quarta-feira, 19 de julho de 2017

Anjo

Ajoelho-me no chão frio
onde plantei o medo
e abraço a fé que perdi.
Há marés turbulenta
inundado meus olhos.
Minha prece nunca foi dita
nasce de mim e em mim,
não morre.
Nenhum deus foi glorificado...
As palavras saem em verso.
As palavras são poesia...
As canto baixinho no vão 
da madrugada...
Meu corpo treme,
minha alma teme,
meu coração sussurra...
O tempo não existe, é silêncio!
Então, ele vem. Ele é Luz.
Não olho, mas vejo-o.
Sinto-o intensamente,
quando me abraça e
sopra seu fôlego puro
no meu ouvido:
"não tema!"
A luz se vai aos poucos.
Só, na escuridão, estou.
Deito-me, mais calma, 
mas ainda choro...
Então, adormeço.

Angel.


Crônica de mim

Mãos que me deitaram no asfalto quente, com a suavidade de uma doença silenciosa destruindo um organismo aparentemente saudável. Nem uma ferida, nem um gemido.
Toque e calor. Submissão e quietude.
Na nuca o metal frio. O estampido veio ensurdecedor. E vi o mundo e a vida
passando em câmera lenta.
Um caleidoscópio cristalizou-se na minha retina e não senti medo da morte, aquele anjo belo e quente que tocava minha alma...
Pensei, ele a levará...tudo findou.
Horas depois, acordei.Era menina, ainda.
 Estava em minha cama, ao lado dos meus irmãos...
Irônico, mais de trinta e tantos anos depois, eu ter essa dor na nuca bem onde o estranho encostou a arma e me acertou. Esquisito lembrar do sonho? Nem tanto, ele foi tão vívido que falei e escrevi sobre ele diversas vezes.
Pena não ter mais meus diários....

Angel

#cronicaterapia001



terça-feira, 18 de julho de 2017

Frases

Peço licença para invadir-te sem decência.
Meu desejo não aprende a ser contido.
E contigo quero estar a vida toda 
mesmo que isso dure o eterno desta hora....

Angel.


Amor

Eu queria te amar livremente na beira da noite, entre a realidade e os sonhos.
Ainda insone e alerta deslumbrada apenas com os teus beijos.
Liberta dos medos infantis que não abandonei a medida que envelhecia
Escrevo estes versos mal traçados em meio ao caos do trânsito, ao lado de um outro alguém que me conforta, mas não desperta os sentimentos que por ti tenho.
Sou uma covarde com medo da vida, com medo do amor irresponsável....
Mas que posso fazer se me abati tantas vezes nos descaminhos traçados?
Te vejo saindo da minha vida. Quero gritar teu nome, pedir que fique...Não ouso. 

Angel




Você

Só existe você neste brado ecoando por todo meu eu.
Existe você e essa sua ausência agonizante.
Há versos mudos ululando entre nós feito aves carnívoras.
Elas bicam meus olhos enquanto choro.
Tremo o frio da saudade de seu corpo contra o meu.
A solidão urra feito loba no cio e eu lhe chamo na madrugada entre sonhos e delirios febris.
Você nunca vem. Ouve, mas não volta.
Escuta, porém não se importa.
Louca imagino-lhe:
 Cobre-me com seus beijos, 
aquece-me com suas carícias, 
faz-me gozar em meu desejo...
A loucura me leva a você sabendo-lhe inexistência...

Angel



Morte

Quero escrever, mas a morte berra pela minha boca e eu não quero dar voz a ela.
Meu hálito azedo da bebedeira na noite anterior também não ajuda eu fingir ser humana.
Não tive coragem de viver todos amores que senti. Todavia amei loucamente e me apaixonei perdidamente por muitas vezes.
Obviamente quebrei a cara pra caralho...
Eu não gosto nada da sensação de perda. No entanto, vivo.me apaixonando de novo. 
Ás vezes, por mais de uma pessoa ao mesmo tempo. E todos os caras se acham o melhor....
Não me importo com esta merda toda. Ou me importo demais, sei lá.
Sempre tive um monte de caras balançando seus paus duros na minha cara desde menina e meio que me viciei nisso. Me sentir um lixo é melhor que me sentir um nada.
(Gosto de fazer textos longos que poucas pessoas lêem...)
Também não sou essa desgraça, tenho coisas valiosas na minha vida. Coisas que conquistei e que pouca gente se quer sente o cheiro durante a existência toda.
Mas não sei. Sou meio estragada por dentro e faço muita força pra não ferrar tudo. Então, assim que acender a luz e sair deste quarto, vou escovar os dentes e sorrir.


