sexta-feira, 31 de março de 2017

Bolero

Danço o bolero de Ravel
Com chinelos que comprei no camelô
Borderlineio a dor do abandono...
Borboleteio sem asas no ar. 

Não sou um transtorno,
Só porque transbordo.



Satélite

Amo a noite
cheiros e sons
luzes artificiais
 ar levemente frio
as pessoas quietas

Eu acesa
Alerta

Branca lua nua sob a coberta 
Bordada de estrelas
Espio o preto
 Esparramo-me no céu....

Estrelas são cadáveres que brilham...
Eu não tenho luz
Sou reflexo de um astro  ausente.

Há a mística do amor no meu turno
Soturno, noturno
Rotulam-me
Fico cheia e a míngua.
São só fases.

Minha face cavalgada:
Apeia Jorge,  no coração de dragão!
Um crime santo. 

Angel.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Em Freud

Havia no inconsciente algo escondido
Manifestando-se em sonhos terríveis
Eu, menina nunca ouvida, levei a dor
Aquela dor grande escondida de mim.
Nos pesadelos ela virava um monstro
me tocando sem permissão...
E eu acordava chorando, coçando...
"É só um sonho", diziam
Sem amor próprio e permissiva
Entreguei-me a monstros reais
seus carinhos fugazes me afastaram
dos pesadelos...
Com o tempo os pesadelos sumiram
mas a dor do que sou não sara...
Ainda não lembro, embora suspeite.
Eu não sei, porem me condeno.
E condenada, eu me puno.
Me puno todos os dias.... Nunca será
o bastante.

Menina



Invento desculpas para te amar depois de tudo.
Invento motivos para ainda ser tua menina.
Me faz juras finjo que acredito. Entrego-me...
Sei que são mentiras. Mas me alimento delas.
Há mais em nossa historia do que uns versos.
Há uma dor que mereço sentir e tu a causa.
Causa e efeito. Verbo e sujeito.
Deixo-me ser ainda tua. Uma vez mais.
Uma última vez, me prometo. 
Mas no fundo eu sei, será só me chamar. 
Sempre direi sim. 

Angel

Ansiedade

Preciso tentar escrever sobre este momento, sobre esta sensação horrível. Não sei se terei  coerência ou coesão. 
Queria apenas transportar em palavras você leitor ao meu caos. Não por maldade.
Preciso que alguém compreenda esta culpa que cai sobre me mim como se um saco fosse colocado sobre minha cabeça impedindo-me de respirar.
Mãos invisíveis me espremem as víceras...
Angústia. Angústia. Angústia.
Quero gritar. Sou um grito.
 Entalada. Engasgada...
Sou medo. Pavor...
Odeio

Angel.

Lobo



Ouve o que não digo, lobo. 
Ouve meu sussurro perdido na  floresta densa. 
Sei-te alerta. 
Em estado de caça. 
Confesso-me orgulhosa do meu predador.
Mas não esteja triste, lobo, que nossos corações batem num só ritmo. 
E tua dor é minha. 
Deixa-me acarinhar-te o pelo.
 Deitar-me contigo na relva. 
Perdoa-me, lobo....

Angel com Celso Roberto Nadilo

sábado, 25 de março de 2017

Que farei eu desta morte que me habita?
Até quando beberei do sangue que escorre dos meus lábios feridos?
A noite escura envolveu-me a alma. 
Sou tristeza.

Era uma menina
Que morava na escuridão
Uma menina
Perdida na solidão.
Olhai pra ela
Que perdida esta
Corre feito louca
Onde irá parar?

Partiu-se ao meio
E o vento levou
Era uma menina
Seu nome era Amor...

Sangro pela fenda
Partida
Da xícara de café
Amargo
Que você me serviu
Frio....
Sempre frio...

A faca em chamas
Transpassou meu peito
Pensou que me feria
Mas meu coração
há muito
já não batia....

Quero beber no seu beijo
O amargo veneno
A me matar
Quero a saudade doida
Abrir a ferida
E por ela chorar....

Fantasma da ópera

O mascarado que segura-me pelo pescoço
com mãos invisíveis e faz minha respiração parar.
Este, que não vejo, mas me domina absoluto.
O fantasma que caminha pela parede
e nas madrugadas entra sorrateiramente em minha cama. 
Este ente que me possui,
que arranca suspiros, gemidos e,
misteriosamente como chega, se vai.
Faz-me pássaro sem voo.
Faz-me canto. Me encanta.
Cobre teu rosto disforme.
Cobre-me de beijos, pois desejo-te assim como és.
Tua voz é a escuridão que minha solidão que ouvir.

