia da Vida.
Não, menina, a vida não é um conto de fadas. 
Somos o que somos; pó de estrelas mortas. 
Todavia, menina, estas estrelas  reluzem em seus olhos tristes.
Então me abraça. Vamos caminhar com as mãos entrelaçadas até o infinito. É logo ali...

Angel...

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Essencia



Eu mergulho toda noite no esquecimento.
 A escuridão mergulha em mim. 
Somos gêmeas siamesas. Nos completamos. Assustadora e perfeitamente. 
Não há espaço em meu ser onde eu não seja dor.
E gosto de estar perdida dentro de mim
Alguns anjos vieram me converter.
Pedi que saissem depressa, que trancassem a porta.
Então, os demônios entraram no vão das paredes. Mas não deixei que levassem minha alma.
Me rondam estes anjos. Me rondam demônios. 
Eu perdida que sou, mas tão consciente, grito: sou minha!
A morte ri do meu grito. Mas não vem. Sonda. Fareja e vai. Sempre volta, porém não me toca.
Enquanto fico permaneço garimpando essências. Poesia peneira. Poesia peneira. 
Vida miserável do garimpo. Vida miserável do poeta.

Angel.

Olha




Olha além do que pareço e vê o que sou. Através de todas minhas imperfeições
tenta compreender a minha busca.
Sempre serei a que está... 
Sei que carrego alguns cadáveres
Não se importe. São sonhos que morreram
E estão sepultados em meu coração.
Eles cheiram a flores recem colhidas.
Mas importa que eu sobrevivi a estas mortes.
Eis-me, guerreira!
Basta encarar meus olhos e saberá das minhas lutas. Todas intensas. Todas sangrentas.
Caminho, enquanto meus passos plantam a estrada.
Sempre fui andarilha de mim. 

Angel...

Noite




Se a noite cair que seja leve como são as folhas que caem no outono.
Se a noite cair que não seja breve, pois preciso sonhar tantos sonhos.
Que caia a noite, ausência da luz natural e prosperem postes pirilampos.
Pois que estou cansada de ver e enxergar a rotina dos dias.
Quero contar as estrelas no céu e não os calos em minhas mãos.
A noite véu a cobrir os meus olhos com seu doce manto de sedução.
Eu, noite. Eu, enluarada.
Caia a noite sobre a minha alma vadia e inunda de amores a minha poesia.

Angel.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Papa reto



Presta atenção que o papo é reto 
Um tiro direto no coração
Não venha com graça
Não faça pirraça
Não tem mais palhaça
Por isso, presta atenção
Me dei pra você
Fiz tudo o que pude
Tu deu de otário. Mané na atitude
Brincou comigo. Me fez chorar.
Chegou a hora desta mesa virar.
Não tô mais na tua.
Agora eu tô na minha.
Então sai da frente.
Larga do meu pé
Posso ate ter caido de quatro por ti
Mas já me ergui
Vagabundo nenhum 
Vai me deixar no chão.
Valho mais que isso
Sou um mulherão.
Já subi no no meu meu salto
E não tem chororô
Vou viver minha vida
Vou viver outro amor
Um beijo pra quem fica
Com dodói no cotovelo
Se encher muito o saco
Mostro o dedo do meio...

Angel..

Poeta morto



O corpo do poeta jaz inerte
Regado pelo choro ruidoso das carpideiras
Cercado por preces vazias.
Dorme o poeta morto
Enquanto eu velo teu sono
Num canto qualquer do saguão
Segurando a coroa de flores 
Disfarçando os odores da putrefação.

Dorme poeta morto
Que não mais versos fará
Ficarei aqui contigo
Até o coveiro lhe plantar
Feito semente na terra.
Mas tu não florirá.
Escondido atrás das flores
Seguro o meu punhal
Sujo com o sangue seco
Do unico golpe mortal

Dorme poeta morto
Inerte sobre a poesia
Nunca mais me chamara
De tua menina.
Nem me fará chorar
Sozinha a te esperar.

Arranquei-lhe o coração
Segurei em minhas mãos
Enquanto ainda batia
Vi a vida que se extinguia
Lambi-lhe o sangue e
Devorei-lhe inteiro.
Tinha gosto do vinho barato
Que me servia no copo
Plástico

Carregarei este segredo
Enquanto minha vida durar
Dorme  poeta morto
Que versos não mais fará.

Angel.

M




Eu mergulho toda noite no esquecimento.
 A escuridão mergulha em mim. 
Somos gêmeas siamesas. Nos completamos. Assustadora e perfeitamente. 
Não há espaço em meu ser onde eu não seja dor.
E gosto de estar perdida dentro de mim
Alguns anjos vieram me converter.
Pedi que saissem depressa, que trancassem a porta.
Então, os demônios entraram no vão das paredes. Mas não deixei que levassem minha alma.
Me rondam estes anjos. Me rondam demônios. 
Eu perdida que sou, mas tão consciente, grito: sou minha!
A morte ri do meu grito. Mas não vem. Sonda. Fareja e vai. Sempre volta, porém não me toca.
Enquanto fico permaneço garimpando essências. Poesia peneira. Poesia peneira. 
Vida miserável do garimpo. Vida miserável do poeta.

Angel.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Bolero

Danço o bolero de Ravel
Com chinelos que comprei no camelô
Borderlineio a dor do abandono...
Borboleteio sem asas no ar. 

Não sou um transtorno,
Só porque transbordo.



Satélite

Amo a noite
cheiros e sons
luzes artificiais
 ar levemente frio
as pessoas quietas

Eu acesa
Alerta

Branca lua nua sob a coberta 
Bordada de estrelas
Espio o preto
 Esparramo-me no céu....

Estrelas são cadáveres que brilham...
Eu não tenho luz
Sou reflexo de um astro  ausente.

Há a mística do amor no meu turno
Soturno, noturno
Rotulam-me
Fico cheia e a míngua.
São só fases.

Minha face cavalgada:
Apeia Jorge,  no coração de dragão!
Um crime santo. 

Angel.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Em Freud

Havia no inconsciente algo escondido
Manifestando-se em sonhos terríveis
Eu, menina nunca ouvida, levei a dor
Aquela dor grande escondida de mim.
Nos pesadelos ela virava um monstro
me tocando sem permissão...
E eu acordava chorando, coçando...
"É só um sonho", diziam
Sem amor próprio e permissiva
Entreguei-me a monstros reais
seus carinhos fugazes me afastaram
dos pesadelos...
Com o tempo os pesadelos sumiram
mas a dor do que sou não sara...
Ainda não lembro, embora suspeite.
Eu não sei, porem me condeno.
E condenada, eu me puno.
Me puno todos os dias.... Nunca será
o bastante.

Menina



Invento desculpas para te amar depois de tudo.
Invento motivos para ainda ser tua menina.
Me faz juras finjo que acredito. Entrego-me...
Sei que são mentiras. Mas me alimento delas.
Há mais em nossa historia do que uns versos.
Há uma dor que mereço sentir e tu a causa.
Causa e efeito. Verbo e sujeito.
Deixo-me ser ainda tua. Uma vez mais.
Uma última vez, me prometo. 
Mas no fundo eu sei, será só me chamar. 
Sempre direi sim. 

Angel