A menina do poeta

Serelepe bebe  café e masca chicletes
enquanto se derrete lendo histórias de amor
na internet...
Calça ALL star em qualquer ocasião
Bebê Coca cola no canudo dizendo que faz bem à digestão
Menina maluca que vive no mundo da lua
com pés descalços no chão levando todos os sonhos trançados no coração.
Menina que canta  noite e  dia
trazendo alegria por onde passa..
Que desafina, mas canta
pois gosta de contrariar a tristeza
que vive querendo por mesa
Faceira Menina que  encanta a vizinhança
com seu jeito traquina, que corre moleque 
a beira do precipício levando poemas 
nas mãos.
Desajeitada Menina que sempre tropeça 
em delírios derrubando o que trazia
mistura, então  música e rima espalhando poesias na canção.
 Menina que caminha deixando um rastro de luz por onde passa feito rastro de estrelas na escuridão, mas que descompassa o coração do velho poeta, pois enquanto passa ultrapassa os limites entre a terra e o céu, entre o amargo e o mel, entre o você e o eu.

Angel




.

Carn'anal

Encarecidamente rogo
aos donos das verdades
aos perfeitamente sãos
aos inabaláveis
que sigam sua estrada
convictos e seguros.
Afastem-se de nós 
os que estão em dúvidas
os enlouquecidos
os que se perdem pelo caminho.
Deixem-nos para trás 
Deixem-nos dançando sem música
Deixem-nos em paz
dentro de nossa luta.
Sei que cansamos vocês
os perfeitos
os absolutos
os centrados, mas
abrimos caminho
saímos da frente
lhes deixamos passar... Sigam!
Vago vagamente perdida
deixai-me tatear já que
reconheço minha cegueira
minha ignorância
minha completa falta de bom senso.
Minha poesia não é
perfeita em sua Língua
rimada em sua trova
literalmente prosa?
Sinto muito, seguem minhas lágrimas
dobradas no guardanapo sujo do bar
presas no vão da mesa
perdidas na almofada do sofá
Seguem também as desculpas
que eu mal digo, sendo maldita.
Nós, os perdidos.
os poetas que se rasgam
em alma e carne
Nós, os carn'almas, delirantes
que vomitamos versos...Os nojentos!
Os que repugnamos sua finésse poética...
Deixai-nos para trás. 
Não necessitamos de medalhas
não desejamos honrarias
não ansiamos pela sua aprovação
(linguística, moral, intelectual)
A poesia ampara nossas vísceras
nos salva da insanidade completa
nos humaniza, nos salva.
Por isso e para isso somos poetas.
porque a pétala nos fala
tanto quando o espinho
porque às vezes, sangramos na flor...
Deixai-nos aqui
mesquinhos, pequenos, delirantes
e afastem-se vestidos com a toga do saber
absoluto.
Nós ficaremos aqui vendo os vermes
roerem as carnes das carcaças
que nem os abultres, nem as hienas
quiseram provar.
Já é tarde demais para nós,
 os malditos...

Angel

*Na foto Puna Baush


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Janela

A janela ficou aberta a noite toda, 
a vida inteira.
Vi, através dela, o tempo fluir. 
Ventos, temporais, calor ardente, insetos sanguinários e amores violentos entraram e saíram por ali.
A bela tintura perdeu a cor, descascou-se. 
Vi a deterioração do belo. Passiva.
Hoje me levantei da cama, caminhei
em direção a claridade matinal.
Hoje, num ataque de fúria, fechei a janela.
Tranquei-me aqui onde não há luz.
Quero habitar a escuridão que me habita.
Serena...

Angel

Noite do desencontro

A noite do nosso desencontro 

Eu saio de casa para não lhe encontrar.
Marcamos de nos desver na praça central.
Saia preta pregueada rodada como eu em você
Enrendamos uma trama, maior é o drama a nos envolver.
O descompasso dos nossos passos, nem AllStar azul poderia prever.
A meia noite nos desencontramos com a lua cheia de eu em você.
No beijo que nós não damos mais do que saliva trocamos. Somos tão demodê...
Sem dentes mordemo-nos os lábios. Vamos nos beber. Seu sangue o meu envenena e eu enveneno você.
Despido de todo pecado corremos pelados pela multidão. 
Uivamos apaixonados para um astro cheio do nosso tesão.
Fazemos amor feito bicho, no meio do mato, deitados no chão.
E eu volto para casa envolvida nos frios braços da solidão.

