terça-feira, 6 de junho de 2017

Musa





Durante dias o poeta
procurou a Musa
Pelos bares da cidade
Pelos bosques ao redor
Pelos becos isolados
Pelos campos, por serrados

O poeta ficou rouco
De tanto chamar
Chamaram-no de louco
Vendo-o na rua a berrar

Bebeu o poeta
Da jarra de vinho
E bêbado de desejo
Tropeçou em versos não ditos

Não feliz, o poeta
Se entorpecer de absinto
Sedento de poesia
Participou de orgias

Quase nunca dormia
A não ser quando caia
Desmaiado n'alguma sarjeta

A Musa não se apiedou
Do desgraçado poeta 
Que pelas ruas vagou
Uma figura decrépita 

Riam dele as moças,
Desdenhavam-lhe os letrados,
As velhas carolas se benziam
Quando o ouviam recitar versos
na escadaria da igreja.
"Bêbado" "Tarado"
De tudo era tachado, mas
De poeta ele nunca foi chamado.

Numa noite de chuva forte
Encontrou a sua sorte
Ao cruzar uma avenida...
Então nos braços da musa
o poeta despertou.
No paraíso dos versos, 
seu corpo descansou.

Angel

Elvis



Sonhei com você, meu amor
Finalmente íamos nos casar
Eu, você e Elvis Presley
Estávamos juntos num altar
Muitas luzes, muito rock
Beijamos-nos finalmente
Ao som de love me tender
 Fomos prum motel barato
Transamos antes de chegar no quarto
No quartinho de limpeza
Me fez gozar sobre a mesa
No dia seguinte, de ressaca
Passeamos de mãos dadas
Quietos, eu estava mal humorada...
Mas, caminhavamos levando
um isqueiro descarregado,
pouco mais que dez trocados,
enormes e bobos 
sorrisos nos lábios
e corações apaixonados.
....

Angel.

Amor

Sento-me, cruzo as pernas a sua espera. 
Comportada feito menina, meus dedos brincam com o bordado da saia.
Olho de soslaio o Tempo que corre moleque e ri de mim. Até que me irrito e corro atrás dele. 
Desfaço o penteado, Borro a maquiagem, rasgo a saia num galho onde trepo. 
Gargalho do vento que leva a pipa, solto alguns palavrões, mergulho na vida.
O Tempo, travesso, me enche de cicatrizes. 
Eu corro. Eu rio. Eu brinco...
Invento-me guerreira. Pinto-me sonhos. Corto-me desilusões. 
E sigo. Sigo em frente...
Passam-se estações, pessoas, histórias. Eu planto sorrisos e colho saudades, por isso choro. 
Minhas lágrimas o Tempo recolhe em sua ampulheta e bebe....
Você chega de repente. Nos reconhecemos silenciosos. Há em nós aquele amor dormente, que explode intensidades. 
Não sou mais a menina recatada, delicada, que lhe esperou. Agora estou desgrenhada pelo vento, pelo tempo... Mas você me vê e sorri. Percebo no sorriso a ternura e respondo sorriso.
Nos abraçamos e olhamos o Tempo correndo ao longe. Ele agora é eternidade...

Angel

Angel

Janela

A janela ficou aberta a noite toda, 
a vida inteira.
Vi, através dela, o tempo fluir. 
Ventos, temporais, calor ardente, insetos sanguinários e amores violentos entraram e saíram por ali.
A bela tintura perdeu a cor, descascou-se. 
Vi a deterioração do belo. Passiva.
Hoje me levantei da cama, caminhei
em direção a claridade matinal.
Hoje, num ataque de fúria, fechei a janela.
Tranquei-me aqui onde não há luz.
Quero habitar a escuridão que me habita.
Serena...

Angel