quinta-feira, 29 de junho de 2017

Números

Agora que eu descobri que sou m número não quero mais sentir.
Agora que me descobri um rótulo não procuro mais que existir.
Antes não, antes eu vivia. Abraçava as manhãs como quem abraça a saudade quando ela volta.
Antes eu corria pelas tardes como as gazelas pelas savanas.
Antes eu não deitava para dormir, me deitava para sonhar..
Hoje sou uma sequencia numérica. E ela diz: quem sou; o que posso; até onde ir; quando voltar; o quanto pertenço...
Sem ela, embora eu caminhe, ame, viva...eu não existo.
O número, esse sim metáfora do não existir, vale mais que meu eu físico, psíquico, espiritual.
Ele, mudo, fala mais lato que eu....música.
Pessoas longínquas, quase de outras dimensões decidem, através de gráficos e proporção, os destinos, as vidas..
Valores são números, não mais que isso.
Perdeu-se o correr descalça, a pular na poça de lama, o riso escancarado.
Sorrio discreta com dentes enjaulados. Afinal, tudo tem que estar simetricamente alinhado.
Sequencial. Produção em série. Vou. Vamos.
Proíbem-nos de decidir não fazer parte. É contra lei (da vida, dos homens, de um deus).
Então, caibamos na forma. Mesmo que ela nos deforme.
Então que o ferro em brasa nos marque a carne, no enumere.
Anulemos convenientemente a inconveniência questionadora, a curiosidade e a criatividade.
Para que o Império do número reine absoluto,
Para que a ditadura dos rótulos seja soberana,
Faz-se fundamental que se mate a Arte.

Angel

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Curto



O amor candeia-se em ritmos 
que bailamos enlouquecidos.
Parceiros na valsa da vida
não desafinamos uma só nota,
desafiamos todas as apostas
E deixamos a música levar...

Angel

Curto


Cai a noite de leve
Levando as luzes
Criando as sombras
Sopro vida
Supero instantes
S o b r e v i v e n t e
Vago sombria
Na imensidão
Que sou.

Angel

Curtos

Baila perigosamente pela vida, menina!
É teu (des)equilíbrio que mantém a órbita dos planetas.
Sede o que és e, a partir daí, transborda o mundo...

Angel

terça-feira, 20 de junho de 2017

Canção




O vento que sopra
Arrepia meu pêlos
Amo o vendaval que desalinha
minha vida e o meu cabelo
Minha história é
Feita de tempestades 

Meu desencanto é canto
Espalhando pelos quatro cantos
Desta cidade 
Se lhe causa espanto
A minha  liberdade
Só lhe peço respeito
Me dê uma chance

Afinal,
A vida é romance
Etecetera e tal
Amor é freelance
Mas me entrego total
Não estrague meu lance
Com sua falsa moral

Essa ventania que invade meus dias
E me leva a todos os lugares
Procurando um caso de amor
em todos os bares...
Mas ao final da noite, 
Na madrugada fria
Eu sempre acordo em sua companhia.

Será que todo este tesão é amor?
Será que todo este tesão já virou amor?

O vento que sopra
Sopra a liberdade
E eu quero amar você
 em todo canto
Desta cidade
Atravessar a rua
Beijando-lhe a boca
Quero dar de louca
E jantar você....

Afinal,
A vida é romance
Etecetera e tal
Amor é freelance
Mas me entrego total.

Será que todo este tesão já virou amor?
Será que minha confusão já amou você?

Angel.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Musa





Durante dias o poeta
procurou a Musa
Pelos bares da cidade
Pelos bosques ao redor
Pelos becos isolados
Pelos campos, por serrados

O poeta ficou rouco
De tanto chamar
Chamaram-no de louco
Vendo-o na rua a berrar

Bebeu o poeta
Da jarra de vinho
E bêbado de desejo
Tropeçou em versos não ditos

Não feliz, o poeta
Se entorpecer de absinto
Sedento de poesia
Participou de orgias

Quase nunca dormia
A não ser quando caia
Desmaiado n'alguma sarjeta

A Musa não se apiedou
Do desgraçado poeta 
Que pelas ruas vagou
Uma figura decrépita 

Riam dele as moças,
Desdenhavam-lhe os letrados,
As velhas carolas se benziam
Quando o ouviam recitar versos
na escadaria da igreja.
"Bêbado" "Tarado"
De tudo era tachado, mas
De poeta ele nunca foi chamado.

Numa noite de chuva forte
Encontrou a sua sorte
Ao cruzar uma avenida...
Então nos braços da musa
o poeta despertou.
No paraíso dos versos, 
seu corpo descansou.

Angel

Elvis



Sonhei com você, meu amor
Finalmente íamos nos casar
Eu, você e Elvis Presley
Estávamos juntos num altar
Muitas luzes, muito rock
Beijamos-nos finalmente
Ao som de love me tender
 Fomos prum motel barato
Transamos antes de chegar no quarto
No quartinho de limpeza
Me fez gozar sobre a mesa
No dia seguinte, de ressaca
Passeamos de mãos dadas
Quietos, eu estava mal humorada...
Mas, caminhavamos levando
um isqueiro descarregado,
pouco mais que dez trocados,
enormes e bobos 
sorrisos nos lábios
e corações apaixonados.
....

Angel.

Amor

Sento-me, cruzo as pernas a sua espera. 
Comportada feito menina, meus dedos brincam com o bordado da saia.
Olho de soslaio o Tempo que corre moleque e ri de mim. Até que me irrito e corro atrás dele. 
Desfaço o penteado, Borro a maquiagem, rasgo a saia num galho onde trepo. 
Gargalho do vento que leva a pipa, solto alguns palavrões, mergulho na vida.
O Tempo, travesso, me enche de cicatrizes. 
Eu corro. Eu rio. Eu brinco...
Invento-me guerreira. Pinto-me sonhos. Corto-me desilusões. 
E sigo. Sigo em frente...
Passam-se estações, pessoas, histórias. Eu planto sorrisos e colho saudades, por isso choro. 
Minhas lágrimas o Tempo recolhe em sua ampulheta e bebe....
Você chega de repente. Nos reconhecemos silenciosos. Há em nós aquele amor dormente, que explode intensidades. 
Não sou mais a menina recatada, delicada, que lhe esperou. Agora estou desgrenhada pelo vento, pelo tempo... Mas você me vê e sorri. Percebo no sorriso a ternura e respondo sorriso.
Nos abraçamos e olhamos o Tempo correndo ao longe. Ele agora é eternidade...

Angel

Angel

Janela

A janela ficou aberta a noite toda, 
a vida inteira.
Vi, através dela, o tempo fluir. 
Ventos, temporais, calor ardente, insetos sanguinários e amores violentos entraram e saíram por ali.
A bela tintura perdeu a cor, descascou-se. 
Vi a deterioração do belo. Passiva.
Hoje me levantei da cama, caminhei
em direção a claridade matinal.
Hoje, num ataque de fúria, fechei a janela.
Tranquei-me aqui onde não há luz.
Quero habitar a escuridão que me habita.
Serena...

Angel