De: Angel

Dedilhar

Nos meus dedos o cheiro da noite que sonhei contigo 
Nos meus dedos o agridoce do prazer fingido.
Nos dedos meu gosto como se fosse teu.
Um delírio de imaginação poderosa que resulta no gozo estupendo.
Uma noite de amor bem louca desejando o amado meu.
Me cheiro, farejando-te.
Teu gosto, consumindo-me.
Êxtase das mãos estremecendo-me

Angel.

Você

Sinto-me na rua
Sinto-me nas pessoas que passam
Saio-me de mim e vou...
Penetro nas almas e construo versos.
Meus versos falam dou meu eu, 
mas comunicam-se com o mundo.
Transcendo o meu sentir, 
atinjo o universal.
A poesia que faço é alteridade. 
Poesia é um ente vivo e latejante
no seio de uma sociedade torpe.
Rasteja solene a margem.
Silenciosamente berra, arranha.
Sinto-me no espírito dessa gente toda.
Sinto-me nas pessoas que já passaram,
que se foram há tempos.
Saio da zona de conforto
rasgo-me ao meio e cicatrizo poesias.
A poesia que vejo nas ruas, escrevo.

Angel

Conexão

Sinto-me na rua
Sinto-me nas pessoas que passam
Saio-me de mim e vou...
Penetro nas almas e construo versos.
Meus versos falam dou meu eu, 
mas comunicam-se com o mundo.
Transcendo o meu sentir, 
atinjo o universal.
A poesia que faço é alteridade. 
Poesia é um ente vivo e latejante
no seio de uma sociedade torpe.
Rasteja solene a margem.
Silenciosamente berra, arranha.
Sinto-me no espírito dessa gente toda.
Sinto-me nas pessoas que já passaram,
que se foram há tempos.
Saio da zona de conforto
rasgo-me ao meio e cicatrizo poesias.
A poesia que vejo nas ruas, escrevo.

Angel
Foto: 

Nuvens

De menina brincava 
que as nuvens eram doces
que a lua era mágica
que o sol era habitável...
E a noite eu esperava
deitada num telhado
que seres de outro mundo
me levassem... 
Eu olhei para o céu com fé
a vida toda... 
E o céu nunca olhou para mim.
Mas nós já choramos juntos,
algumas vezes.
E trovoamos muitas tempestades.
Deito-me na terra, minha mãe.
E olho para o céu, meu pai
Há ainda há  um pouco da menina em mim...
Um pouco da sonhadora romântica a desejar o gosto de nuvens algodão doce.
Ainda há em mim as tempestades
Ainda me habitam algumas esperanças...

Angel

Foto de Jorge Queiroz

Trevas

Sempre há de parecer certo sucumbir aos desejos insanos de meu coração. 
Tarde da noite trafego insone a procura de inspiração. 
A rasgo a dentadas nas madrugadas em busca de essências.
Não oro, nem choro, mas me corto. A dor que se parte reparte-me entre sentires que viram sangue e de sangue vertem versos. 
Se houver condenação que seja pela vírgula mal colocada separando verbo e sujeito.
Mas nunca me condene por me sujeitar ao verbo.  
Já que cavalgo tão solitária entre as brumas deixa-me delirar... Deixa-me delirar e despencar suavemente neste abismo que eu sou...

Angel

Dor

Meu pescoço tem uma cicatriz
Eu amo minha cicatriz
Meu ventre tem cicatrizes
Eu amo os frutos dele
Me cortaram muitas vezes
Me feriram sem precisar
Amo minhas feridas
Há agora, na nuca,
Uma dor constante
Que oscila, entre o suportável
e o insuportável
Não amo a minha dor, mas
Quase entendo que a mereço.
Nunca dei um sorriso a menos
Por conta da minha dor
Nunca disse "agora não posso te ouvir"
Por conta da minha dor
Nunca faltei do trabalho
Por conta da minha dor.
Eu a levo comigo
No olhar, na poesia, no amor 
Que trago no meu peito.
Eu me respeito por isso

Angel.

Leve

Eu quase voei...
Quase!
Eu flutuei e vaguei
longe do meu corpo,
pleno espírito.
Fui leve como folha levada 
pelo vento outonal...
Fui leve!
Mas voltei, tinha que estar aqui.
Por isso, fiquei.

Angel

Foto: Jorge Queiroz