quarta-feira, 12 de julho de 2017

Janela

A janela ficou aberta a noite toda, 
a vida inteira.
Vi, através dela, o tempo fluir. 
Ventos, temporais, calor ardente, insetos sanguinários e amores violentos entraram e saíram por ali.
A bela tintura perdeu a cor, descascou-se. 
Vi a deterioração do belo. Passiva.
Hoje me levantei da cama, caminhei
em direção a claridade matinal.
Hoje, num ataque de fúria, fechei a janela.
Tranquei-me aqui onde não há luz.
Quero habitar a escuridão que me habita.
Serena...

Angel

Noite do desencontro

A noite do nosso desencontro 

Eu saio de casa para não lhe encontrar.
Marcamos de nos desver na praça central.
Saia preta pregueada rodada como eu em você
Enrendamos uma trama, maior é o drama a nos envolver.
O descompasso dos nossos passos, nem AllStar azul poderia prever.
A meia noite nos desencontramos com a lua cheia de eu em você.
No beijo que nós não damos mais do que saliva trocamos. Somos tão demodê...
Sem dentes mordemo-nos os lábios. Vamos nos beber. Seu sangue o meu envenena e eu enveneno você.
Despido de todo pecado corremos pelados pela multidão. 
Uivamos apaixonados para um astro cheio do nosso tesão.
Fazemos amor feito bicho, no meio do mato, deitados no chão.
E eu volto para casa envolvida nos frios braços da solidão.

De: Angel

Dedilhar

Nos meus dedos o cheiro da noite que sonhei contigo 
Nos meus dedos o agridoce do prazer fingido.
Nos dedos meu gosto como se fosse teu.
Um delírio de imaginação poderosa que resulta no gozo estupendo.
Uma noite de amor bem louca desejando o amado meu.
Me cheiro, farejando-te.
Teu gosto, consumindo-me.
Êxtase das mãos estremecendo-me

Angel.

Você

Sinto-me na rua
Sinto-me nas pessoas que passam
Saio-me de mim e vou...
Penetro nas almas e construo versos.
Meus versos falam dou meu eu, 
mas comunicam-se com o mundo.
Transcendo o meu sentir, 
atinjo o universal.
A poesia que faço é alteridade. 
Poesia é um ente vivo e latejante
no seio de uma sociedade torpe.
Rasteja solene a margem.
Silenciosamente berra, arranha.
Sinto-me no espírito dessa gente toda.
Sinto-me nas pessoas que já passaram,
que se foram há tempos.
Saio da zona de conforto
rasgo-me ao meio e cicatrizo poesias.
A poesia que vejo nas ruas, escrevo.

Angel

Conexão

Sinto-me na rua
Sinto-me nas pessoas que passam
Saio-me de mim e vou...
Penetro nas almas e construo versos.
Meus versos falam dou meu eu, 
mas comunicam-se com o mundo.
Transcendo o meu sentir, 
atinjo o universal.
A poesia que faço é alteridade. 
Poesia é um ente vivo e latejante
no seio de uma sociedade torpe.
Rasteja solene a margem.
Silenciosamente berra, arranha.
Sinto-me no espírito dessa gente toda.
Sinto-me nas pessoas que já passaram,
que se foram há tempos.
Saio da zona de conforto
rasgo-me ao meio e cicatrizo poesias.
A poesia que vejo nas ruas, escrevo.

Angel
Foto: 

Nuvens

De menina brincava 
que as nuvens eram doces
que a lua era mágica
que o sol era habitável...
E a noite eu esperava
deitada num telhado
que seres de outro mundo
me levassem... 
Eu olhei para o céu com fé
a vida toda... 
E o céu nunca olhou para mim.
Mas nós já choramos juntos,
algumas vezes.
E trovoamos muitas tempestades.
Deito-me na terra, minha mãe.
E olho para o céu, meu pai
Há ainda há  um pouco da menina em mim...
Um pouco da sonhadora romântica a desejar o gosto de nuvens algodão doce.
Ainda há em mim as tempestades
Ainda me habitam algumas esperanças...

Angel

Foto de Jorge Queiroz

Trevas

Sempre há de parecer certo sucumbir aos desejos insanos de meu coração. 
Tarde da noite trafego insone a procura de inspiração. 
A rasgo a dentadas nas madrugadas em busca de essências.
Não oro, nem choro, mas me corto. A dor que se parte reparte-me entre sentires que viram sangue e de sangue vertem versos. 
Se houver condenação que seja pela vírgula mal colocada separando verbo e sujeito.
Mas nunca me condene por me sujeitar ao verbo.  
Já que cavalgo tão solitária entre as brumas deixa-me delirar... Deixa-me delirar e despencar suavemente neste abismo que eu sou...

Angel

Dor

Meu pescoço tem uma cicatriz
Eu amo minha cicatriz
Meu ventre tem cicatrizes
Eu amo os frutos dele
Me cortaram muitas vezes
Me feriram sem precisar
Amo minhas feridas
Há agora, na nuca,
Uma dor constante
Que oscila, entre o suportável
e o insuportável
Não amo a minha dor, mas
Quase entendo que a mereço.
Nunca dei um sorriso a menos
Por conta da minha dor
Nunca disse "agora não posso te ouvir"
Por conta da minha dor
Nunca faltei do trabalho
Por conta da minha dor.
Eu a levo comigo
No olhar, na poesia, no amor 
Que trago no meu peito.
Eu me respeito por isso

Angel.

Leve

Eu quase voei...
Quase!
Eu flutuei e vaguei
longe do meu corpo,
pleno espírito.
Fui leve como folha levada 
pelo vento outonal...
Fui leve!
Mas voltei, tinha que estar aqui.
Por isso, fiquei.

Angel

Foto: Jorge Queiroz