Angel.





sexta-feira, 24 de março de 2017

J

Sempre me cansam 
os risos, as lágrimas
as palavras entaladas,
os medos infantis...
Me cansam demasiado
as indiretas maldosas, 
os mentirosos de amor...
Chego a exaustão
e desabo  ociosa.
Entrego-me covarde
ao desalento.
A rudeza da vida
me espinha o espírito,
me rouba a gana
de lutar.
Sobrevivo. A que preço?

Angel

I

Soma comigo
O bem que trazes
Multipliquemos o amor
Que nos alimenta
Se falta coragem
Que sobrem abraços
Porque eles são os laços
Que unem. Amem.

H

Sondam-me histórias lidas...
E personagens enigmáticos me rondam feito fantasmas. 
Há na alma que sou tantas almas que percebo.
Vejo e pressinto o aconchego  das histórias que os mortos sopram nos meus ouvidos.
 Enredo a vida translaçada aos enredos
 que por vezes transcrevo em versos malditos.

Angel

sábado, 18 de março de 2017

Busca

Vou deixar-me ser
a chuva que refresca, 
a brisa que semeia,
o trovão que lembra...

Não deixarei transparecer
a dor que carrego,
a morte que assombra
e o temor que me ronda

Abraço a tua solidão
Curo tuas feridas
Acalmo teu coração
E o que me dói,
 eu disfarso.
 E sorrio, mesmo
quando  arde.



Ossos

Meus ossos doíam e fui ao médico
Depois de tirar uma selfie foi-me dito que eles estão envelhecendo rapidamente.
Antes que minha alma. Antes que minha mente.
Meus ossos dóem um tempo que ainda não tive, que ainda não vivi.
Eles dóem um futuro que ainda não sou.
E, quando tento correr e alcançar este futuro, meus ossos rangem. E eu posso ouvi-los gemer o triste lamento de quem não será...

Angel.


sexta-feira, 17 de março de 2017

Dia

Não tenho mistérios
Não guardo segredos
Sou esta coisa
Crua,  forte e amarga
Chamada realidade
E estou nua diante de vocês
Quem irá me devorar 
Com o café da manhã?

Angel.


quarta-feira, 15 de março de 2017

Borboleta




Eu vi a borboleta
morrendo lentamente.
Vi a agonia suave das asas
tremulas...
Sua morte silenciosa
no jardim.
Eu vi  a morte escura e densa surgir...
E eu quis olhar. 
Não me deixei distrair pelos pássaros.
Não cheirei as flores.
Não brinquei com as joaninhas.
Mas também não sei precisar
quanto tempo se passou...
Sei que havia alguma melodia
no vento...
A vida se esvaiu.
Um par de asas jazia inerte 
há poucos segundos
quando as formigas
 destroçaram a carcaça.

A morte gigante monstruosa
Foi devorada pelas formigas..
E a vida continuou no jardim.

terça-feira, 14 de março de 2017

Remédio




Belo e tangível
 o diálogo silencioso
 de nossos olhares
 entrecruzados

A Bruma causticante
 ao redor não oprime
o sentimento puro
 que esfervesse
 feito química perfeita

Espíritos antigos
 se reconhecem e 
reatam laços invisíveis

Assumimos o compromisso
 selamos com suor sangue
 e regamos com lágrimas...

Que floresça em luz 
a poesia...
   (amarga cura para estas vidas vazias)

Má.

domingo, 12 de março de 2017

Ente

O poeta é o ente que
 pertence a dois mundos; 
o visível e o invisivel
 é o que trafega entre 
a dor e o prazer extremos
Não cabe no poeta ser raso
Cabe a ele ser a lança 
que transpassa o peito
para expor as feridas que temos
Não cabe a poesia curar feridas. 
O leitor as descobre em seu peito 
quando lê e , a partir daí,
 pode escolher curar-se..

