quinta-feira, 2 de março de 2017

Sobre o meu escrever...



Que se foda a estirpe com que marcaram a minha carne
Quero me enfiar contigo numa fieira de cana  e trepar feito bicho deitada da terra arada. 
Porque eu aprendi sobre o amor romantizado nos livros de literatura, mas eu gosto mais de amar no mato, com cheiro de instinto e sem fino trato.
Gosto de ruminar com as vacas no pasto e vê-las cagar o estrume quente. Gosto de adubar meu jardim com a bosta seca. 
Não que não admire a erudição e a delicadeza. Juro, joaninhas e orquídeas me fazem chorar... Mas só consigo amar de verdade alguém depois de imaginar-lhe uma disenteria.
Somos humanos, porra, para que tanta água de colônia para disfarçar nossos fedores?
Há beleza na crueza. Há tristeza nos sorrisos  consertados por anos a fio para parecerem perfeitos.  Há muito vazio nas academias cheias. E há tanta vida na morte.
Eu trepo com as palavras. Poderia dizer que fui agraciada pelo dom da poesia pelos arautos eruditos da putaqueopariu. 
A verdade é que tenho esta febre que me arde desde antes de eu ser alfabetizada. Essa angustia de ver, senti, cheirar, devorar, lamber, me extasiar e vomitar e tudo isso virou poesia. A verdade é que essa é a loucura e a salvação. 
Meu ser se entrega a Musa, sacrifica-se no Altar da Intensidade e sangra, sangra até a morte em cada parto.
Eu me nutro do que vivo, do que leio, do que aprendo e do que observo (com olhos de alma) porque sei que quando Musa chegar ela vai me espremer pelo pescoço até o gozo. Tenho que estar apta a servi-la.
Sou caipira. Caipora do mato. Brejeira de pé no chão. Sei mais do folclore que de mitologia. Por isso meus versos trazem a dor do estrepe, a voz dos passarinhos, o gosto-vezes doce vezes azedo- de fruta, o sexo dos bichos, a fala arrastada do Interior. Por isso eles abrem porteiras e montam a unha nos toros. Por isso eles caçam com lobos e são preguiçosos como gatos.
Ás vezes, estou dormindo, sonhando com mortos e acordo com um texto engasgado. E tenho que escrever para voltar a respirar. Isso não é normal. Isso é foda e eu não vou usar uma palavra chique para descrever isso. 
Porque eu prefiro; eu preciso ser muito honesta, muito clara, lúcida e fiel ao que me chega. Minha Musa é visceral. Ela quer que eu sangre e chega plantando a lança em meu ventre. Por isso eu sangro em êxtase meus versos sem rimas, crus, feridas. Eu não escrevo, eu latejo...

Angel.