terça-feira, 7 de março de 2017

Mulher

Eu tenho um grito escrito dentro dum poema feito alma de semente que germina.
Eu trago o fardo deste gênero dentre as coxas que você teima em abrir a força.
Não me force a provar-lhe meu poder.
Carrego no ventre um universo inteiro em constante transformação
Cansei de parir em segredo. Então ouça meu grito, ele é nascimento. Nele trago a voz silenciada de todas as mulheres.
Minha voz é a voz das meninas violadas. Meu grito é o eco do grito de todas as mães órfãs de filhos mortos sem glória nas guerrilhas urbanas.
Sou a cor amarela pintada por Carolinas faveladas da fome e das miséria do mundo.
Sou o brado guerreiro de Dandaras e o sangue que lhe escorre enquanto luta por liberdade
Eu, a que arranca a mordaça de Evas e Madalenas, silenciadas por religiões que lhes fizeram crer não merecedoras. Eles lhes queimaram.
Deixo-me queimar
Deixo-me arder
E renasço.
Porque não nasci mulher, me tornei. Tomei a unha o direito de ser.
Dona absoluta do meu corpo. Liberta de preceitos e preconceitos. 
Mesmo sofrendo eu não me calo. Mesmo soFRIDA,  eu não me KALO.
A cada onze minutos minha carne é devorada. A culpa é sempre minha, mereço ser estuprada seja de burca ou de minissaia.
Arrancam o meu clitóris, é pecado o meu tesão.
A história não nos deu voz, enquanto nos bastidores fizemos o Mundo girar. A Deusa, mãe fértil de todos nós, foi encoberta com um véu e posta virgem num altar.
 Sou somente mais uma Maria , dentre tantas na multidão Meu sobrenome é poesia, o que me põe na contramão. 
Seja nas ciências, nas Artes, na Literatura ou na filosofia, sempre houve e sempre haverá uma maria

Angel

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sobre o meu escrever...



Que se foda a estirpe com que marcaram a minha carne
Quero me enfiar contigo numa fieira de cana  e trepar feito bicho deitada da terra arada. 
Porque eu aprendi sobre o amor romantizado nos livros de literatura, mas eu gosto mais de amar no mato, com cheiro de instinto e sem fino trato.
Gosto de ruminar com as vacas no pasto e vê-las cagar o estrume quente. Gosto de adubar meu jardim com a bosta seca. 
Não que não admire a erudição e a delicadeza. Juro, joaninhas e orquídeas me fazem chorar... Mas só consigo amar de verdade alguém depois de imaginar-lhe uma disenteria.
Somos humanos, porra, para que tanta água de colônia para disfarçar nossos fedores?
Há beleza na crueza. Há tristeza nos sorrisos  consertados por anos a fio para parecerem perfeitos.  Há muito vazio nas academias cheias. E há tanta vida na morte.
Eu trepo com as palavras. Poderia dizer que fui agraciada pelo dom da poesia pelos arautos eruditos da putaqueopariu. 
A verdade é que tenho esta febre que me arde desde antes de eu ser alfabetizada. Essa angustia de ver, senti, cheirar, devorar, lamber, me extasiar e vomitar e tudo isso virou poesia. A verdade é que essa é a loucura e a salvação. 
Meu ser se entrega a Musa, sacrifica-se no Altar da Intensidade e sangra, sangra até a morte em cada parto.
Eu me nutro do que vivo, do que leio, do que aprendo e do que observo (com olhos de alma) porque sei que quando Musa chegar ela vai me espremer pelo pescoço até o gozo. Tenho que estar apta a servi-la.
Sou caipira. Caipora do mato. Brejeira de pé no chão. Sei mais do folclore que de mitologia. Por isso meus versos trazem a dor do estrepe, a voz dos passarinhos, o gosto-vezes doce vezes azedo- de fruta, o sexo dos bichos, a fala arrastada do Interior. Por isso eles abrem porteiras e montam a unha nos toros. Por isso eles caçam com lobos e são preguiçosos como gatos.
Ás vezes, estou dormindo, sonhando com mortos e acordo com um texto engasgado. E tenho que escrever para voltar a respirar. Isso não é normal. Isso é foda e eu não vou usar uma palavra chique para descrever isso. 
Porque eu prefiro; eu preciso ser muito honesta, muito clara, lúcida e fiel ao que me chega. Minha Musa é visceral. Ela quer que eu sangre e chega plantando a lança em meu ventre. Por isso eu sangro em êxtase meus versos sem rimas, crus, feridas. Eu não escrevo, eu latejo...

Angel.